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O TEMPORA, O MORAES

Homem sempre à frente de meu tempo (o qual se situa entre o nascimento de Homero e os primeiros avanços de Átila, o Huno), escrevia um e-mail outro dia quando vi surgir de repente um quadrado com uma saudação na parte inferior direita da tela. “Isaac Asimov estava certo”, pensei aterrorizado, enquanto corria para pegar um crucifixo. Segundos depois, percebia duas coisas: primeira, sou agnóstico; segunda, o olá vinha de Nelson Moraes.

Eis que existe uma maneira de conversar através do Gmail, foi o que deduzi. Ou isso, ou meu computador é médium e estava me dando mostras de querer que o leve para assistir a Nosso Lar.

Seja como for, reproduzo abaixo a conversa:

Nelson: Cara, tudo bem aí?

Eu: Tudo beleza. E por aí?

Nelson: Tranquilo. Pra quando é o nenê, mesmo?

Eu: Março do próximo ano. Já a minha morte, deve ficar pra janeiro.

Nelson: Hahahahahahahaha. Já escolheram o nome?

Eu: Não. A gente ainda nem sabe se é menino, menina ou um pé de couve.

Nelson: Hehehehehe.

Eu: De acordo com a ultrassonografia, voto pelo último.

Nelson: O importante é a beleza interior.

Eu: Você diz isso porque mora em Goiás.

Nelson: E que ele assuma sua pedecouvice.

Eu: Vou aceitar, não tenho preconceito. Se ele decidir ser pé de couve, que seja. Essas coisas a pessoa não escolhe.

Nelson: Vai ser um pé de couve enrustido?

Eu: De jeito nenhum. Tem que sair da horta.

Nelson: Que ele tenha uma namorada vegan, pelo menos.

Eu: Não. Ela arrancaria tudo dele antes mesmo de se divorciarem.

Nelson: Ele não precisaria se fantasiar de Hulk pro Halloween, por outro lado… Bom, deixar você ir almoçar. Era só pra dar um alô, mesmo.

Eu: Peraí, falar em pé de couve, cadê o bundão do Branco? Deu notícia*?

Nelson: Até agora, nada. Não sei em que pé as coisas estão.

Eu: Couve bem o que te digo: se a gente não ficar no pé do Surdo**, é capaz de ele esquecer até de respirar.

Nelson: Uai. Então tá então. Vou ver se mando um e-mail na base do “E aí, notícias?” hoje, mais tarde.

Eu: Joia. Agora, sim. Vou almoçar. Ih, é couve…

Nelson: HAHAHAHAHAHAHA.

* O bundão do Branco está preparando Os Macacos do Museu Britânico, livro que traz a primeira reunião de textos do Nelson, a ser publicado em breve por Os Viralata e cujo único defeito é ter sido organizado por mim.

** O bundão do Branco, além de patente deficiência cerebral, sofre de surdez em um dos ouvidos. Não perguntem qual, ele não vai escutar.

ATLETA DE CRISTO

— Bem, amigos, terminada a partida, estamos aqui com o nome do jogo, Regicleiton. Regi, explica pra gente como você conseguiu marcar aquele golaço.

— Foi Deus, Pinga. Deus tem me abençoado em todas partida e se num fosse Deus eu num tinha feito nenhum dos meus gol, então se tem uma pessoa que eu tenho que agradecer é somente Deus.

— No caso, três pessoas. Obrigado, Regi. É com você, Aguinaldo.

— Obrigado, Pinga. Olha, e eu estou aqui justamente com aquele que nas palavras de Regicleiton foi seu maior incentivador: Deus, Ele que é o Todo-Poderoso, Ele que atua nas onze, Ele que bate escanteio e aparece pra cabecear, enfim, Ele que é o maior anacoluto do universo. E então, Senhor, como tem passado?

— As feministas que me desculpem, mas eu não passo. Lá em cima, é a Simone de Beauvoir que faz isso pra mim. Ha, ha, ha. Essa foi boa.

— Er… Senhor, qual foi exatamente sua influência sobre o Regicleiton essa noite?

— Regi quem?

— Cleiton.

— Olha, se isso tem a ver com aquele papo de Maria e José, eu já falei mais de mil vezes que não tive participação nenhuma na história. Agora me aparece esse tal de Regicleiton. Vou logo avisando, não tenho medo de fazer teste de DNA, hein? Há dois mil anos venho escutando piadinhas do Espírito Santo sobre o assunto, Jesus já passou por mais de cinquenta terapeutas. Só freudianos foram nove, e a passagem Céu-Inferno custa uma nota.

— Senhor, Senhor, não é nada disso. O Regicleiton disse que o Senhor o iluminou, por isso ele marcou o gol que classificou o XXXV de Pindamonhangaba à…

— Iluminei? Rapaz, eu só tô aqui porque sou onipresente, tenho que tá em todos os lugares ao mesmo tempo, ou você acha que num domingo à tarde eu estaria assistindo a uma partida de peteca?

— Fubebol.

— Ou isso. Vocês, humanos, não têm criatividade, puxaram ao Diabo: cadê aqueles bons tempos de perseguição de cristãos no Coliseu, de atenienses degolando espartanos, de sujeitos arrancando os olhos por ter fornicado com a mão, digo, a mãe? Tudo isso é culpa de Prometeu, que roubou a bola e entregou a vocês. A bola acabou com toda a inocência e beleza da humanidade.

— O Senhor quer dizer o fogo…

— Fogo, bola, tudo queima nos pés dos jogadores da Seleção. Ha, ha, ha. Essa foi ótima.

— Obrigado, Senhor. Fique Consigo. Pinga, é com você…

PAI DE ÚLTIMA VIAGEM

Ah, não há nada mais belo na natureza do que a gravidez! Tanto assim que me vejo tentado a compor uma écloga à Teócrito sempre que, com olhar cálido, observo minha mulher pôr a mão meiga sobre a barriga, debruçar-se belamente sobre a privada e vomitar, amorosa, todo o conteúdo de seu estômago, mais cerca de um ou dois terços da alma.

Verdade seja dita, nunca participei de rituais de exorcismo (não entrando na conta as vezes que levei minha sogra ao aeroporto) para poder comparar, mas concluindo pelo que vi n’O Exorcista posso afirmar que Platão estava certo quando condenou toda arte como imitação barata da realidade (em seu tempo, os ingressos para teatro eram mais em conta, imagino; e não havia o Sérgio Mallandro).

Sim, porque, ou não entendi muito bem o filme, ou aquela moça interpreta pessimamente uma gestante. E me pego ansioso esperando o momento em que minha mulher rodopie pelas paredes, desça escadas de costas ou me peça para pegar um copo d’água em latim do primeiro século.

Vocês, pais experientes, poderiam me dizer se é natural que com dois meses de gravidez a mulher enjoe regularmente, como se estivesse assistindo a um eterno show de Bruno & Marrone. Quanto a mim, sei de botes que vão de Cuba à Flórida com passageiros mais contentes. E às vezes me pergunto se, ao final de nove meses, ela não vai dar à luz um pote de óleo de rícino.

CARTA ABERTA A JONATHAN POPE

Caro Sr. Pope,

Com relação à desrespeitosa carta que o senhor teve a audácia de me enviar no último dia dez, passados exatos sete dias de seu retorno à Inglaterra, é com extrema indignação que gostaria de esclarecer:

1) Acho risível sua rancorosa afirmação de que os cariocas não passam de hominídeos. Ora, como pode o senhor – logo o senhor, vítima de um arrastão em que lhe subtraíram alguns pequenos pertences, como a mochila, as roupas do corpo e, se não me engano, a esposa –, afirmar tamanha tolice? O ataque em massa de que participou e em que, contando com um pouco de boa vontade, poderia ter interagido de maneira mais lúdica, entre um oh, my goodness e um please, don’t kill me e outro, foi perpetrado por criaturas em perfeito domínio do bipedismo e cujas armas de grosso calibre eram habilmente seguras com o auxílio de dedos polegares opositores, ágeis e flexíveis. Incompatíveis, portanto, com as acadêmicas descrições dos hominídeos.

2) Ainda agora me quedo embasbacado por ter o senhor se utilizado de um episódio menor, qual seja, o estupro de seu cunhado um dia após a chegada ao Brasil, como meio para rotular os brasileiros de “bárbaros”. É preciso jamais ter lido os clássicos greco-romanos para não saber que o amor entre iguais é uma invenção das sociedades mais distintas, sendo inclusive mote para o imortal Banquete de Platão. Não será necessário citar Alexandre nem César para deixar claro que a prática homoerótica é um sinal de grandeza e bravura. O senhor me dirá que o amor não foi consentido, mas haverá de entender que os arrebatamentos do coração nem sempre são racionais, e o que é o gang bang senão uma versão pós-moderna de Romeu e Julieta ou Otelo?

3) Quanto ao pequeno Jonathan Jr. ter caído em um mínimo buraco ao atravessar a rua e nunca mais ter sido encontrado, convenhamos, é coisa que pode acontecer em qualquer parte do globo. As bocas de lobo servem para escoar água e são mais uma demonstração de uma civilização altamente organizada, uma patente evolução dos aquedutos romanos. Já para o fato de o rombo no chão não estar tapado existem várias explicações razoáveis, como, por exemplo, a abdução da tampa do bueiro por alienígenas de Alfa Centauro; uma saída para dar um passeio do Monstro das Profundezas que, como é consabido, mora nos esgotos de todas as grandes cidades; uma tomada de decisão da própria tampa de bueiro, que resolveu partir para voos mais altos, empregando-se como calota de carro, roda de charrete, frisbee etc.

