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DEUS NO DIVÃ

— Bom dia. Então. Por que o Senhor veio até mim?
— Eu nao vim, eu estou. Estou aqui, estou na sala de espera, estou dormindo com a Luana Piovani, vendendo sacolé na praia, vendo a aurora boreal e participando do American Idol. Aliás, por conta da idade, sempre me confundem com o Steven Tyler. Um absurdo. Sou dois anos mais novo.
— Certo. Mas qual é sua queixa?
— Eu sofro de Onipresença, doutor.
— E isso acontece há muito tempo?
— Desde que eu não nasci. Sabe, eu acho que a origem de tudo é esse meu judaísmo sem mãe. A base de todo o judaísmo — e da psicanálise, se me permite — é uma mãe a ser xingada. E eu sou como político. Não tenho mãe.
— Isso o faz se sentir…
Onimpotente.
— Entendo. Muito estresse no trabalho ultimamente?
— O de sempre. Manda um tsunami aqui, faz um vulcão entrar em erupção ali, cria um terremoto, inspira uma música do Luan Santana, essas coisas. Tô no ramo de catástrofes naturais, sabe? Fui eu que inventei o botox, modéstia à parte.
— Uhm. O Senhor se sente realizado profissionalmente?
— Ná. Caí na rotina, anda tudo muito burocrático, repetitivo. No princípio, eu tinha planos, sonhos, o senhor sabe como a gente é na juventude. Quando se tem apenas 300 bilhões de anos tudo parece possível. Eu me sentia imortal.
— E o que aconteceu?
— Elaborei um projeto ambicioso. Queria criar uma espécie inteligente, criativa, alguém com quem conversar, andar sobre as águas, multiplicar pães, tomar um chope, enfim. Mas infelizmente o jumento não deu certo. Acabei tendo de me contentar com o ser humano.
— Fale de sua família.
— Bom, somos só eu, meu Filho e o Espírito Santo. O Espírito Santo é como se não existisse. O senhor já ouviu falar do Espírito Santo no noticiário? Até o Acre aparece mais do que ele. E Jesus entrou numas de jogar poker pela internet. Os fiéis implorando ajuda e ele ali, de headphone no ouvido.
— Alguma coisa mais que o Senhor queira acrescentar?
— Cá entre nós, ando pensando em acrescentar uma boquinha nos joelhos dos homens. Já pensou num coro de joelhos cantando “We Wish You a Merry Christmas” no Natal? Ha, ha. Ia ser hilário.
— Olha, me parece que o Senhor está enfrentado um caso clássico de perda de identidade. Tente encarar a Onipresença de maneira positiva. Por exemplo, vendedor de sombrinha chinesa em dia de chuva. Índio andino tocador de flauta. São onipresentes e estão numa boa.
— O senhor não entende, doutor, eu também sou… eu… eu sou Onisciente, doutor. Eu sei de tudo. Do dia do Apocalipse. Do destino do homem após a morte. Do segredo do molho especial do McDonald’s. Tudo, tudo.
— Nesse caso, não preciso dizer que sua hora acabou, nem que são quinhentos reais a consulta. Em dinheiro, por favor, porque cheque eu só aceito com identidade. Ha, ha. Agora diga: isso, sim, foi hilário.

CARIOCA SAPIENS PERONOMUCHUS

Ao longo dos séculos os cientistas têm se debruçado sobre a questão de como o homem começou a falar, sem alcançar uma resposta definitiva. E isso por um erro epistemológico crasso: nunca perguntaram a mim.

Conhecedor das verdades ontológicas últimas e decifrador das letras de Djavan, obviamente sei como tudo se deu. E se não me manifestei até hoje foi por pura modéstia, mais um atributo de meu caráter imaculado.

Querem os preconceituosos fazer supor que a fala surgiu assim que a primeira mulher foi criada das costas de Adão. Eva teria olhado para o parceiro, que a fitava maravilhado, e, logo em seguida, suspirado e dito:

– Olha, acho que nossa relação tá em crise, hein? Não tá rolando mais aquela química. Senta aí nessa pedra que a gente precisa conversar.

Calúnia dos que querem esteriotipar a mulher como uma faladora irrefreável. Sabe-se que, quando a linguagem falada surgiu, ela não estava nem ao menos presente. Tinha ido a uma caverna vizinha e, alheia, fofocava com uma amiga na língua dos sinais.

Em minhas vastas e afanosas pesquisas, acabei por descobrir que, no período em que as várias espécies de Homo coexistiam na Terra — a exemplo do sapiens, do neandertalis e do sexual — apareceu uma criatura que escapou até hoje aos olhos dos paleontólogos: o Carioca sapiens peronomuchus.

Alguns querem crer que o Carioca sapiens peronomuchus é o elo perdito entre o bicho-preguiça e a arara, fato ainda não comprovado. O que se tem por certo é que esse estranho ser não caçava, não pescava, não conhecia a agricultura nem desenvolveu ferramentas. Reunia-se em bandos e tinha por atividade principal falar. Falar muito. Especialmente sobre assuntos que fugiam inteiramente a seu conhecimento.

Não sei precisar ao certo se o Carioca sapiens peronomuchus inventou a fala e só depois o pitaco ou se o pitaco precedeu a fala, sendo esta última possibilidade a mais plausível. Fato é que o Homo sapiens desenvolveu o aparelho fonador a partir do convívio com o Carioca, ainda que de forma imperfeita — ainda hoje nossa espécie é incapaz de emitir sons na mesma profusão de nossos professores.

Tampouco consigo explicar como o Carioca sapiens peronomuchus desapareceu. Uma hipótese é que o Homo sapiens, impaciente por natureza e cansado de tanta falação sem propósito, tenha descido o tacape na cabeça do outro, num movimento em massa que teria ocasionado sua extinção.

Outra, é que o Carioca sapiens peronomuchus se isolou dos humanos e se estabeleceu em algum ponto do litoral da América do Sul, existindo até nossos dias. O que me parece altamente improvável, dada sua natural repulsa à civilização

PAIS

– Maria Helena, acorda, Maria Helena!

– Hmmm…

– Maria Helena! Acorda!

– Aspargos azuis sobre o Berlusconi de saia…

– Maria Heleee-ná!

– Que… Que foi? Quem morreu, Ernesto?

– Eu preciso saber, Maria Helena.

– De novo? Já disse que foi num final de semana em Búzios, você tava em São Paulo, o cara foi se chegando, eu tava meio bêbada…

– Não, você acha que eu ia acordar você às quatro da manhã por uma idiotice dessas? Tô falando do terceiro verso. Qual é o terceiro verso da música do coelhinho?

– Que coelhinho, Ernesto?

