Homem sempre à frente de meu tempo (o qual se situa entre o nascimento de Homero e os primeiros avanços de Átila, o Huno), escrevia um e-mail outro dia quando vi surgir de repente um quadrado com uma saudação na parte inferior direita da tela. “Isaac Asimov estava certo”, pensei aterrorizado, enquanto corria para pegar um crucifixo. Segundos depois, percebia duas coisas: primeira, sou agnóstico; segunda, o olá vinha de Nelson Moraes.
Eis que existe uma maneira de conversar através do Gmail, foi o que deduzi. Ou isso, ou meu computador é médium e estava me dando mostras de querer que o leve para assistir a Nosso Lar.
Seja como for, reproduzo abaixo a conversa:
Nelson: Cara, tudo bem aí?
Eu: Tudo beleza. E por aí?
Nelson: Tranquilo. Pra quando é o nenê, mesmo?
Eu: Março do próximo ano. Já a minha morte, deve ficar pra janeiro.
Nelson: Hahahahahahahaha. Já escolheram o nome?
Eu: Não. A gente ainda nem sabe se é menino, menina ou um pé de couve.
Nelson: Hehehehehe.
Eu: De acordo com a ultrassonografia, voto pelo último.
Nelson: O importante é a beleza interior.
Eu: Você diz isso porque mora em Goiás.
Nelson: E que ele assuma sua pedecouvice.
Eu: Vou aceitar, não tenho preconceito. Se ele decidir ser pé de couve, que seja. Essas coisas a pessoa não escolhe.
Nelson: Vai ser um pé de couve enrustido?
Eu: De jeito nenhum. Tem que sair da horta.
Nelson: Que ele tenha uma namorada vegan, pelo menos.
Eu: Não. Ela arrancaria tudo dele antes mesmo de se divorciarem.
Nelson: Ele não precisaria se fantasiar de Hulk pro Halloween, por outro lado… Bom, deixar você ir almoçar. Era só pra dar um alô, mesmo.
Eu: Peraí, falar em pé de couve, cadê o bundão do Branco? Deu notícia*?
Nelson: Até agora, nada. Não sei em que pé as coisas estão.
Eu: Couve bem o que te digo: se a gente não ficar no pé do Surdo**, é capaz de ele esquecer até de respirar.
Nelson: Uai. Então tá então. Vou ver se mando um e-mail na base do “E aí, notícias?” hoje, mais tarde.
Eu: Joia. Agora, sim. Vou almoçar. Ih, é couve…
Nelson: HAHAHAHAHAHAHA.
* O bundão do Branco está preparando Os Macacos do Museu Britânico, livro que traz a primeira reunião de textos do Nelson, a ser publicado em breve por Os Viralata e cujo único defeito é ter sido organizado por mim.
** O bundão do Branco, além de patente deficiência cerebral, sofre de surdez em um dos ouvidos. Não perguntem qual, ele não vai escutar.