4) Por fim, como intelectual com passagem pela conceituada Universidade Harvard, era obrigação sua ter observado que o achaque dos policiais sofrido pelo senhor na delegacia demonstra de maneira irrefutável ter nossa sociedade atingido um nível mercantilista em suas relações sociais, com ênfase no capital, denotando um estágio avançado de cultura, fato perceptível a qualquer leigo. Além disso, o enunciado “rola uma grana pra birita aí e nós agiliza os trabalho, patrão” comprova a existência de um aparelho fonador maduro e desenvolvido, coisa impensável numa espécie pré-sapiens.

Sem mais por ora, e ainda prenhe de revolta, despeço-me.

Atenciosamente,
Marconi Leal.

EIACULA EX MIHI

Uh, ah, uh! Não vou… ah!… não vou… não vou conseguir segurar…

Goza fooora!

Agora vou. Vou conseguir segurar até a semana que vem.

Não faz isso, que foi? Volta aqui. Só queria avisar que tô no período fértil e não tô tomando a pílula.

Pra que pílula quando a gente tem um métoda contraceptivo muito mais eficaz, que é gritar “Goza fooora!” no pé do ouvido do marido? Se os chineses soubessem disso, tava resolvido o problema da superpopulação por lá. E digo mais, Roma teria sido um reino pra sempre se Lucrecia tivesse gritado no ouvido de Tarquínio: Eiacula ex miiiihi!

E você queria que eu fizesse o quê: pedisse licença, descesse nos correios e passasse um telegrama? Os rapazes estavam prestes a invadir a Normandia.

Não diga, Rommel. E você achou que uma bela forma de contra-atacar seria lançar um bombardeio de perdigotos no meu ouvido? Não é à toa que você é filha única e seu pai usa aparelho auditivo. Deve ser um lance de família.

Deixa de bobagem. Foi um gritinho de nada. E por um motivo nobre: salvei uma vida.

O quê? Fala mais alto que eu não tô escutando direito. Só ouço “chuá, chuá”. Ou fiquei surdo ou o aquecimento global é pra valer e o mar chegou aqui no prédio.

Podia ser pior, daqui a nove meses você estaria escutando “buá, buá”. E não reclama, a única pessoa nessa casa que não quer ter filhos é você. Quer dizer, você e o labrador. Levei ele pela terceira vez no canil e nada. Perguntei ao veterinário se era bicha, mas eles aparentemente são adeptos da política do don’t ask, don’t tell.

— Não é que eu não queria ter fihos, só não sei por que tê-los. É verdade que, com o tempo, o sujeito começa a ver as coisas por outro ângulo. O amadurecimento me tem feito pensar muito no assunto. O amadurecimento e o fato de ter visto o filho do vizinho indo comprar cigarro e jornal pro pai outro dia.

— Opa! Então vamos trazer os rapazes de volta pra casa, Gercindo! (CANTANDO) Bring the boys back home!

— Você quer parar de chamar meus espermatozoides de “rapazes”? Antes de mais nada, vai ser preciso convencê-los a voltar da altura da garganta, que é onde devem estar por agora, depois daquele grito, com os rabinhos envolvendo a cabeça e cara de quadro de Edvard Munch.

— Não seja por isso. Tutu-tururu-tutu-tururu-tutu! Vou botar a boca no clarim…

— Isso é uma metá… á… ááá… ah! Uhm! Ah! Ahn! Acho que não… acho que não vou conseguir segurar…

— Goza deeentro!

— Era o que eu pretendia fazer, Marilda! Era o que eu pretendia fazer!

PULANDO ETAPAS

— Escuta, sei que a gente acabou de se conhecer, tá aqui nesse bar há, o quê, meia hora? Enfim, todo mundo sabe onde isso vai parar. Que tal a gente pular etapas e ir direto pra cama?
— Uhm… Um homem direto. Gosto disso. Uh! Ai! Uh! E então, foi bom pra você?
— Ahn?
— Nosso sexo. Confesso que achei monótono a princípio, mas depois você mexeu de um jeito. Sei que não se deve dizer isso no primeiro encontro, Pedro, mas, já que a gente tá pulando etapas, nunca tive um sexo tão bom.
— Jura? Você precisa ver quando eu tô presente, é uma loucura. Vamos indo?
— Bom, pena que depois do sexo você caiu de lado e dormiu. Homens! Ah, e esse seu hábito de roncar…
— Juro que só ronco quando não tô transando com uma pessoa pela primeira vez.
… talvez seja um empecilho pra nossa vida em comum. Ou você cura a rinite ou vamos ter que dormir em lugares separados.
— Eu no sótão, você numa camisa de força?
— Mas vamos nos encontrar à noite, de outro modo não nasceriam o Toninho e a Jéssica. Por que a cara de estranhamento? Passa tanto tempo fora que não lembra mais dos filhos! Você precisa ficar mais com nós quatro.
— Você, Jéssica, Toninho e seu psiquiatra?
— Não, o Fonfon, nosso beagle. Ele anda triste com sua ausência, sabia?
— Eu sei. Esses cachorros ilusórios são muito sensíveis. Escuta, acho que…
— Por falar no Toninho… Ele já te contou?
— Não me diga: tá sofrendo de falta de complexo de Édipo?
— Não, bobo. Não sabe que carreira seguir. Você pode falar com ele?
— Veja, o conselho que posso dar é o que dou a toda criatura inexistente que me procura: ocupe o cargo de Deus. Pagam bem, o sujeito não tem obrigação com horário, vive eternamente e pode sair com várias mulheres ao mesmo tempo.
— Puxa, me lembro como se fosse hoje: ele aceitou o conselho e virou um grande diretor de TV. Já a Jéssica, acabou envolvida com drogas…
— Coitada. Música sertaneja?
— Heroína. Nunca se recuperou de nossa separação. Tem cinquenta anos e ainda não conseguiu se achar.
— Já se procurou no mundo inteligível de Platão? Ouvi dizer que eles têm uma seção de achados e perdidos que é um arraso.
— Tenho medo, Pedro. E quando a gente morrer, o que vai ser dela?
— Vou pesquisar o assunto n’O Livro dos Seres Imaginários de Borges. Mas agora, me desculpe: esse sereno e eu com meus, o quê, oitenta anos? Se a Jéssica tem 50… Enfim, é capaz de eu pegar uma pneumonia. Preciso ir, viu? Engraçado, não lembro onde estacionei meu andador…
— Pobrezinho. A idade não perdoa. Lá vai ele… Completamente esclerosado, perdeu inteiramente o juízo.

VENTO NO LITORAL — UMA LEITURA ACADÊMICA (3)

Mas a chave para solucionar o problema se encontra nos versos seguintes:

Já que você não está aqui
O que posso fazer
É cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos,
Lembra que o plano
Era ficarmos bem…

Já agora o eu-lírico afirma com todas as letras que a mulher não está ali. Quer dizer, está dentro dele, está no supermercado e não está em parte alguma. Trata-se, portanto, de três pessoas e, ao mesmo tempo, uma. Conclusão óbvia: a mulher com quem He-Man conversa é, na verdade, Deus. Sutil e erudito, Russo mescla a mitologia judaico-cristã, o feminismo de Simone de Beauvoir e a cultura pós-romântica para compor uma estrofe de densidade só igualada no Ocidente por trechos de O Processo ou pela revolucionária “Florentina, Florentina, Florentina de Jesus, não sei se tu me amas, pra que tu me seduz”, do trovador contemporâneo Tiririca.

Não há duvidar que, à exceção de alguns funcionários fantasmas, apenas Deus é uno e tríplice: o Todo-Poderoso propriamente dito, Jesus Cristo e o Espírito Santo, que é uma espécie de parente afastado e garoto de recados. Eis, assim, resolvida a charada: Deus, em sua santíssima brabeza, teve uma dor de cabeça mística, provavelmente por ter lido a relação de efeitos colaterais da bula do remédio para clarear a pele tomado por Jesus (ninguém desconhece que Jesus, sendo palestino, faz tratamento para embranquecer desde a Idade Média).

Prevendo que aquela onipresente e metafísica enxaqueca acabaria sobrando para Ele, Jesus caminhou sobre as águas rapidinho, retirou uma dracma da boca de um peixe e, chamando o Espírito Santo de lado, ordenou que fosse à farmácia comprar Neosaldina. Coisa que o Espírito Santo logo fez, ainda que resmungando: “Tudo eu! Quando é pra ser crucificado ou arrasar Sodoma e Gomorra nunca me chamam!”

Enfim, tudo se encaixa perfeitamente, com um lógica de deixar Descartes com os “ss” mudos de admiração. Mas eis que surge a última estrofe:

Eieieieiei!
Olha só o que eu achei
Humrun
Cavalos-marinhos…

Quanto a esse trecho, confesso escapar a minha rafada cultura. O significado oculto que o último verso encerra talvez só a um esotérico do porte de Pitágoras ou Plotino seja dado desvendar.

E gasto meus dias agora me perguntando: por que não “estrelas-do-mar” ou “marias-farinhas”? “Sargaços”, por que não “sargaços”? Ou “ouriços”? Qual o problema dos ouriços, pô? (FIM)

VENTO NO LITORAL — UMA LEITURA ACADÊMICA (2)

Continua a letra, sublime:

Agora está tão longe

ver a linha do horizonte me distrai

Dos nossos planos é que tenho mais saudade

Quando olhávamos juntos

Na mesma direção

Aonde está você agora

Alem de aqui dentro de mim…

Aqui é preciso usar de todo Saussure, Eco, Bakhtin e Paciência disponíveis para avançar na compreensão da obra. Primeiro, percebe-se que He-Man estava apaixonado por uma vesga. Antes, olhavam juntos na mesma direção. Agora que a mulher fez uma plástica corretiva, deixou o herói de lado, indo se juntar quem sabe ao Esqueleto ou ao Jaspion.