– O de olhos vermelhos e dentes branquinhos.

– Eu não acredito nisso. Eu disse que você tava ouvindo demais os disquinhos da Marina, que tava esquecendo de ouvir outras coisas além de música de criança, mas você não me escuta. Aliás, você nunca me es…

(CANTANDO) “De olhos vermelhos, de dentes branquinhos…” E o resto? Fala o resto.

– “De olhos vermelhos e dentes branquinhos” é uma boa descrição de você chegando bêbado do bar. A música é “de olhos vermelhos e pelos branquinhos”.

– Pelos, isso, pelos. E em seguida?

– E em seguida eu vou dormir. Tenha paciência. Se ainda fosse a música do sapo que não lava o pé.

– Você não me venha com ironias sobre a música do sapo que não lava o pé. Aquilo é Nietzsche. Nietzsche puro, Maria Helena. É o desejo versus o imperativo moral. O sapo mora na lagoa, mas não lava o pé. E por quê? Porque não quer. Ponto para o sapo. O sapo é um herói existencialista, Maria Helena.

– Taí, sempre achei que o sapo parecia Sartre. Aqueles olhos esbugalhadões, a não adesão ao banho…

– Não brinca que eu tou falando sério. Veja o caso da aranha que sobe pela parede, por exemplo. Passa chuva e sol, mas “ela é teimosa e desobediente, sobe, sobe, sobe e nunca está contente.” Agora me diga se isso não é Prometeu? Ahn, ahn? Ésquilo. Ésquilo puro.

– Você precisa parar de ouvir esses disquinhos da Marina, Ernesto. É sério. A coisa tá chegando num ponto que…

– Passos.

– Ai, meu Deus! Na escada? É ladrão!

(CANTANDO) “De passos ligeiros, eu sou o coelhinho. Sou muito assustado, porém sou guloso, por uma cenoura, eu fico manhoso.” Lembrei. Lembrei o resto da música.

– Ótimo! Satisfeito agora? Ou vai querer estabelecer uma ligação entre a música do coelhinho e a primeira expedição de Martim Afonso de Sousa?

– Boa noite, Maria Helena.

– Que foi, ué? Tá irritado por quê? Não era o que você queria?

– “Comi uma cenoura com casca e tudo, tão grande ela era, fiquei barrigudo”. Pff. Cá pra nós! Esse coelhinho era um baita de um pequeno-burguês, Maria Helena. Vamos dormir.

LEIA TAMBÉM: Filhos e Noivado.

PREFIXO

ANTÔNIA

Aquele homem tá seguindo a gente, Adalberto.

ADALBERTO

Pra onde?

ANTÔNIA

Perseguindo, Adalberto. Ele tá perseguindo a gente.

ADALBERTO

Veja você a diferença que faz um prefixo…

ANTÔNIA

Quê?

ADALBERTO

“Que” é preposição. Tô falando do prefixo. De “seguindo” pra “perseguindo” vai a distância que separa o código penal do código de trânsito. Que língua!

ANTÔNIA

Eu não acredito, Adalberto. Aquele homem seguindo a gente, ou melhor, perseguindo e você defendendo a última flor do Lácio.

ADALBERTO

Antonomásia.

ANTÔNIA

Antônia! Meu nome é Antônia!

ADALBERTO

Não, antonomásia, eu digo. “Última flor do Lácio” é uma antonomásia que você usou pra substituir “língua portuguesa”. Que língua!

ANTÔNIA

Substantivo.

ADALBERTO

Quê?

ANTÔNIA

“Que” é preposição, como você mesmo disse. Já “revólver” é substantivo, e é o que aquele sujeito está usando ao nos per-seguir, com prefixo e tudo. Aperta o passo, Adalberto, a gente vai ser assaltado.

ADALBERTO

Assaltada. A gente concorda no feminino. A gente vai ser assaltada, a gente vai ser roubada

ANTÔNIA

A gente vai ser morta!

ADALBERTO

Isso.

ANTÔNIA

Não, a gente vai ser morta de verdade, Adalberto! O homem tirou o revólver da cintura e tá apontando pra gente. E agora? E agora?

ADALBERTO

Agora é advérbio de tempo.

ANTÔNIA

Socorro! Por favor, moço, a gente entrega tudo, não faça nada não, a gente ainda nem acabou de pagar as alianças de casamento! Fala alguma coisa, Adalberto!

ADALBERTO

É isso mesmo, moço, eu e a Antonomásia, digo, a Antônia…

LADRÃO

Cala a boca, todo mundo quieto! E nada de polícia, que eu tô na condicional.

ADALBERTO

Me desculpe, mas até agora você tá no indicativo. Na condicional você estaria se a polícia chegasse. Se, condicional.

LADRÃO

Cê tá me tirando, mano?

ANTÔNIA

Ele retira o que disse, não é, Adalberto? Tome, moço: minha bolsa, a carteira dele, as joias, é tudo o que a gente tem. Agora, pelo amor de Deus, deixe a gente ir.

LADRÃO

Pode ir, mas sem olhar pra trás, hein! Se olhar, eu atiro!

ANTÔNIA

Corre, Adalberto! Não ouviu o homem? Vem! Que tá fazendo aí parado?

ADALBERTO

Tiro, retiro, atiro. Veja você a diferença que faz um prefixo… Que língua!

FICA, MANO

Ultimamente não tenho me dedicado a esporte outro além do xingamento de parlamentares a distância e o arremesso de fraldas sujas ao cesto. Cheguei, inclusive, a elaborar um mix das duas modalidades e inventar o arremesso de fraldas sujas em parlamentares – invenção que não teve futuro, porque, preconceituosas, as fraldas sujas se recusaram a se misturar com material de pior qualidade. (Pena. Já havia, inclusive, encomendado fraldas padronizadas, bordadas com a frase revertere ad locum tuum para o lançamento.)

Aliás, não é de hoje que invento modalidades esportivas. Todos hão de se lembrar do glorioso cooper etílico, esporte que não alcançou o desenvolvimento merecido graças ao pouco empenho das autoridades no patrocínio de combustíveis alternativos e ecologicamente corretos como o etanol.

E cheguei mesmo, juntamente com o Surdo do Cambuci, a criar novas regras para o futebol, como a de que o jogador tem direito a dar pelo menos um bofetão no árbitro em caso de dúvida sobre a marcação de uma falta, além do providencial “um minuto de insulto”, ocasião em que os adversários se perfilariam e trocariam elogios sobre os respectivos progenitores em momentos de maior tensão. Regras essas, acreditem, solenemente ignoradas pela International Board.

Nada disso, porém, me incapacita a comentar a derrota do selecionado nacional para a poderosa seleção paraguaia na Copa América.