Depois, o eu-lírico se pergunta: “Aonde está você agora, além de aqui, dentro de mim?” Donde se deduzem duas coisas: o eu-lírico não sabe português, pois substituiu “onde” por “aonde”, e a vesga por quem ele está apaixonado tem a capacidade de se dividir em duas. Uma está ali, dentro dele. Já a outra, lembrou que tava sem coentro em casa e deu uma saidinha para ir ao supermercado.

Segue ruço, digo, Russo:

Agimos certo sem querer

Foi só o tempo que errou

Vai ser difícil sem você

Porque você esta comigo

O tempo todo

E quando vejo o mar

Existe algo que diz

Que a vida continua

E se entregar é uma bobagem…

“Vai ser difícil sem você, porque você está comigo o tempo todo.” Eis, em poucas e belas palavras, deslindada a grande crise que se abate sobre He-Man. E, ouso dizer, se abateria sobre qualquer homem ou super-homem, a não ser talvez o de Nietzsche. Porque namorar com alguém que você nunca sabe exatamente onde está deve ser complicado. O sujeito vai com a moça ao cinema e, no auge dos amassos, aparece o lanterninha. E o lanterninha é ela. Não há clima. (CONTINUA NA SEXTA)

VENTO NO LITORAL — UMA LEITURA ACADÊMICA (1)

O brasileiro é um povo que gosta muito de ler e que se envolve tanto com a leitura a ponto de ter reações psicossomáticas. Vejam o caso das bulas de remédio, principal modelo de leitura nacional. O sujeito não consegue tomar uma aspirina sem desenvolver todos os efeitos colaterais. Sendo já clássico o episódio do sujeito do interior do Ceará que, depois de tomar remédio para cólicas, desenvolveu câncer no útero.

Mas nem só de burlas, digo, bulas vive o sábio nacional. Também são fontes inseparáveis de sua alta cultura as teses acadêmicas e as letras de MPB.

Ora, não tendo sido à toa que me aprofundei no formalismo russo e desbravei o historicismo contemporâneo, colecionando, além disso, todos os CDs de Jorge Vercillo e escutando dezenas de vezes por dia o “Rebolation”, resolvi me dedicar à análise teórica daquela que, para mim e inúmeros outros scholars pátrios, se encontra entre as melhores produções de nosso códice literário: “Vento no Litoral”, da Legião Urbana.

Faço isso, primeiro, para mitigar a injustiça que é Renato Russo não figurar no Gênio de Harold Bloom. E, depois, por perceber que minha tese tem tudo para ser aceita entre os acadêmicos: falsa cultura, erros gramaticais e ausência de pensamento racional. Se não, vejemos:

De tarde quero descansar
Chegar até a praia e ver
Se o vento ainda esta forte
E vai ser bom subir nas pedras

Eis a primeira estrofe da soberba canção, que expõe claramente a influência do clichê baiano e dos desenhos animados dos anos 80 sofrida pelo intangível Russo. Repare que ele vai até a praia descansar, mas também para “ver” o vento. Em suma, supõe-se, com boa margem de acerto, que o eu-lírico do narrador seja o He-Man. E não apenas isso: He-Man usando o Olho de Thundera, que dá a visão além do alcance. Porque o vento, sabem todos, é como telespectador de novela: existe, mas ninguém vê. Segue a letra, magistral:

Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora…

Já aqui o poeta demonstra, sempre com perícia e sutileza, o escandaloso choque entre a mitologia grega e a cultura americana moderna. Tífon, deus do ar, e Poseidon, deus do mar, atacam He-Man e vão levando tudo embora. Uma crítica, sem dúvida, ao atual estado do pós-modernismo, ao abandono das raízes gregas. Daí, hábil bardo, Russo ter posto os deuses da Hélade, empobrecidos, fazendo um arrastão na praia e batendo a carteira de He-Man. Metáfora à altura do próprio Virgílio, ou de Dante, a crermos nos boatos que afirmam não terem eles passado de 1,40m. (CONTINUA NA QUARTA)

SÍNDROME

— Ela não pode tá apaixonada por esse sujeito. Só pode ser síndrome de Copenhagen, Antônio.
— Estocolmo.
— Pois é, e ainda mais com um nome desses: Estocolmo.
— O nome dele é Eustáquio, Maria. A síndrome é que é de Estocolmo.
— Estocolmo, Copenhagen é tudo cidade escandinava. O fato é que a Laurinha deve ter sofrido lavagem cerebral. Porque o indivíduo é chato, burro, meio corcunda e ainda usa olho de vidro, você reparou?
— Nesse caso, deve ser síndrome de Notre-Dame.
— Porque o olho remete a um vitral?
— Não, por conta do corcunda. Victor Hugo, você sabe.
— Victor Hugo era corcunda?… Era cego! Claro, agora eu entendo aqueles versos: “L’aveugle voit dans l’ombre un monde de clarté.”
— Que cego! Tô falando de Quasímodo, do corcunda. E não fala esse nome.
— Corcunda? Por quê? Já sei, no meio dessa garotada politicamente correta, devia dizer “posteriormente abaulado”.
— Não, não fala em Victor Hugo. Vai que um desses poetas pós-modernos nos ouve. A gente acaba linchado. Olha ao redor da mesa: só tem gênio e gente criativa.
— Mais termos politicamente corretos pra idiota e analfabeto. Ela só pode tá sofrendo de síndrome de Munique, Antônio.
— Estocolmo. Síndrome de Munique só se ela fosse judia e praticasse algum esporte.
— Isso, continua com piadas politicamente incorretas assim e a gente vai ser expulso do sarau. Taí, deve ser síndrome de Saramago.
— Saramago? Não conheço. Fica na Noruega?
— Saramago, o escritor. Ela deve tá cega.
— De amor, o que é pior. O amor é cego, Ray Charles é cego, Stevie Wonder é cego, o Albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem e Caetano Veloso cai do palco de vez em quando. Então a síndrome é de Cupido.
— Se for pra usar de mitologia, o caso dela tá mais pra Édipo.
— Peraí que eu perdi o controle da metáfora. A gente tá falando de Freud? Porque, se for, quero dizer que meu problema nas costas é escoliose, não corcunda.
— Psss. Silêncio, não fala em Freud. Aqui só tem reichiano, não percebeu?
— Não, juro que não notei que as meninas tão todas sem calcinha, não fazem os cantinhos e duas têm pelos ruivos.
— Tava falando da falta de senso de ridículo, Antônio!
— Ahn… É termo politicamente correto pra “hímen”?
— Vamo embora? Vai começar a performance do Quasímodo.
— Eustáquio! Espera, vamo ver o que ele vai… Ih, tá declamando “Infinita Highway”, dos Engenheiros do Hawaii, Maria! Vambora!
— Eu avisei! Eu disse! Nossa filha tá namorando uma besta!
— Putz, quem diria? A Laurinha… Com síndrome de Balaão.

MOMENTO ARRÁ

Pera. Não fala nada.

Você tá sentindo alguma coisa?

Tô. Tô sentindo que você não ouviu o que eu pedi!

Que é que cê quer que eu faça? Tô te vendo aí de testa enrugada, olhos arregalados, lábios trêmulos, só posso achar que tá tendo um troço. Ou isso, ou pretende imitar o Caetano cantando “Cucurrucucu Paloma”.

Taí, ótimo. Satisfeita? Você acabou de estragar meu momento “arrá”.

Momento “arrá”?

É o novo nome que tão dando a insight. Não leu a Superinteressante da semana passada?

Não. O dinheiro que eu tinha reservado pra coisas inúteis acabei gastando com um CD do Zezé de Camargo e Leonardo.

Luciano.

Leonardo, Luciano, Lucrécio, Lucano, tudo é nome de autor clássico.

Leonardo não é autor clássico.

Como não? Você nunca ouviu a interpretação dele pra “Sinhá Moça”?

Incrível! Quando o negócio tinha o nome de insight nunca consegui ter um. Resquício do antiamericanismo da adolescência. Mas agora tava quase lá. Ouvi até o arr… arr…

Tem certeza que não era um pombo? De vez em quando acordo de noite e eles tão lá: arrr, arrr…

Por uma vogal! Uma vogal e eu teria tido uma epifania, descobriria as verdades sublimes do universo, o caminho a seguirr, o sentido da vida ou, no mínimo, das letras do Djavan.

Se uma vogal propiciasse tudo isso, cantor de axé music atingia o nirvana. Já sei. Quem sabe você não vai aos poucos? Começa com um momento “eita”, passa prum momento “uh-rrru”, talvez um “caraca, véi”, e assim vai, até, por fim, alcançar o momento…

Porra!

Bom, o momento “porra” é fácil de conseguir. É só a gente tirar a roupa, ir pra cama e…

Era uma interjeição. “Porra” era um interjeição.

Veja você. E eu a vida toda achando que era um líquido cheio de espermatozoide!

Quer parar? Acho que tá voltando. Silêncio. É! É ele! O momento… Tá vindo!

Assim de última hora, sem dar um telefonema, marcar hora, trazer um vinho?

Silêncio! Tô sentindo. Tudo se encaixa em minha mente, o cérebro tá em plena atividade, pronto a conceber o inefável… Mais um pouco… só mais um pouco… e…. Putz!

Só pra eu entender direito: hierarquicamente falando, o momento “putz” está acima ou abaixo do momento “arrá”?

Você não vai acreditar nisso! Aconteceu. Todas as energias de minha psique atuaram em conjunto com uma força inigualável, memórias reprimidas foram finalmente liberadas de meu subconsciente com uma clareza assustadora e, quando tudo terminou, quase como por milagre, havia descortinado meu verdadeiro eu.

E daí?

Daí que, putz, meu verdadeiro eu é a cara da Regina Duarte.

Não fica assim, Regina, digo, Andrade. Quem pode confiar num momento “arrá”? Se ao menos fosse um momento U2.

Tô me sentindo péssimo. Tô com medo… Com medo! Ih, já tô falando feito a Regina Duarte!

Calma. Olha, lembra de quando falei do momento “porra”? Pois então, a proposta ainda tá de pé. Vem cá, vem, meu ti… Não! Calma. Espera. Agora sou eu que tô tendo um insight. Ou melhor, um momento. Um momento “ai”. Ahn… É, definitivamente. Tô tendo um momento “ai”.

“Ai”? Momento “ai”? E o que ele revela?

Que não vai rolar o momento “porra”. Ai. Maldita dor de cabeça!

HIENAS

Conheço bem vocês. Vocês, seres de pouca fé na natureza humana e maledicentes como mil Swifts, achavam que eu não voltaria. Não me são desconhecidos os rumores de que fora recolhido pela Arca que o prefeito mandou construir por aqui para acolher casais de animais antes do novo dilúvio que acometeu esta bela Guanabara. Foi dito até que entrara como par de um girino. Afirmação de uma pusilanimidade ímpar, posto estar, na realidade, destinado a macho de uma bela jumenta nativa de Búzios.

Mas eis que o projeto da Nova Aliança se esfez e me encontro não apenas em terra firme como disposto a lhes dizer que minha ausência não se deve à queda de meu barraco, nem ao fato de não saber nadar, muito menos a não possuir canoa ou jangada, meios de transporte imprescindíveis a quem pretende se deslocar aqui em Atlântida. (Apenas como registro: Platão acertou em quase tudo ao relatar o sonho que teve com nossa cidade, errando apenas ao não prever a chegada de um profeta barbudo de nove dedos que garantiria ao povo o mais importante num momento de calamidade: haverá Copa e Olimpíadas.)

Estive afastado por um motivo nobre com perdão do termo que, não duvido, logo será substituído pelo mais politicamente correto “motivo participante do Segundo Estado e explorador do povo oprimido”: me envolvi numa pesquisa biológica. E não me refiro à adesão como sócio beneficiário da Sociedade Protetora dos Crustáceos, evento que deixo para comentar outro dia.

Não. Gastei os últimos meses à cata de espécies animais supostamente inexistentes em nossa fauna e declaro, com orgulho, ter feito uma descoberta revolucionária. Ora, todos sabem que o Rio conta com micos-leões em suas árvores, fragatas em seu céu e quadrúpedes atrás dos volantes de seus carros. Mas estou certo de que poucos tinham noção da existência de hienas na cidade. Pois não se enganem: azar, digo, as há. Por bem da ciência e amor à rima, revelo seu habitat.

Fui ao hospital com minha mulher hoje, já que a pobre, talvez por influência de meu suave ressonar noturno, desenvolveu uma otite. A dor da otite, dizem, pode ser equiparada à do parto. A diferença, suponho, é o orifício da orelha ser um tanto menor que o originalmente designado ao nascimento de crianças. A não ser, claro, que você seja Zeus e esteja dando à luz Atena.

Enfim, fato é que minha querida lançava uns olhares de dor tão profundos como não via desde quando assinou os papéis de nosso casamento. De modo que, entre levá-la ao hospital e oferecer o divórcio, escolhi a primeira alternativa  questão de querer bem. No caso, os bens que ela tinha em seu nome e passaram ao meu no ato do casório.

Lá chegando, de cara fomos recebidos por uma turba de atendentes às gargalhadas. Atribuí os risos a uma nova técnica de atendimento a moribundos disseminada nos nosocômios modernos e, ao que parece, inspirada pelo emérito dr. Sade, ilustre anatomista. Suspeita confirmada minutos depois quando, passada a triagem, nos dirigimos à antessala do otorrino e, mais uma vez, fomos recebidos por uma criatura que se esbaldava de rir, provavelmente conversando com um convalescente de otite no outro lado da linha telefônica. Por fim, ao entrar no consultório, fomos recebidos por um médico cujo riso incontido crescia à medida que enfiava afáveis pinças de metal nos ouvidinhos de meu amor e a via lacrimejar, certamente por ter entendido uma piada mais sutil que escapou a meu espírito carrancudo.

“Eis aí uma prática lúdica e humanitária da medicina”, pensei, coisa que me ocorre esporadicamente. “Não se via tamanha preocupação com a preservação do ser humano desde a França de Robespierre.”

Voltei do hospital entusiasmado. No entanto, falei há pouco com um amigo médico que me garantiu não haver na literatura do ramo nada que oriente tal comportamento. Bom, meu amigo é excessivamente sisudo e ortodoxo, dado a conceitos ultrapassados como o de tratar os pacientes com o devido respeito. Mas não se lhe pode negar competência nem o papel de grande estudioso do ofício. Sendo assim, fiquei com a conclusão óbvia: o Rio de Janeiro está impregnado de hienas. Tese que pretendo sustentar em próxima conferência de biologia a que, de antemão e apesar de não merecerem, convido todos vocês.

ENQUANTO NÃO VOLTO…

Continuo aqui: http://twitter.com/marconil.

Será preciso repetir?

Eh, gente desatenta!

Sim, mas eu volto. E volto com excelentes elogios sobre esta aprazível cidade do Rio de Janeiro.

SERRA DOS ÓRGÃOS (2)

A gente vai pagar pra entrar aí? perguntei. Se é pra gastar dinheiro pra sofrer, vamo a uma peça do Gerald Thomas. É ruim do mesmo jeito, mas a gente pelo menos vê umas bundas.

Ao que minha mulher, sempre simpática, retrucou:

Se tu quer ver partes pudendas sem o auxílio de um espelho, a gente tá no caminho certo. Mais umas duas ou três subidas assim e tua barriga diminui.

Ru, ru, ru, morri de rir. Pois fique sabendo que em algumas sociedades desenvolvidas a barriga protuberante é sinal de abundância e fertilidade.

Como onde? Na Lapônia, por exemplo?

Não ia dialogar com gente sem cultura. Afinal, era feriado, e isso é o que eu faço todo dia no trabalho, escrevendo para a TV. De forma que resolvi seguir a trilha de boca fechada, o que se mostrou impraticável por uma razão óbvia, que só um ser onipresente, onipotente e onisciente não consegue ver: duas narinas não são suficientes para absorver oxigênio.

Constatação que, por outro lado, veio acompanhada de uma descoberta empírica no campo das ciências naturais: mais alguns passos e percebi por experiência própria como surgiu a comunicação entre as baleias. A determinada altura, minha respiração soava como um disco de new age.

Você quer voltar? perguntou minha mulher, preocupada, ao perceber que os animais silvestres paravam para me ver e aplaudir.

Ao útero materno respondi.

Sério. Tá tudo bem contigo?

Tâmaras azuis com cabelo de Alcione assegurei.

Falta pouco. A gente já tá perto da cachoeira.

Que bom. Porque é lá que eu vou te afogar.

De fato, não demorou até chegarmos à cachoeira: gastamos trinta minutos e cerca de dois terços das canelas. Mas o esforço valeu a pena, pois nada se compara a esse fenômeno natural. Exceto talvez um chuveiro cujo jato de água a gente não controla, podendo nos derrubar como um coice de elefante, e uma piscina, só que forrada com pedras angulosas e limo escorregadio, propício ao estabacamento.

Foi ali que senti pela primeira vez a integração com a natureza. Após um cachação de água que me fez perder o equilíbrio, a ponta de uma rocha se integrou totalmente ao meu calcanhar, na mais linda interação homem/meio ambiente, uma espécie de empalação para podólatras.

Se doeu? Digamos que já assisti a sessões de exorcismo mais silenciosas. Entre o primeiro urro e a entrada no hospital, lembro vagamente de ter me convertido a seis ou sete religiões.

Tive de engessar o pé e passar a andar de muleta. Mas posso afirmar que, hoje, depois dessa experiência, estou completamente mudado, sou praticamente um ser da mata, um ente da selva, uma criatura telúrica. Para começo de conversa, me locomovo como o Saci.

(Boas festas. Aguardem, juro que uma das minhas promessas para 2010 é voltar a escrever por aqui diariamente, como antes. É verdade. Isso e parar de mentir.)

SERRA DOS ÓRGÃOS (1)

A única coisa que justificaria o alpinismo, em minha opinião, seria se, ao chegar ao topo do Everest, por exemplo, o sujeito fosse recompensado com uma fonte de single malt ou, no mínimo, de Itaipava Gold. Sem isso, o esporte para mim tem a mesma utilidade da faixa de pedestres no Brasil: nenhuma.

Até esse final de semana, portanto, minha experiência na atividade envolvia apenas uma tentativa de leitura de A Montanha Mágica. E, ainda assim, meu fôlego precário não me permitiu avançar além da página 30.

Porém, entre os vários erros patentes cometidos por Deus na criação do universo, caso dos buracos negros e da Baby do Brasil, encontram-se os hormônios femininos e a semana que precede a menstruação. As guerras, sabem todos, surgiram em função desse período, quando, em vez de ficar em casa levando esporros merecidos por respirar ou piscar os olhos, os homens resolveram se entregar a empresa mais amena.