Ora, sabia que o jogo seria duro, com a defesa adversária marcando firme e distraindo nossos atacantes com ofertas de tênis Nike e TV LCD pela metade do preço. E tinha plena consciência de que a tortura psicológica seria um componente explorado pelos paraguaios, com o cantarolar de guarânias ao longo da partida. No mais, convenhamos, quatro pênaltis são coisas que qualquer cego ou vesgo perdem cotidianamente, sem grande alarde.

Por isso mesmo, me junto ao coro dos que defendem a permanência de Mano Menezes no comando da Seleção. Sim, porque já há quem queira trocá-lo por pessoas menos capacitadas, como técnicos ex-campeões mundiais e vencedores de Libertadores, gente com anos de experiência na montagem de grupos vitoriosos.

Calma. É preciso lembrar que Mano tem, entre suas maiores conquistas, nada menos que um título da Segunda Divisão e, como se isso não bastasse, levantou o troféu da Copa do Brasil, competição só conquistada por times de ponta do nosso futebol, como o Juventude de Caxias e o Santo André.

Por que então agora, de uma hora para outra, resolveríamos trocar o duvidoso pelo certo, apelando para a meritocracia e fugindo às tradições que fizeram desse país o que ele é?

Basta. Chega de importar conceitos extrâneos como os de competência e bons serviços prestados. Contra tamanha afronta, venho a público lançar a campanha “Fica, Mano”. E quero crer que conto com a ajuda de todos vocês. Obrigado.

ALONGAMENTO

Após esses quatro meses de ausência, todos devem estar curiosos para saber as novidades da vida de pai. E é sem rodeios que digo ser preciso ter um filho para dar total razão a Freud—e não apenas razão, como também inconsciente e subconsciente.

Sim, porque, nesses primeiros quatro meses de vida, meu herdeiro tem se dedicado com afinco à tarefa de me matar e, contaminado por uma versão mais traiçoeira do complexo de Édipo, escolheu como alvo preferencial minhas costas.

Desde que passei a carregar a cria nos braços dia e noite, minha coluna vem se vergando de tal forma que, darwinista convicto, temo estar involuindo (primeiro o cérebro, agora isso) e retornando paulatinamente ao filo Cnidaria, aquele de seres invertebrados como as anêmonas-do-mar, as hidras e o Aloízio Mercadante. Deem-me mais um ou dois anos e viro duas colheres de sopa primordial.

Anteontem, vendo que eu já analisava a proposta de trabalhar como acabamento em arco numa construção aqui perto—e adepta de atividades exóticas com o exercício físico e a ingestão de verduras—minha mulher sugeriu que eu fizesse alongamento. E se predispôs a me ajudar.

– Você quer começar a alongar por onde? – perguntou.
– Pelo pinto – respondi.
– A dor é local? – prosseguiu, desprezando minha resposta.
– Digamos que, se você quiser falar com ela, tem que usar DDD.
– Tudo bem. Estique o braço pra cima o máximo que puder.

Fiz como mandou e foi com orgulho que, após não mais que um ou dois minutos, toquei o tampo da mesa.

– Uhm. Vamos tentar uma coisa nova.
– Sexo? – quis saber, esperançoso.
– Vire o pescoço até encostar no ombro – continuou ela, mais uma vez sem me dar ouvidos. – Isso. Agora volte à posição inicial. À posição inicial, agora. Pode voltar à posição inicial. Você não tá me ouvindo? O que é que falta pra você voltar à posição inicial?
– Um… pé… de cabra.

Travei. E é assim que estou até agora: quando olho para frente, vejo o lado; para olhar para o lado, giro o corpo. Virei uma espécie de Ney Matogrosso que passou por uma experiência traumatizante com Super Bonder.

A coluna continua a mesma porcaria, mas as propostas de emprego melhoraram consideravelmente. Abandonei a arquitetura e já considero participar como pintura numa próxima mostra de Picasso.

NASCEU

Nasceu prematuramente, com 35 semanas, às 23h27 desta última sexta, o herdeiro de minhas dívidas, Caio. Nasceu, deu uma olhada em volta e implorou: “Deixem-me voltar!”, como vocês podem ver na foto abaixo.

Com algum sacrifício, os médicos o contiveram. E não deixaram de se espantar: foi o primeiro menino que trouxeram à luz que empregava perfeitamente a ênclise.

Saído da sala de parto, a enfermeira o pesa para ver se ele corresponde aos 2,600kg de Caio que pedimos na fila da maternidade.

Já na incubadora, Caio olhava para o pai e meditava com toda complacência: “É esse idiota que vai tomar conta de mim?”

Menino de si alegre e contente, após uma breve leitura de O Ser e o Nada na incubadora, de volta aos braços da mãe, ele boceja, feliz: “É isso que chamam de vida?” 

O nascimento de uma criança, como se sabe, transforma a vida de qualquer pai. Depois de três dias no hospital, com uma média de sono de provocar pena em vilão de telenovela, eis que Caio teve esse efeito sobre mim. Me transformou num zumbi.

Estamos em casa agora e continuo passando mais noites em claro que um escandinavo. Quanto aos últimos dias, digo ser uma pena que cocô ainda não valha dinheiro, pelo menos quando não se trata do conteúdo dos livros de Paulo Coelho.

E espero, sinceramente, que em breve, com o avanço da genética e o progresso da nanotecnologia, as fraldas comecem a dar em árvores.

Natura non facit saltum. É pena. Mal posso esperar pelas delícias da adolescência.

(Mais fotos: www.facebook.com)

ASSALTO COM FREUD

ASSALTANTE (ENTRANDO NO BANCO)

Mão pra cima, isso é um assalto! Bora! Todo mundo passando a grana!

ALMEIDA

Essa sua fixação por arma de fogo, não sei não, hein.

ASSALTANTE

Todo mundo passando a… É o quê, ô palhaço?

ALMEIDA

Essa sua fixação por arma de fogo. É claramente uma sublimação da libido.

MARIA HELENA

Almeida dá pra você analisar o indivíduo depois do assalto? Ou quem sabe no céu, depois que ele matar todos nós?

ALMEIDA

Maria Helena, o céu é uma ilusão infantil criada pelos homens para…

ASSALTANTE

Repete o que tu falou aí, ô paspalho. Tu me chamou de lambido?

ALMEIDA

Não, li-bi-do. Em outras palavras, você tá usando essa arma aí numa espécie de manifestação sexual. Talvez por sentir alguma falta.

MARIA HELENA

Almei-dá!

ASSALTANTE

Tô sentindo falta de estourar os miolo de alguém, tá ligado? Acho bom tu ficar na tua aí, veio!