Assim, quando minha mulher sugeriu que viajássemos a Petrópolis e percorrêssemos uma trilha na Serra dos Órgãos, concordei imediatamente, depois de confirmar com a embaixada não haver mais vaga entre nossas tropas no Haiti. E de tentar, galante:

— Posso te levar ao ápice de outra forma…

— Prefiro caminhar. Cansei de chegar ao ápice de burro — respondeu ela, grácil.

Seguimos, enfim, para o aprazível passeio: eu, ela e Asmático, o carro popular 1.0 que a gente comprou em breves 60 prestações. Bom carro e total flex, Asmático funciona com gasolina, álcool e, nas subidas, duas ou três bombadas de Aerolin. O único problema dele é que, tendo sido projetado na era pré-newtoniana, não conta com aceleração.

Estacionamos o carro no sopé do morro — tendo antes o cuidado de consultar o verbete no Aurélio, para ver se estávamos no lugar certo — e nos preparamos para a subida. Esperto, calcei havaianas e acendi um cigarro.

Para minha surpresa, a escalada não foi difícil. Os únicos contratempos que enfrentei foram alguns escorregões em pedras soltas (instrutivos, pois descobri a utilidade do queixo) e o roçar da língua nos joelhos, que atravancou um pouco meus passos.

Após meia hora de esforço, no entanto, chegamos bravamente a uma casinhola onde esperava ser recebido com uma coroa de louros e algumas caixas de Band-aid e mercurocromo.

— Que pena que a gente não trouxe uma bandeira do Sport pra fincar aqui no topo — falei, orgulhoso.

Minha mulher riu. Estávamos apenas na entrada do parque. O nome Serra dos Órgãos — descobriria trinta metros acima, ao perder um dos pulmões — era, afinal, bastante descritivo. (CONTINUA)

DE COMO ME VENDI AO SISTEMA

Sabem todos que minha ausência aqui se deve à mudança para o Rio de Janeiro, lugar de paisagem deslumbrante, que ainda possui, em meio à área urbana, inúmeros resquícios de vida selvagem. Caso, por exemplo, do trânsito e da fila de supermercado.

O que talvez não seja do conhecimento de vocês é haver outro motivo para tamanho atraso: me aconteceu uma tragédia inesperada e, ao contrário de grande parte de meus novos concidadãos, arrumei trabalho.

Em poucas palavras, me vendi ao Sistema em doze parcelas, virei roteirista de humor em uma emissora de TV.

Aconteceu de estar em casa outro dia, sem fazer nada, meditando sobre uma bobagem qualquer, como a dedução transcendental das categorias em Kant, quando o telefone tocou:

— Aqui quem fala é o Sistema.

— Olha, se é o Métrico Decimal, o senhor ligou errado — respondi. — Até hoje não sei transformar quilômetro em milímetro!

— Métrico Decimal é o… Eu sou o Sistema, rapá.

— E tá me ligando pra dizer que caiu?

Depois de desfiar uma série de palavrões, alguns dois quais me demonstraram a necessidade de reciclar meus conhecimentos em anatomia, ele me convenceu. Afinal, o Sistema, ninguém ignora, é uma criatura metafísica feia, suja e perversa, que nada tem a ver com o homem. Faz bico de diabo na Igreja Marxista das Boinas dos Últimos Dias, e de Deus, na Igreja Capitalista da Cédula Retangular.

— Que é que você quer? — perguntei. — Não me diga que precisa de dicas sobre mercado futuro.

— Tá a fim de negociar a alma? — cuspiu a alegoria.

— Não sei. O senhor daria quanto pela da minha sogra?

— Bom ver que você continua fazendo piadas do tipo. É justamente o que eu quero. Isso e uma massagem nas costas. Essa vida de Sistema me estressa. E aí, vai ou não vai? É pra trabalhar na televisão.

— Depende — hesitei. — Que outra concessão preciso fazer, além de desaprender português e conseguir arrancar gargalhadas de protozoários?

— Todas — falou ele.

E eu, superior:

— Se é assim, topo, claro.

Eis tudo. Após a intensa negociação, desliguei o telefone. Exausto, olhei para meu reflexo no espelho, que, parodiando Chico Buarque, cantava e se requebrava para mim, com sarcasmo:

— “Quem te viu, quem TV…”

Não deixei barato. Corri até o escritório, abri a gaveta da escrivaninha violentamente, enfiei a mão trêmula de raiva lá dentro, saquei um lápis de ponta bem afiada e, com um gesto irado, anotei o trocadilho.

Foi deles que passei a viver.

DO BOM HUMOR DO CARIOCA

Faço uma pausa nos tweets e volto a este empoeirado blog (esperem com fé: em breve haverá faxina) para lhes dar uma noção prática do humor do povo deste Rio de Janeiro. Leiam isto, sobretudo os comentários, e tenham a prova definitiva de que o carioca é o povo mais bem-humorado e inteligente do Brasil. Sobretudo quando está sendo elogiado.

VOLTAREI

Não se iludam. Sou brasileiro e, cacófato, como o Sarney: não desisto nunca. Para os apressados: Twitter.

DA INSENSIBILIDADE E OCIOSIDADE DO LEITOR

Sim, ouço. Estou ouvindo. São bárbaros gritando, atirando pedras, blasfemando contra o Filho do homem, coçando o saco em público, passando a mão na bunda dos guardas e impedindo a vizinhança de dormir.

Criaturas sem a mínima sensibilidade, estou certo de que vocês jamais praticaram aquela que é a atividade moral mais profunda a que o homem deve se entregar pelo menos uma vez na vida, segundo muçulmanos de todos os matizes e cristãos de todas as porcentagens de dízimo: a mudança.

Não falo de mudança de comportamento, que essa é das mais fáceis, e está aí Lula que não me deixa mentir. Tampouco me refiro à mudança espiritual, pois, quando descobriu há algum tempo que decidira viver de escrever, meu espírito não só me abandonou como entrou na Justiça pedindo pensão alimentícia (que me recuso a pagar, pois nunca fui de alimentar o espírito, daí estar preso em minha ignorância há anos por decreto judicial).

Não. Falo da mudança propriamente dita, de casa e de cidade. É tarefa para uma vida inteira, simpatizantes. E um dos motivos que me levam a crer na vida eterna é precisamente estar convencido de que, ao morrer, chegando ao inferno, não será outra minha condenação, senão a de arrumar e dessarrumar caixotes de mudança, como uma Danaide moderna e um tanto ou quanto mais gorda.

Portanto, respeitem um homem e seu destino e parem de aporrinhar. Virá um texto esta semana, virá que eu vi, em português escorreito e cheio de concordâncias como Peri. Aguardem em silêncio. E, por Cristo, com Cristo, em Cristo: parem de fazer xixi nos muros.

Ah, aproveitem que não estão fazendo nada mesmo e passem aqui, ó, só para lembrar o que era Jornalismo, esta atividade desaparecida do país há décadas.

MARCONI FINALMENTE C0M BULA

Eis aí o que vocês, criaturas sem a mínima confiança na autossuperação e inteiramente desprovidas de tino para antecipar o gênio, não contavam. Pois ouçam: ho, ho, ho! Quê? Não, não estou imitando o Papai Noel. Escutem direito: ho, ho, ho, ho! Ahn? Nã-ão/ não estou tendo um acesso de tosse. Reparem: ho, ho, ho! Ho, ho! Ho! E aí? Uhm? Cantando rap nada! Continuo gostando de música!

Eh, como é frustrante usar efeitos dramáticos com gente que não possui cultura. Fiquem sabendo que esse é meu riso mau de vingança. É, vingança de vocês, leitores infiéis, que nunca esperavam que eu um dia conhecesse a Glória. Pois arranquem a dentadas o dedinho do pé esquerdo de pura inveja, pérfidos, eu a  acabo de conhecer, através de uma entrevista concedida à revista Bula.

E fiquem sabendo que a Glória é uma moça muito direita e agradável. É bem verdade que aqueles louros na cabeça dela são um tanto esquisitos e que meu grego arcaico não dá para mantermos uma conversa muito longa sem que eu corra o risco de Homero voltar do Hades especificamente para atirar uma trípode na minha cabeça, mas enfim, é só o começo. Confiram por vocês mesmos: http://www.revistabula.com/materia/questionario-proust-marconi-leal/1374.

E aguardem. Ainda chego à capa da Time. Ho, ho, ho, ho, ho, ho! Como? Latido? Latido é a p…!

P.S.: Meu superego já me avisou que estou em falta com vocês, para que a histeria? Vem texto novo por aí,  em que contarei as alegrias da nova vida no Rio. Suportem o delirium tremens mais um pouco, sim? Bom, mas agora não posso escrever mais, há uns gentis cavalheiros querendo me assaltar e eu já os estou atrasando. Sem falar que o dia hoje vai ser corrido: tenho um arrastão e duas blitz falsas a atender. Por ora, fiquem com a entrevista. Tchau para vocês e também para meu relógio e minha carteira.

CONFESSIONÁRIO

— Padre, eu gosto de… ummhnn…

— Ahn?

— Gosto de… hmnnn…

— De quê, meu filho?

— Eu gosto de cheirar a virilha, padre.

— Como é que é?

— A virilha? Uma parte do corpo que…

— Não, o que você disse?

— Gosto de cheirar a virilha. Passo o dedo assim, fico passando por um tempo e depois cheiro. Mas só a direita. Isso dá inferno, padre?

— Inferno, não sei, mas manicômio é provável. Por que exatamente você cheira o… a virilha direita, meu filho?

— Porque o cheiro é melhor que o da esquerda.

— Sim, mas o que leva você a cheirar a virilha, seja ela direita, esquerda, social-democrata ou o raio que o parta?

— Não sei, padre. Simplesmente cheiro. É um vício como qualquer outro: roer unha, fumar cigarro, comer sebo do sovaco…

— Não me diga que você come sebo dos sovacos.

— Dos sovacos, não. Do sovaco. O direito.

— Você está me dizendo que, além de cheirar a virilha, costuma também comer o sebo do seu sovaco?

— Não disse que comia sebo do meu sovaco. Jamais faria isso. Como o sebo do sovaco dos outros, que é mais gostoso.

— Come o se…? Miserere mei, Deus!

— Como. O senhor não?

— Pater dimitte illis non enim sciunt quid faciunt! Mais algum… vício de que deva saber?

— Fora a virilha, mais nada. Quer dizer, bom, tinha a questão do sexo com a minha avó, mas ela agora já morreu. Durante um orgasmo, por sinal… Mas a culpa não foi minha, ela tava com meu irmão na hora.

— Você e seu irmão costumavam fazer sexo com a própria avó?

— Eu, meu irmão e Zigofredo.

— Quem é Zigofredo?

— Um porquinho que ela criava. O senhor precisava ver que mimo. Gordo, robusto… Fazia ionc, ionc quando a gente enfiava…

— Para! Para! (Levantando-se e levando o outro para fora da sala pelo braço.) Olhe, meu filho, eu vou reunir o concílio, falar com o bispo, quem sabe ligar para o papa. Você me volte aqui em duas semanas e eu lhe digo sua punição ou faço seu exorcismo, conforme seja o caso. Agora vá, vá!

— Tudo bem. Mas antes… (Olhando para o sovaco do padre.) O senhor não permitiria uma lambidinha?

— (Batendo a porta, trêmulo.) Cheire a virilha, meu filho. Passar bem.

Pelo tempo que levei para voltar, vocês já perceberam que me adequei completamente à vida no Rio. Segundo um amigo, o carioca não é lento, ele apenas começa a fazer as coisas quarenta minutos depois de todo mundo. Pode ser. Eu mantenho a tese de que o Rio é a verdadeira Bahia, a qual desenvolverei em breve por aqui. “Em breve”, segundo a noção de tempo carioca, claro.

TWITTER

Enquanto não volto, acompanhem meus elogios ao Rio de Janeiro aqui.

RIO, MAS NÃO MUITO

Sabem todos que desgraça é que nem sogra: aparece quando a gente menos espera.

Eis que eu, que estou passando por pulsoterapia e correndo o risco de enfrentar a hemodiálise, fui acometido por outra desgraça decomunal: tive de me mudar para longe da civilização e me estabelecer no Rio de Janeiro. Para quem não conhece, o Rio é uma espécie de África, só que aqui todo mundo é crente.

Isso porque, seguindo o projeto de sua vida que é me sustentar , minha mulher acaba de ser empossada em emprego público federal, ou seja, agora seremos dois sem trabalhar aqui em casa, mas pelo menos ela vai ganhar dinheiro.

Enfim, como já dizia Quixote, o mundo é um moinho. Em razão dessa mudança e enquanto passo pelo processo de aculturação, não escreverei no blog. Volto em agosto. Se, até lá, não tiver sido sequestrado ou praticado o salto do Corcovado sem paraquedas, esporte a que pretendo me dedicar em breve. Até a volta.

PASTEL DE SANTA CLARA

BÊBADO 1: (Do nada, suspirando após uma prolongada pausa na conversa.) Não sei vocês, mas pra mim a vida após a morte só valeria a pena se houvesse pastel de Santa Clara.

BÊBADO 2: Isso é eufemismo pra sexo? Porque se for, eu prefiro o pastel da Julianne Moore.

BÊBADO 1: Não, não é eufemismo pra sexo. Aliás, Botticelli, Freud e os gregos que me desculpem, mas nunca entendi esses símbolos eróticos. O sujeito que confunde o órgão sexual feminino com um marisco, por exemplo, das duas uma: ou tá saindo com um desses novos tipos de sexo que andam inventando por aí ou com uma alemã de pouco asseio.

BÊBADO 3: Olha, não quero te decepcionar não, mas tudo indica que o protestantismo venceu. De modo que no Céu, atualmente, eles só devem servir um copo d’água. E morna.

BÊBADO 2: É, lá, por esses dias, o pastel de Santa Clara é conhecido como pastel de Clara, a Herege. Inclusive não vejo graça nesse doce, mas concordo com você em relação aos signos: quando leio esses poetas árabes se referindo à vagina como figo, acredito piamente no evolucionismo, porque obviamente os órgãos sexuais antes tinham outra forma. E dou graças a Deus que estejamos reproduzindo hoje com algo que, pelo menos, não tem dentes.

BÊBADO 1: Pode rasgar seu Confissões e, você, doe aquele seu exemplar de Plotino. Quem não entende o pastel de Santa Clara não entende metafísica. O pastel de Santa Clara é a síntese da vida, rapazes. O próprio Jesus Cristo, dizem, só atingiu a Verdade depois de comer um.

BÊBADO 2: Engraçado. Desconfiava que Jesus tivesse ido à Índia, mas definitivamente não sabia que tinha ido a Lisboa.

BÊBADO 3: Mas foi. Tá lá. Capítulo 3, versículo 4, Evangelho de Manuel Joaquim.

BÊBADO 1: Podem rir. Isso, vão rindo. Mas quando chegar a vez de vocês na fila dos condenados lembrem de mim. Eu vou tá na fila do lado, comendo um pastel de Santa Clara com meu amigo, o Nazareno. Provavelmente com uma camisa do Bangu. O próprio Zeus recomendou o pastel de Santa Clara, se vocês não sabem, gente sem cultura clássica. Tá lá em Homero, ignorantes.

BÊBADO 3: Hesíodo, na verdade. Eu me lembro. É naquela passagem em que ele se transforma em quibe para copular com um pastel de Santa Clara escondido de Hera.

BÊBADO 2: Como castigo, Hera condenou todos os quibes de boteco a serem feitos com óleo de duas semanas.

BÊBADO 3: O que acabou ocasionando a queda dos prepúcios dos árabes.

BÊBADO 1: (Revoltado.) Isso mesmo, riam mais. Riam bem, se acabem de rir. Mas fiquem sabendo que o próprio Proust só trocou o pastel de Santa Clara pela madeleine por uma questão de patriotada. Ele mesmo preferia o pastel, todo mundo sabe.

BÊBADO 2: Voltamos a falar de eufemismos pra sexo? Porque todo mundo sabe que Proust gostava mesmo era de um bom croquete.

BÊBADO 3: Roliço…

BÊBADO 1: Deixa pra lá. Bárbaros, canibais, pagãos. Garçom, mais uma rodada! (Muito sentido.) O pastel de Santa Clara ainda vai salvar a religiosidade, ateus!

AMOR NOS TEMPOS DO VIAGRA

— Tu acredita em amor?

— Namor? O Prícipe Submarino? Sim. Em quem não acredito é nos Super Gêmeos. Pra mim, trata-se dos super-heróis mais idiotas que alguém poderia criar. “Forma de um balde de gelo! Forma de água pra entrar no balde de gelo!” Ah, vão tomar no…

— Não, cara, amor. Tô falando de amor. Camões, Shakespeare, essas coisas.

— Bom, acreditar, acredito. Mas, na minha idade, já tenho experiência suficiente pra saber que o amor por si só não vale nada. Tem que vir acompanhado de coisas igualmente importantes.

— Carinho, afeto, compreensão, companheirismo…

— Viagra…

— Ih, tu tá nessa?

— Não é que eu esteja. Tecnicamente, não tô. Mas é como já dizia Wittgenstein: todo mundo precisa de uma ajudinha pra subir ladeira.

— Wittgenstein nunca disse isso.

— Como é que tu sabe? Tu lê alemão? Tu não lê alemão. Wittgenstein escreveu coisas que o próprio Wittgenstein não entendeu. Embora a academia já tenha entendido tudo.

— Não desvia o assunto. Tu anda tomando Viagra?

— Não é que ande tomando Viagra. Digamos que uso socialmente, em momentos de maior aperto.

— Exemplo.

— Loirinha peituda.

— Que é que tem?

— Tu já brochou com uma loirinha peituda, com coxas perfeitas, tudo no lugar?

— Nunca, pelo simples motivo de que a única loirinha peituda com quem saí acabei descobrindo se chamar Oswaldão. Nosso encontro durou o prazo de uma apalpadela e me gerou tal aversão ao silicone que até hoje não consigo ouvir o nome de Pitanguy sem entortar o pescoço e piscar o olho duas vezes, dizendo “Babalu, babalu.”

— Pois eu lhe digo que já brochei e o trauma é tão grande que, no dia seguinte, você quer se enforcar com uma scarf.

— O que é uma scarf?

— Não sei, por isso mesmo não me matei. Mas o sentimento é péssimo. De maneira que agora o Viagra fica ali na carteira, até mesmo por uma questão de civismo.

— Essa, nem com todo o Wittgenstein. Questão de civismo?

— Pensa rápido, Jurandir. Para me lembrar que eu sou brasileiro e não desisto nunca. Agora, desembucha. Quem é que tás comendo?

— Quanta sutileza! Te falei que é amor, rapaz.

— Sem eufemismo, Jurandir.

— Isso mesmo, sem eufemismo, sem bestialismo, sem nenhuma dessas safadezas. Amor, ponto final. Tô apaixonado, cara.