ALMEIDA

Olhaí, poder. Você só se sente seguro com a arma na mão. A arma, na verdade, é um substituto do pênis. Agora me diga: o que há de errado com seu pênis?

MARIA HELENA

Com o dele eu não sei, mas o teu eu vou arrancar se a gente chegar em casa vivo!

ASSALTANTE

Não tem nada de errado com meu pinto não, tá ligado? Nada. Nadinha… Er… Vem cá, tu por acaso andou conversando com a Creide, foi?

ALMEIDA

Ah, sabia. Desconforto com o pênis. Seja franco, qual é o problema? Você acha que ele tá abaixo da média?

MARIA HELENA

Eu tenho certeza que o homem tem um pintão, Almeida. Um pinto assim enorme. Um negócio de servir como fita métrica, né, moço? Agora você quer me fazer o favor de calar a boca?!

ASSALTANTE

Pra falar a verdade, não, dona. Eu realmente, eu… Sabe, é difícil assim de dizer, mas quando a gente vai num banheiro público e dá aquela espiadinha de lado, sabe como é, eu… Eu tenho um pinto pequeno, eu sei.

ALMEIDA

E usa a arma como uma maneira de compensar o que, em sua cabeça, é uma deficiência. Bingo. Não falei pra você, Maria Helena?

ASSALTANTE

Parabéns, doutor. Agora, se me der licença, eu vou usar a minha compensação, devidamente carregada com seis bala, pra pipocar seu objeto do desejo.

ALMEIDA

Vai matar minha mulher?

ASSALTANTE

Não, o senhor. Todo homem tá apaixonado por si mesmo. Eu também li o meu Freud, veio.

POLICIAIS (ENTRANDO NO BANCO)

Mãos ao alto. Pega o meliante. Isso. Algema. Leva pro camburão. Safado.

MARIA HELENA

Almeida, Almeida! Você salvou todo mundo, Almeida, você é um herói. Tô tão orgulhosa de você. (BEIJANDO-O) Meu homem! Meu!

ALMEIDA

Sentimento de posse. Você teve muita prisão de ventre na infância?

OS MACACOS DO MUSEU BRITÂNICO

A maior revelação de minha vida (sem contar a de que os bebês não vêm do pólen das flores, mas sim, como é consabido, são trazidos por cegonhas) foi ler, na filosofia de Parmênides, que “o que é, é”. Imaginem vocês que até então jamais passara por minha cabeça que o que fosse era, muito menos que o que não fosse não só não era como jamais chegaria a ser. Ainda me lembro de quedar-me boquiaberto, com o clichê na mão, admirando a sapiência dos antigos, a lógica clássica, a retórica grega e a bunda de uma empregada recém-contratada que desfilava seu portentoso devir à minha frente.

Se o marconismo não consta hoje como uma das correntes filosóficas mais estudadas dos últimos séculos, juntamente com o kantismo, o marxismo e o danbrownismo, a culpa é toda de Parmênides. E olha que eu tinha lá umas tantas coisas a dizer a respeito da impermanência do ser, da imparidade dos seios e da masturbação com os dedos mínimo e médio, prática que denomino de bivium e, houvesse nascido em outro tempo, seria matéria obrigatória para iniciados da escola de Alexandria.

Bom, mas o que quero dizer com tudo isso? Ah-ha! Viram? Caso o marconismo tivesse obtido o merecido florescimento, seria desnecessário responder essa pergunta, pois um de seus dogmas fundamentais rezava precisamente que “o que não foi dito, já foi dito, você é que não prestou atenção ou tinha saído para ir ao banheiro”. Enfim, o que queria dizer é que emoção semelhante à que se abateu sobre mim ao entrar em contato com a obra de Parmênides ocorreu ao me deparar há alguns anos com os textos sublimes de Nelson Moraes e seu antiparmenidismo subjacente: “O que é não é porra nenhuma, e se for também, foda-se.”

É uma pena terem desgastado a palavra gênio a ponto de ter já sido ela empregada até com relação a mim (e isso por um idiota de nome Harold ou Horald Bloom). Não fosse o caso e o epíteto cairia como uma rocha nas mãos de Nelson e, imagino, causaria alguns danos. Eis aí mais uma lei perdida com a prematura falência do marconismo e que dizia respeito à grandeza relativa dos epítetos e sua correspondência com a massa das ignomínias.

Mas, de volta ao assunto, fato é que Nelson Moraes é um gênio daquela época em que o termo era utilizado para se referir a Aristófanes, Jonathan Swift, Alexander Pope, Molière, Machado de Assis, Laurence Sterne, Cervantes, Eça e que tais. Sobretudo Que Tais, cuja obra é de uma ironia desenganada, um gracejo cortante, um wit constrangedor. Mais où sont les neiges d’antan?

Ora, já dizia o ditado: não adianta chorar sobre o Leite Derramado, pois ele vai mesmo continuar sendo considerado literatura, ganhou o Jabuti e o Brasil Telecom. Já Nelson, senhores, não é literatura. E não é literatura das melhores, o que o iguala aos grandes que não faziam literatura no passado e ficam acima citados. Uma reunião de seus textos magníficos, assombrosos, de uma inteligência cada vez mais rara (em mim, pelo menos) acaba de sair em papel.

Trata-se de Os Macacos do Museu Britânico. Entrem no link, deixem de medinha de comprar coisas pela internet e adquiram o livro. Não é menos que brilhante. Garanto: se vocês gostam das bobagens que escrevo, eis aí um que é maior do que eu. E é assim, com esse fraseado bíblico, que termino o post… Quem sabe? O destino do marconismo talvez seja a religião.

O CASO MACDONALD

Desde que me entendo por gente (e existe quem não me entenda dessa forma até hoje), há três questionamentos de indizível importância que jamais me saíram da cabeça. Primeiro: haverá um sentido para a vida? Segundo: existirá vida inteligente em Oliver Stone? E, por fim: como o velho MacDonald perdeu sua fazenda?

Do ponto de vista teológico, após décadas mergulhado em textos acadianos e na liturgia em sânscrito, cheguei à conclusão de que três forças governam o universo como o conhecemos: Deus, o Diabo e o Partido Republicano.

Quanto à metafísica, gastei meu Wittgenstein, meu Schopenhauer e uma série de outros filósofos de nomes cheios de consoantes para concluir, sem o menor traço de dúvida, que, sim, existe vida após a morte – contanto, claro, que não seja você o morto.

Porém, no fundo de meu coração ainda hoje persiste a última dúvida, sem cuja solução jamais terei sossego: que espécie de catástrofe se abateu sobre o velho MacDonald que, como todos sabem, tinha uma fazenda, ia-ia-ô, e na fazenda tinha um cachorro, au-au, um porco, óinc-óinc, e um boi, muuu?