— E por quem, Jurandir? Eu conheço? Já comi?

— Tu é um bárbaro, rapaz, um selvagem. Agora escuta e presta atenção, aprende um pouco de poesia: fique sabendo que, depois de trinta anos de casado, tô apaixonado de novo por minha própria mulher.

— (Passa meia hora rindo.) Jurandir…

— Que é que foi?

— Jurandir… (Ri mais um pouco.)

— Que é?

— Jurandir… Tu é corno de tu mesmo, Jurandir! (Ri ainda mais.)

— Ah, vá…

JESUS OU MICHAEL JACKSON

— E aí cara, quem é que tu acha que volta primeiro?

— Quanto a isso, não tenho a menor dúvida. É aquele croquete de bacalhau que a gente acabou de comer, tu não viu? Nadar em óleo é pouco. Acho que tinha um que tava até usando escafandro. Nesse exato momento, eu tô com uma azia que começa no tornozelo!

— Não, cara, sério. Quem você acha que volta primeiro: Jesus ou Michael Jackson?

— Ah, não, mermão. Não acredito no que ouvem minhas oiças. Olha aí, alexandrinos perfeitos. Eu sou assim, quando tô indignado, só falo em alexandrinos.

— Por que não vais tomar na b…? Viu aí? Octossílabos perfeitos. Eu, quando tô diante de um débil mental, só falo em octossílabos.

— Não ofende, hein? Você é que veio com essa debiloquencia de Jesus e Michael Jackson. Bela palavra!

— Jesus ou Michael Jackson?

— Debiloquencia. Devia constar do Aurélio. Agora, meu nego, no que diz respeito a sua pergunta, informo que sou católico e não vou permitir esse tipo de brincadeirinha com Jesus, Nosso Senhor. Se ainda fosse com o Espírito Santo, vá lá. Nunca confiei no Espírito Santo. Acho que ele é até meio indecente, uma espécie de pum celeste, tu não acha?

— De fato, expressão muito bonita pra um católico. Não duvido que eles se tratem assim no céu, em momentos de intimidade. “Jesus está?” “Sim, mas nesse instante estão os três ocupados numa reunião de emergência da Santíssima Trindade, senhor: Pum Celeste, Barba Divino e o próprio Anda N’água. No momento, só temos a Virgem que Tapeou José, serve?” E além do mais, excelente católico você me saiu. A última vez que entrou na igreja foi no batizado de minha filha, que tem 20 anos!

— Tenho culpa se ela não se crismou? Agora, o que não faço é misturar coisa santa com pagã. Jesus é uma criatura onipresente, onisciente e… onifrequente.

— Onipotente. Tudo bem, credito isso a favor dele. Mas não sabe fazer o moon walk.

— Pro seu governo, fique sabendo que ele faz o moon walk até sobre poças e lagos!

— Mas não muda de cor.

— Como não? Muda de cor perfeitamente. Acontece que antes as coisas eram mais atrasadas. Mas quando você reproduz um palestino como se fosse branco e louro de olhos azuis, como fazem nas imagens sacras, me diga se isso não é uma técnica precursora da de Michael Jackson? E outra: Jesus tinha nariz. E Michael Jackson o que tinha era um origami dependurado no centro do rosto.

— Mas ele é tão amado quanto Jesus. E também levou chicotadas e foi abandonado pelo pai.

— Sem falar que também era adepto do “Vinde a mim as criancinhas”. E foi além do Cristo nesse aspecto, porque estabeleceu uma relação comunista com elas. Comia todas.

— Ele volta primeiro, tenho certeza.

— Uhm-hum. E quando voltar vai julgar a humanidade baseado em quê: “Vós que dançastes o break e gravastes videoclipes em favelas do Rio, passai à minha direita. Vós que pisastes no pé de vossa companheira até numa simples valsa, para a danação eterna?”

— Não sei, só sei que ele volta antes.

— Não volta.

— Volta.

— Não volta. E aposto cem reais.

— Combinado… É certo que volta.

— Não vol… Uh, urgh. Uh, uuurgh! Urgh!

— Que nojo, cara! Que nojo!

— Olha aí, não disse que o croquete vinha antes. Garçom, desce mais uma! E um pano de chão, faz favor! Vem, passa os cem. Eu estudei teologia, rapá…

CLÁSSICO METAFÍSICO: CÉU X INFERNO (Quinta Parte)

DANTE: Recomeça a partida. Um a zero para o Inferno. Friedrich, o que você acha que o Céu deve fazer para virar o jogo?

NIETZSCHE: Olha, Dante. Em primeiro lugar, rearrumar a defesa e organizar o meio-campo. A verdade é que Elias está sumido em campo. E Jó está sofrendo na defesa.

DANTE: Vejam só, o Inferno já retoma a bola e parte para o ataque. Mas não, falta! Pedro derruba Belzebu e recebe cartão amarelo. Pedro discute com a juíza e nega que tenha cometido a infração. Minerva insiste. Pedro nega três vezes. Jesus entra na discussão e diz que quem nunca cometeu uma falta atire a primeira perna. Ih, esquenta a briga. João Batista lança uma sandália na cabeça de Átila, que rola no chão perto do goleiro ACM.

BELEROFONTE: Veja que onde Átila rola, não cresce grama, Dante.

DANTE: Bem observado, Belé. E João Batista insiste, hein. Vai pra cima de Átila, joga a túnica de camelo no chão e parte para a briga…

NIETZSCHE: Cá pra nós, Dante, João Batista é bom jogador e tudo, mas é um bad boy. Enquanto não dominar esse temperamento dele, sua carreira nunca vai deixar de ser uma eterna terra prometida.

DANTE: Agora, pra completar, Stálin dá um tapa na auréola de Gabriel e o chama de “ópio do povo”. “Seu ópio do povo”, ele diz. A confusão se generaliza.

BELEROFONTE: Dante, os Templários, que estão no banco de reservas do Céu tentam invadir o campo. Mas são contidos pela ira divina. Deus, em sua infinita bondade, abre um buraco no chão onde eles caem e são soterrados. E agora o massagista do Céu entra na cancha pra cuidar de Gabriel, distribuindo garrafinhas de mel e pedaços de ázimos pra todos os jogadores.

DANTE: E no banco de reservas do Inferno, Orfeu?

ORFEU: “Como uma deusa, você me mantééém. E as coisas que você me diz, me levam alééém…”

DANTE: Orfeu!

ORFEU: Dante, por incrível que pareça, Satã está calmo. O Diabo está sentado, desenhando algo em sua prancheta… Um sete, Dante. Satanás está pintando o sete.

NIETZSCHE: Ai, ai, ai, o clima continua quente. Belzebu pegou um pedaço de pão que Jesus lhe oferecia, amassou e jogou no chão.

BELEROFONTE: Pão esse que Jó comeu, Nietzsche. Eita, Dante, e agora a briga contagiou as torcidas. Uou! Confusão na arquibancada. Os profetas, liderados por Isaías, atacam os pecadores do Inferno a pedradas.

DANTE: Não dá. Enquanto permitirem a entrada dos profetas uniformizados em campo jamais vai acabar a violência no futebol.

NIETZSCHE: Também, Dante, convenhamos. O policiamento é precário. Cadê os anjos de espadas flamejantes quando a gente precisa deles?

DANTE: É verdade. Olha, eu quero dizer a nossos ouvintes que a briga é feia e promete não acabar tão cedo. Pra vocês terem uma ideia, agora mesmo o marquês de Sade passou a mão na bunda de Moisés, que praguejou sete vezes. Alguma chance de a confusão acabar e o Céu conseguir reverter o marcador daqui até o final do primeiro tempo da eternidade, Friedrich?

NIETZSCHE: É inútil, Dante. Todos nós já vimos essa história. A briga não acaba nunca, mas dá mal na cabeça sempre. Eterno retorno. Orfeu, que é grego, sabe disso melhor do que eu. Não é Orfeu?

(Em vez da voz de ORFEU, entra trecho de O Guarani.)

DANTE: Ih, Friedrich, deu interferência. Orfeu pegou a Hora do Brasil!

(Continua O Guarani e, em seguida, entra voz de locutor: “Em Brasília, 19 horas…”) (FIM)

CLÁSSICO METAFÍSICO: CÉU X INFERNO (Quarta Parte)

DANTE: E olha aí mais uma descida fulminante do Inferno. Papa Doc para Stálin, Stálin para Sisto V, que lança para Vlad. Vlad avança pela direita em alta velocidade. A torcida avança com ele…

TORCIDA DO INFERNO: “Ô-ô-ô, Vlad é Empalador! Ô-ô-ô, Vlad é Empalador!”

DANTE: Segue Vlad. Dribla, um, dribla dois, entra na área, na cara do gol, atiroooou… Jacóóóóóóó! Defesa espetacular de Jacó, encaixando uma bola que ia no ângulo. Orfeu, o que é que só você viu?

ORFEU: “Meu mel não diiiga adeus, eu tenho tanto medooo…

DANTE: Orfeu!

ORFEU: Uma defesa espetacular de Jacó, Dante. Aliás, não via Jacó em forma assim desde a época em que atuava com Raquel e as escravas para produzir sua imensa prole.

NIETZSCHE: Cabe notar uma coisa ainda mais impressionante: Jacó faz essas defesas todas, geniais, com as mãos fechadas.

DANTE: Bem lembrado, Nietzsche. E Jacó continua com a bola. Fala com os outros companheiros de equipe. Vai a um e outro zagueiro, mostrando a bola, gesticulando… Mas o que é que ele quer, afinal? O que ele tá dizendo, Orfeu?