Não tenho muito mais conhecimento em economia do que qualquer idiota ou um economista do governo, mas algo me sugere que o velho Mac entrou na onda dos subprimes, a ganância lhe subiu à cabeça. Ou isso, ou aquele maldito porco fazendo óinc-óinc-óinc no pé do ouvido dele diariamente lhe comeu o que restava do juízo.

“O que restava”, digo, afinal de contas, que outra razão além da demência levaria um sujeito adulto e perfeitamente saudável a passar o dia cantarolando “ia-ia-ô”? Qual? Preparem-se agora para escutar a teoria mais revolucionária produzida até hoje sobre aquilo que os filósofos costumam chamar de Paradoxo MacDonald ou Teorema do Ia-ia-ô.

Segundo estipulo, o velho MacDonald está, na verdade, preso dentro de um compacto infantil da década de 40, sendo ia-ia-ô nada menos que uma palavra de encantamento (spell, do protoindo-europeu sp2l) que, repetida incessantemente, não lhe permite a fuga. Teorias quânticas dão cem por cento de suporte a essa minha hipótese. Pelo menos uma das 39 teorias quânticas que existem num dos 378 universos paralelos conhecidos.

Ora, foi pensando nisso que comprei esta semana um LP da Xuxa. Minha esperança: que o som igualmente mágico de ilari-lari-ê destrua o magnetismo de ia-ia-ô, libertando o velho MacDonald de seu horrendo cativeiro. O perigo, nesse caso, é que o choque de forças espirituais de tal monta acabe por liberar também Cid Guerreiro, que se encontra igualmente encapsulado no dito LP, e vai dando eternamente o seu alô.

De acordo com alguns físicos, há ainda o risco de eu virar um pastel de Belém com recheio de carne. Mas tudo pela ciência. Desejem-me sorte.

O TEMPORA, O MORAES

Homem sempre à frente de meu tempo (o qual se situa entre o nascimento de Homero e os primeiros avanços de Átila, o Huno), escrevia um e-mail outro dia quando vi surgir de repente um quadrado com uma saudação na parte inferior direita da tela. “Isaac Asimov estava certo”, pensei aterrorizado, enquanto corria para pegar um crucifixo. Segundos depois, percebia duas coisas: primeira, sou agnóstico; segunda, o olá vinha de Nelson Moraes.

Eis que existe uma maneira de conversar através do Gmail, foi o que deduzi. Ou isso, ou meu computador é médium e estava me dando mostras de querer que o leve para assistir a Nosso Lar.

Seja como for, reproduzo abaixo a conversa:

Nelson: Cara, tudo bem aí?

Eu: Tudo beleza. E por aí?

Nelson: Tranquilo. Pra quando é o nenê, mesmo?

Eu: Março do próximo ano. Já a minha morte, deve ficar pra janeiro.

Nelson: Hahahahahahahaha. Já escolheram o nome?

Eu: Não. A gente ainda nem sabe se é menino, menina ou um pé de couve.

Nelson: Hehehehehe.

Eu: De acordo com a ultrassonografia, voto pelo último.

Nelson: O importante é a beleza interior.

Eu: Você diz isso porque mora em Goiás.

Nelson: E que ele assuma sua pedecouvice.

Eu: Vou aceitar, não tenho preconceito. Se ele decidir ser pé de couve, que seja. Essas coisas a pessoa não escolhe.

Nelson: Vai ser um pé de couve enrustido?

Eu: De jeito nenhum. Tem que sair da horta.

Nelson: Que ele tenha uma namorada vegan, pelo menos.

Eu: Não. Ela arrancaria tudo dele antes mesmo de se divorciarem.

Nelson: Ele não precisaria se fantasiar de Hulk pro Halloween, por outro lado… Bom, deixar você ir almoçar. Era só pra dar um alô, mesmo.

Eu: Peraí, falar em pé de couve, cadê o bundão do Branco? Deu notícia*?

Nelson: Até agora, nada. Não sei em que pé as coisas estão.

Eu: Couve bem o que te digo: se a gente não ficar no pé do Surdo**, é capaz de ele esquecer até de respirar.

Nelson: Uai. Então tá então. Vou ver se mando um e-mail na base do “E aí, notícias?” hoje, mais tarde.

Eu: Joia. Agora, sim. Vou almoçar. Ih, é couve…

Nelson: HAHAHAHAHAHAHA.

* O bundão do Branco está preparando Os Macacos do Museu Britânico, livro que traz a primeira reunião de textos do Nelson, a ser publicado em breve por Os Viralata e cujo único defeito é ter sido organizado por mim.

** O bundão do Branco, além de patente deficiência cerebral, sofre de surdez em um dos ouvidos. Não perguntem qual, ele não vai escutar.

ATLETA DE CRISTO

— Bem, amigos, terminada a partida, estamos aqui com o nome do jogo, Regicleiton. Regi, explica pra gente como você conseguiu marcar aquele golaço.

— Foi Deus, Pinga. Deus tem me abençoado em todas partida e se num fosse Deus eu num tinha feito nenhum dos meus gol, então se tem uma pessoa que eu tenho que agradecer é somente Deus.

— No caso, três pessoas. Obrigado, Regi. É com você, Aguinaldo.

— Obrigado, Pinga. Olha, e eu estou aqui justamente com aquele que nas palavras de Regicleiton foi seu maior incentivador: Deus, Ele que é o Todo-Poderoso, Ele que atua nas onze, Ele que bate escanteio e aparece pra cabecear, enfim, Ele que é o maior anacoluto do universo. E então, Senhor, como tem passado?

— As feministas que me desculpem, mas eu não passo. Lá em cima, é a Simone de Beauvoir que faz isso pra mim. Ha, ha, ha. Essa foi boa.

— Er… Senhor, qual foi exatamente sua influência sobre o Regicleiton essa noite?

— Regi quem?

— Cleiton.

— Olha, se isso tem a ver com aquele papo de Maria e José, eu já falei mais de mil vezes que não tive participação nenhuma na história. Agora me aparece esse tal de Regicleiton. Vou logo avisando, não tenho medo de fazer teste de DNA, hein? Há dois mil anos venho escutando piadinhas do Espírito Santo sobre o assunto, Jesus já passou por mais de cinquenta terapeutas. Só freudianos foram nove, e a passagem Céu-Inferno custa uma nota.

— Senhor, Senhor, não é nada disso. O Regicleiton disse que o Senhor o iluminou, por isso ele marcou o gol que classificou o XXXV de Pindamonhangaba à…

— Iluminei? Rapaz, eu só tô aqui porque sou onipresente, tenho que tá em todos os lugares ao mesmo tempo, ou você acha que num domingo à tarde eu estaria assistindo a uma partida de peteca?

— Fubebol.

— Ou isso. Vocês, humanos, não têm criatividade, puxaram ao Diabo: cadê aqueles bons tempos de perseguição de cristãos no Coliseu, de atenienses degolando espartanos, de sujeitos arrancando os olhos por ter fornicado com a mão, digo, a mãe? Tudo isso é culpa de Prometeu, que roubou a bola e entregou a vocês. A bola acabou com toda a inocência e beleza da humanidade.

— O Senhor quer dizer o fogo…

— Fogo, bola, tudo queima nos pés dos jogadores da Seleção. Ha, ha, ha. Essa foi ótima.

— Obrigado, Senhor. Fique Consigo. Pinga, é com você…

PAI DE ÚLTIMA VIAGEM

Ah, não há nada mais belo na natureza do que a gravidez! Tanto assim que me vejo tentado a compor uma écloga à Teócrito sempre que, com olhar cálido, observo minha mulher pôr a mão meiga sobre a barriga, debruçar-se belamente sobre a privada e vomitar, amorosa, todo o conteúdo de seu estômago, mais cerca de um ou dois terços da alma.

Verdade seja dita, nunca participei de rituais de exorcismo (não entrando na conta as vezes que levei minha sogra ao aeroporto) para poder comparar, mas concluindo pelo que vi n’O Exorcista posso afirmar que Platão estava certo quando condenou toda arte como imitação barata da realidade (em seu tempo, os ingressos para teatro eram mais em conta, imagino; e não havia o Sérgio Mallandro).

Sim, porque, ou não entendi muito bem o filme, ou aquela moça interpreta pessimamente uma gestante. E me pego ansioso esperando o momento em que minha mulher rodopie pelas paredes, desça escadas de costas ou me peça para pegar um copo d’água em latim do primeiro século.

Vocês, pais experientes, poderiam me dizer se é natural que com dois meses de gravidez a mulher enjoe regularmente, como se estivesse assistindo a um eterno show de Bruno & Marrone. Quanto a mim, sei de botes que vão de Cuba à Flórida com passageiros mais contentes. E às vezes me pergunto se, ao final de nove meses, ela não vai dar à luz um pote de óleo de rícino.

CARTA ABERTA A JONATHAN POPE

Caro Sr. Pope,

Com relação à desrespeitosa carta que o senhor teve a audácia de me enviar no último dia dez, passados exatos sete dias de seu retorno à Inglaterra, é com extrema indignação que gostaria de esclarecer:

1) Acho risível sua rancorosa afirmação de que os cariocas não passam de hominídeos. Ora, como pode o senhor – logo o senhor, vítima de um arrastão em que lhe subtraíram alguns pequenos pertences, como a mochila, as roupas do corpo e, se não me engano, a esposa –, afirmar tamanha tolice? O ataque em massa de que participou e em que, contando com um pouco de boa vontade, poderia ter interagido de maneira mais lúdica, entre um oh, my goodness e um please, don’t kill me e outro, foi perpetrado por criaturas em perfeito domínio do bipedismo e cujas armas de grosso calibre eram habilmente seguras com o auxílio de dedos polegares opositores, ágeis e flexíveis. Incompatíveis, portanto, com as acadêmicas descrições dos hominídeos.

2) Ainda agora me quedo embasbacado por ter o senhor se utilizado de um episódio menor, qual seja, o estupro de seu cunhado um dia após a chegada ao Brasil, como meio para rotular os brasileiros de “bárbaros”. É preciso jamais ter lido os clássicos greco-romanos para não saber que o amor entre iguais é uma invenção das sociedades mais distintas, sendo inclusive mote para o imortal Banquete de Platão. Não será necessário citar Alexandre nem César para deixar claro que a prática homoerótica é um sinal de grandeza e bravura. O senhor me dirá que o amor não foi consentido, mas haverá de entender que os arrebatamentos do coração nem sempre são racionais, e o que é o gang bang senão uma versão pós-moderna de Romeu e Julieta ou Otelo?

3) Quanto ao pequeno Jonathan Jr. ter caído em um mínimo buraco ao atravessar a rua e nunca mais ter sido encontrado, convenhamos, é coisa que pode acontecer em qualquer parte do globo. As bocas de lobo servem para escoar água e são mais uma demonstração de uma civilização altamente organizada, uma patente evolução dos aquedutos romanos. Já para o fato de o rombo no chão não estar tapado existem várias explicações razoáveis, como, por exemplo, a abdução da tampa do bueiro por alienígenas de Alfa Centauro; uma saída para dar um passeio do Monstro das Profundezas que, como é consabido, mora nos esgotos de todas as grandes cidades; uma tomada de decisão da própria tampa de bueiro, que resolveu partir para voos mais altos, empregando-se como calota de carro, roda de charrete, frisbee etc.

4) Por fim, como intelectual com passagem pela conceituada Universidade Harvard, era obrigação sua ter observado que o achaque dos policiais sofrido pelo senhor na delegacia demonstra de maneira irrefutável ter nossa sociedade atingido um nível mercantilista em suas relações sociais, com ênfase no capital, denotando um estágio avançado de cultura, fato perceptível a qualquer leigo. Além disso, o enunciado “rola uma grana pra birita aí e nós agiliza os trabalho, patrão” comprova a existência de um aparelho fonador maduro e desenvolvido, coisa impensável numa espécie pré-sapiens.

Sem mais por ora, e ainda prenhe de revolta, despeço-me.

Atenciosamente,
Marconi Leal.

EIACULA EX MIHI

Uh, ah, uh! Não vou… ah!… não vou… não vou conseguir segurar…

Goza fooora!

Agora vou. Vou conseguir segurar até a semana que vem.

Não faz isso, que foi? Volta aqui. Só queria avisar que tô no período fértil e não tô tomando a pílula.

Pra que pílula quando a gente tem um métoda contraceptivo muito mais eficaz, que é gritar “Goza fooora!” no pé do ouvido do marido? Se os chineses soubessem disso, tava resolvido o problema da superpopulação por lá. E digo mais, Roma teria sido um reino pra sempre se Lucrecia tivesse gritado no ouvido de Tarquínio: Eiacula ex miiiihi!

E você queria que eu fizesse o quê: pedisse licença, descesse nos correios e passasse um telegrama? Os rapazes estavam prestes a invadir a Normandia.

Não diga, Rommel. E você achou que uma bela forma de contra-atacar seria lançar um bombardeio de perdigotos no meu ouvido? Não é à toa que você é filha única e seu pai usa aparelho auditivo. Deve ser um lance de família.