ORFEU: “Eu só queeero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasciiii, é…”

DANTE: Orfeu!

ORFEU: Jacó tá tentando revender a bola, Dante. Tá dizendo: “No meu mão é barratinho…”

DANTE: Lá vai ele. Saiu da área com a redonda… Não pode, Jacó, é falta! Falta perigosíssima para a equipe do Inferno bater. Quase um pênalti, Nietzsche.

NIETZSCHE: Olha, batendo dali de tão perto, Hitler é um perigo para a barreira. São tiros fulminantes. Já vi jogador do Céu sair de campo emasculado. E não me refiro a Gabriel, claro.

DANTE: Bom, vamos ver se Hitler derruba alguém dessa vez. Mas não. Ele deixa a pelota para o Marquês de Sade, que a ajeita com carinho. Sade beija a bola. Sade… lambe a bola. Sade se… abraça com a bola e… cai no gramado com ela… e prossegue com carícias… tira o calção… Mas Pio XII pega a redonda, dizendo não admitir imoralidades. Pio arregaça a batina e se prepara para cobrar. A barreira do Céu está postada e ri. Lá vai Pio, bufando e vermelho do esforço. Correu, atirou… Ridículo. A bola vai saindo vagarosamente pela linha de fundo… e… gol! Gooooooooool! Do Infeeeerno! Pio é o nome dele! O craque da camisa número doze! O Inferno abre o marcador com um gol inacreditável.

NIETZSCHE: Pra mim, a bola desviou no Espírito Santo. Tava indo claramente para a bandeirinha de escanteio!

DANTE: Orfeu?

ORFEU: “O que a gente faz, é por debaixo dos pano, pra ninguém saber, é por debaixo dos pano, que eu ganho mais…”

DANTE: Orfeu!

ORFEU: Isso mesmo, Nietzsche. Daqui de onde eu tô pude ver bem a jogada e o último toque foi mesmo do Espírito Santo.

DANTE: Aí está, portanto. Com um verdadeiro gol espírita o Inferno faz 1 x 0. O Céu vai ter que partir para cima agora, Agostinho.

AGOSTINHO: (Aproxima-se lenta e tremulamente do microfone.) Bem. (Afasta-se lenta e tremulamente do microfone.) (CONTINUA)

CLÁSSICO METAFÍSICO: CÉU X INFERNO (Terceira Parte)

DANTE: Comeeeeeça a partida. Jesus toca a bola para Gabriel, Gabriel estica a redonda na ponta, faz um grande lançamento para… para quem? Para ninguém.

BELEROFONTE: Engano seu, Dante. O lançamento foi para o Espírito Santo, que deixou a bola passar.

DANTE: Bom, retoma o inferno com Belzebu, que toca para Pinochet. Pinochet logo dá mais à frente para Stálin, grande lance de Stálin que, num drible de raio X, passa por dentro do Espírito Santo.

NIETZSCHE: O Espírito Santo não tá bem hoje…

AGOSTINHO: (Aproxima-se lenta e tremulamente do microfone.) Bem. (Afasta-se lenta e tremulamente do microfone.)

DANTE: Continua Stálin pelo meio da cancha. Estica a bola para o artilheiro Hitler. Grande jogada. A defesa do céu foi pega desprevenida rezando uma ave-maria, avança Hitler, toca mais à frente para Átila, o Huno, sozinho na cabeça da área. Corre Átila. Ele e a bola. Vai fazer, vai fazer, vai… Não é possível! Orfeu, o que foi que só você viu?

ORFEU: (Cantando, alheio.) “Não se reprima, não se reprima, não se reprima…”

DANTE: Orfeu!

ORFEU: É isso mesmo, Dante, Átila pegou a bola com as mãos, temperou a pelota com sal e deu duas ou três dentadas. Falta para a equipe do Céu.

NIETZSCHE: Por um momento ele me fez lembrar do inesquecível meia-esquerda Tântalo. Do grande Pantagruel. Ou do povo brasileiro mesmo.

DANTE: Esaú pega a bola para bater a falta na defesa celeste. Jacó rouba a bola dele e diz que é ele quem vai bater. Esaú lhe dá um tapa. Jacó revida. O jogo é interrompido. A juíza vai expulsar os dois, hein, Orfeu?

ORFEU: (Cantando, alheio.) “Voar, voar, subir, subir… E ir por onde for…”

DANTE: Orfeu!

ORFEU: Ia expulsar, Dante. Os três, aliás, porque Abraão já vinha com um cajado para descer o sarrafo nos dois. Mas Jesus estabeleceu uma nova aliança entre eles e tudo se resolveu. Bola em jogo.

DANTE: Aliás, Orfeu, quem é essa bela juíza do jogo de hoje. Esquecemos de anunciar.

ORFEU: É realmente uma deusa, Dante. Trata-se de Minerva. Uma juíza polêmica. Alguns a acusam de ser cega.

DANTE: E nas bandeiras, quem temos?

ORFEU: De um lado, a alegoria da República da França. Do outro, são as estátuas do famoso monumento aos soldados americanos em Iwo Jima.

DANTE: Olha lá o ataque fulminante do Céu. A bola chega a João Batista, João lança rapidamente ao primo Jesus, que toca para Gabriel. Gabriel dribla um, dois, cruza para São Francisco, sozinho na pequena área. Vai fazer de cabeça, olha o gol… A bola paaaassa direto! Belerofonte, a bola passou por São Francisco, que nem ao menos se mexeu. Que foi que houve?

BELEROFONTE: No momento do cruzamento, ele tava conversando com a trave, Dante. Segundo pude ouvir, algo sobre a impermanência da carne e a transitoriedade dos objetos inanimados.

NIETZSCHE: É incrível. A continuar fazendo esse tipo de coisa, São Francisco vai acabar virando um jogador estigmatizado… ha, ha, ha! (CONTINUA)

PS: Senhores e senhoras, ter eu passado tanto tempo ausente se deve a dois fatos de fundamental importância para a vida do cosmo  além do óbvio, claro, que era não aguentar mais a presença de vocês por aqui —, sobre os quais falarei assim que conseguir terminar este infindável clássico. Aguardem.

CLÁSSICO METAFÍSICO: CÉU X INFERNO (Segunda Parte)

DANTE: Orfeu!

ORFEU: Muito bem, Dante, já estamos aqui com a escalação do Inferno, que vai de ACM, no gol; Pio XII, Belzebu, Papa Doc e Pinochet, na defesa; no meio, Stálin, Sisto V, Vlad, o Empalador; e, no ataque, Átila, o Huno, Hitler e o marquês de Sade. Mas vamos falar com o treinador da equipe, ele que anda meio caído nesses últimos séculos: Satanás. E então Satã, qual a tática para derrotar o Céu?

SATANÁS: Nós temos trabalhado em algumas tentações novas e vamos utilizar o mesmo sistema ofensivo, atacando com três pontas em estocadas rápidas.

ORFEU: Obrigado. Dante.

DANTE: Obrigado, Orfeu, e vamos agora com ele que já esteve lá: Belerofonte, qual a escalação do Céu, meu filho?

BELEROFONTE: Olá, Dante e amigos. O Céu vai entrar com Jacó, no gol; Esaú, Abraão, Moisés e Jó, na defesa; no meio, João Batista, Elias, José e Gabriel; e no ataque, Jesus e o Espírito Santo. O desfalque da equipe celeste é Paulo, que caiu do cavalo no meio da semana e não joga. Mas, Dante, correm boatos de que Jesus e o Espírito Santo estão se desentendendo com o Pai. Ciumeira, contratos com multinacionais, essas coisas. Vou perguntar aqui a Deus se isso é verdade. Assim que eu encontrá-Lo, porque parece que Ele está em toda parte… Aqui. Senhor, é verdade o que andam dizendo sobre a Santíssima Trindade? O trio vai finalmente se desfazer, o sonho acabou?

DEUS: Belerofonte, você, mais do que ninguém, sabe que isso é uma quimera. O Diabo espalhou essa história pra desestabilizar nossa equipe. Continuamos como sempre fomos: indivisíveis, unos, três em um, somos praticamente um combo de internet.

BELEROFONTE: E o Senhor acha que…? Ih, sumiu. Vai com você, Dante.

DANTE: Obrigado, Belé. Alguma novidade, Friedrich?

NIETZSCHE: Gostei da substituição de Goebbels pelo marquês de Sade, que ultimamente anda comendo a bola.

DANTE: Agostinho?

AGOSTINHO: (Aproxima-se lenta e tremulamente do microfone.) Bem. (Afasta-se lenta e tremulamente do microfone.)

DANTE: Aí está. Tudo pronto para o início da partida. E a guerra das torcidas continua. Vamos escutar…

TORCIDA DO INFERNO: “Ilo, ilo, ilo, João Batista come grilo! Ilo, ilo, ilo, João Batista come grilo!”

TORCIDA DO CÉU: “Por Cristo! Tum-tum-tum. Com Cristo! Tum-tum-tum. Em Cristo! Tum-tum-tum.”

TORCIDA DO INFERNO: “Ô-ô-ô! Aldolf Hitler é matador! Ô-ô-ô! Aldolf Hitler é matador!”

DANTE: Que bonito o espetáculo! O juiz vai dar início ao jogo. Mas antes teremos o tradicional minuto de silêncio. Em homenagem a quem, Orfeu?

ORFEU: (Cantando, alheio.) “Ele não monta na lambreta, ele não monta na lambreta…”

DANTE: Orfeu!

ORFEU: É pela morte da ética e da moralidade pública no Brasil, Dante. (CONTINUA)