Deixa de bobagem. Foi um gritinho de nada. E por um motivo nobre: salvei uma vida.

O quê? Fala mais alto que eu não tô escutando direito. Só ouço “chuá, chuá”. Ou fiquei surdo ou o aquecimento global é pra valer e o mar chegou aqui no prédio.

Podia ser pior, daqui a nove meses você estaria escutando “buá, buá”. E não reclama, a única pessoa nessa casa que não quer ter filhos é você. Quer dizer, você e o labrador. Levei ele pela terceira vez no canil e nada. Perguntei ao veterinário se era bicha, mas eles aparentemente são adeptos da política do don’t ask, don’t tell.

— Não é que eu não queria ter fihos, só não sei por que tê-los. É verdade que, com o tempo, o sujeito começa a ver as coisas por outro ângulo. O amadurecimento me tem feito pensar muito no assunto. O amadurecimento e o fato de ter visto o filho do vizinho indo comprar cigarro e jornal pro pai outro dia.

— Opa! Então vamos trazer os rapazes de volta pra casa, Gercindo! (CANTANDO) Bring the boys back home!

— Você quer parar de chamar meus espermatozoides de “rapazes”? Antes de mais nada, vai ser preciso convencê-los a voltar da altura da garganta, que é onde devem estar por agora, depois daquele grito, com os rabinhos envolvendo a cabeça e cara de quadro de Edvard Munch.

— Não seja por isso. Tutu-tururu-tutu-tururu-tutu! Vou botar a boca no clarim…

— Isso é uma metá… á… ááá… ah! Uhm! Ah! Ahn! Acho que não… acho que não vou conseguir segurar…

— Goza deeentro!

— Era o que eu pretendia fazer, Marilda! Era o que eu pretendia fazer!

PULANDO ETAPAS

— Escuta, sei que a gente acabou de se conhecer, tá aqui nesse bar há, o quê, meia hora? Enfim, todo mundo sabe onde isso vai parar. Que tal a gente pular etapas e ir direto pra cama?
— Uhm… Um homem direto. Gosto disso. Uh! Ai! Uh! E então, foi bom pra você?
— Ahn?
— Nosso sexo. Confesso que achei monótono a princípio, mas depois você mexeu de um jeito. Sei que não se deve dizer isso no primeiro encontro, Pedro, mas, já que a gente tá pulando etapas, nunca tive um sexo tão bom.
— Jura? Você precisa ver quando eu tô presente, é uma loucura. Vamos indo?
— Bom, pena que depois do sexo você caiu de lado e dormiu. Homens! Ah, e esse seu hábito de roncar…
— Juro que só ronco quando não tô transando com uma pessoa pela primeira vez.
… talvez seja um empecilho pra nossa vida em comum. Ou você cura a rinite ou vamos ter que dormir em lugares separados.
— Eu no sótão, você numa camisa de força?
— Mas vamos nos encontrar à noite, de outro modo não nasceriam o Toninho e a Jéssica. Por que a cara de estranhamento? Passa tanto tempo fora que não lembra mais dos filhos! Você precisa ficar mais com nós quatro.
— Você, Jéssica, Toninho e seu psiquiatra?
— Não, o Fonfon, nosso beagle. Ele anda triste com sua ausência, sabia?
— Eu sei. Esses cachorros ilusórios são muito sensíveis. Escuta, acho que…
— Por falar no Toninho… Ele já te contou?
— Não me diga: tá sofrendo de falta de complexo de Édipo?
— Não, bobo. Não sabe que carreira seguir. Você pode falar com ele?
— Veja, o conselho que posso dar é o que dou a toda criatura inexistente que me procura: ocupe o cargo de Deus. Pagam bem, o sujeito não tem obrigação com horário, vive eternamente e pode sair com várias mulheres ao mesmo tempo.
— Puxa, me lembro como se fosse hoje: ele aceitou o conselho e virou um grande diretor de TV. Já a Jéssica, acabou envolvida com drogas…
— Coitada. Música sertaneja?
— Heroína. Nunca se recuperou de nossa separação. Tem cinquenta anos e ainda não conseguiu se achar.
— Já se procurou no mundo inteligível de Platão? Ouvi dizer que eles têm uma seção de achados e perdidos que é um arraso.
— Tenho medo, Pedro. E quando a gente morrer, o que vai ser dela?
— Vou pesquisar o assunto n’O Livro dos Seres Imaginários de Borges. Mas agora, me desculpe: esse sereno e eu com meus, o quê, oitenta anos? Se a Jéssica tem 50… Enfim, é capaz de eu pegar uma pneumonia. Preciso ir, viu? Engraçado, não lembro onde estacionei meu andador…
— Pobrezinho. A idade não perdoa. Lá vai ele… Completamente esclerosado, perdeu inteiramente o juízo.

VENTO NO LITORAL — UMA LEITURA ACADÊMICA (3)

Mas a chave para solucionar o problema se encontra nos versos seguintes:

Já que você não está aqui
O que posso fazer
É cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos,
Lembra que o plano
Era ficarmos bem…

Já agora o eu-lírico afirma com todas as letras que a mulher não está ali. Quer dizer, está dentro dele, está no supermercado e não está em parte alguma. Trata-se, portanto, de três pessoas e, ao mesmo tempo, uma. Conclusão óbvia: a mulher com quem He-Man conversa é, na verdade, Deus. Sutil e erudito, Russo mescla a mitologia judaico-cristã, o feminismo de Simone de Beauvoir e a cultura pós-romântica para compor uma estrofe de densidade só igualada no Ocidente por trechos de O Processo ou pela revolucionária “Florentina, Florentina, Florentina de Jesus, não sei se tu me amas, pra que tu me seduz”, do trovador contemporâneo Tiririca.

Não há duvidar que, à exceção de alguns funcionários fantasmas, apenas Deus é uno e tríplice: o Todo-Poderoso propriamente dito, Jesus Cristo e o Espírito Santo, que é uma espécie de parente afastado e garoto de recados. Eis, assim, resolvida a charada: Deus, em sua santíssima brabeza, teve uma dor de cabeça mística, provavelmente por ter lido a relação de efeitos colaterais da bula do remédio para clarear a pele tomado por Jesus (ninguém desconhece que Jesus, sendo palestino, faz tratamento para embranquecer desde a Idade Média).

Prevendo que aquela onipresente e metafísica enxaqueca acabaria sobrando para Ele, Jesus caminhou sobre as águas rapidinho, retirou uma dracma da boca de um peixe e, chamando o Espírito Santo de lado, ordenou que fosse à farmácia comprar Neosaldina. Coisa que o Espírito Santo logo fez, ainda que resmungando: “Tudo eu! Quando é pra ser crucificado ou arrasar Sodoma e Gomorra nunca me chamam!”

Enfim, tudo se encaixa perfeitamente, com um lógica de deixar Descartes com os “ss” mudos de admiração. Mas eis que surge a última estrofe:

Eieieieiei!
Olha só o que eu achei
Humrun
Cavalos-marinhos…

Quanto a esse trecho, confesso escapar a minha rafada cultura. O significado oculto que o último verso encerra talvez só a um esotérico do porte de Pitágoras ou Plotino seja dado desvendar.

E gasto meus dias agora me perguntando: por que não “estrelas-do-mar” ou “marias-farinhas”? “Sargaços”, por que não “sargaços”? Ou “ouriços”? Qual o problema dos ouriços, pô? (FIM)

VENTO NO LITORAL — UMA LEITURA ACADÊMICA (2)

Continua a letra, sublime:

Agora está tão longe

ver a linha do horizonte me distrai

Dos nossos planos é que tenho mais saudade

Quando olhávamos juntos

Na mesma direção

Aonde está você agora

Alem de aqui dentro de mim…

Aqui é preciso usar de todo Saussure, Eco, Bakhtin e Paciência disponíveis para avançar na compreensão da obra. Primeiro, percebe-se que He-Man estava apaixonado por uma vesga. Antes, olhavam juntos na mesma direção. Agora que a mulher fez uma plástica corretiva, deixou o herói de lado, indo se juntar quem sabe ao Esqueleto ou ao Jaspion.

Depois, o eu-lírico se pergunta: “Aonde está você agora, além de aqui, dentro de mim?” Donde se deduzem duas coisas: o eu-lírico não sabe português, pois substituiu “onde” por “aonde”, e a vesga por quem ele está apaixonado tem a capacidade de se dividir em duas. Uma está ali, dentro dele. Já a outra, lembrou que tava sem coentro em casa e deu uma saidinha para ir ao supermercado.

Segue ruço, digo, Russo:

Agimos certo sem querer

Foi só o tempo que errou

Vai ser difícil sem você

Porque você esta comigo

O tempo todo

E quando vejo o mar

Existe algo que diz

Que a vida continua

E se entregar é uma bobagem…

“Vai ser difícil sem você, porque você está comigo o tempo todo.” Eis, em poucas e belas palavras, deslindada a grande crise que se abate sobre He-Man. E, ouso dizer, se abateria sobre qualquer homem ou super-homem, a não ser talvez o de Nietzsche. Porque namorar com alguém que você nunca sabe exatamente onde está deve ser complicado. O sujeito vai com a moça ao cinema e, no auge dos amassos, aparece o lanterninha. E o lanterninha é ela. Não há clima. (CONTINUA NA SEXTA)

VENTO NO LITORAL — UMA LEITURA ACADÊMICA (1)

O brasileiro é um povo que gosta muito de ler e que se envolve tanto com a leitura a ponto de ter reações psicossomáticas. Vejam o caso das bulas de remédio, principal modelo de leitura nacional. O sujeito não consegue tomar uma aspirina sem desenvolver todos os efeitos colaterais. Sendo já clássico o episódio do sujeito do interior do Ceará que, depois de tomar remédio para cólicas, desenvolveu câncer no útero.

Mas nem só de burlas, digo, bulas vive o sábio nacional. Também são fontes inseparáveis de sua alta cultura as teses acadêmicas e as letras de MPB.

Ora, não tendo sido à toa que me aprofundei no formalismo russo e desbravei o historicismo contemporâneo, colecionando, além disso, todos os CDs de Jorge Vercillo e escutando dezenas de vezes por dia o “Rebolation”, resolvi me dedicar à análise teórica daquela que, para mim e inúmeros outros scholars pátrios, se encontra entre as melhores produções de nosso códice literário: “Vento no Litoral”, da Legião Urbana.

Faço isso, primeiro, para mitigar a injustiça que é Renato Russo não figurar no Gênio de Harold Bloom. E, depois, por perceber que minha tese tem tudo para ser aceita entre os acadêmicos: falsa cultura, erros gramaticais e ausência de pensamento racional. Se não, vejemos:

De tarde quero descansar
Chegar até a praia e ver
Se o vento ainda esta forte
E vai ser bom subir nas pedras

Eis a primeira estrofe da soberba canção, que expõe claramente a influência do clichê baiano e dos desenhos animados dos anos 80 sofrida pelo intangível Russo. Repare que ele vai até a praia descansar, mas também para “ver” o vento. Em suma, supõe-se, com boa margem de acerto, que o eu-lírico do narrador seja o He-Man. E não apenas isso: He-Man usando o Olho de Thundera, que dá a visão além do alcance. Porque o vento, sabem todos, é como telespectador de novela: existe, mas ninguém vê. Segue a letra, magistral:

Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora…

Já aqui o poeta demonstra, sempre com perícia e sutileza, o escandaloso choque entre a mitologia grega e a cultura americana moderna. Tífon, deus do ar, e Poseidon, deus do mar, atacam He-Man e vão levando tudo embora. Uma crítica, sem dúvida, ao atual estado do pós-modernismo, ao abandono das raízes gregas. Daí, hábil bardo, Russo ter posto os deuses da Hélade, empobrecidos, fazendo um arrastão na praia e batendo a carteira de He-Man. Metáfora à altura do próprio Virgílio, ou de Dante, a crermos nos boatos que afirmam não terem eles passado de 1,40m. (CONTINUA NA QUARTA)

SÍNDROME

— Ela não pode tá apaixonada por esse sujeito. Só pode ser síndrome de Copenhagen, Antônio.
— Estocolmo.
— Pois é, e ainda mais com um nome desses: Estocolmo.
— O nome dele é Eustáquio, Maria. A síndrome é que é de Estocolmo.
— Estocolmo, Copenhagen é tudo cidade escandinava. O fato é que a Laurinha deve ter sofrido lavagem cerebral. Porque o indivíduo é chato, burro, meio corcunda e ainda usa olho de vidro, você reparou?
— Nesse caso, deve ser síndrome de Notre-Dame.
— Porque o olho remete a um vitral?
— Não, por conta do corcunda. Victor Hugo, você sabe.
— Victor Hugo era corcunda?… Era cego! Claro, agora eu entendo aqueles versos: “L’aveugle voit dans l’ombre un monde de clarté.”
— Que cego! Tô falando de Quasímodo, do corcunda. E não fala esse nome.
— Corcunda? Por quê? Já sei, no meio dessa garotada politicamente correta, devia dizer “posteriormente abaulado”.
— Não, não fala em Victor Hugo. Vai que um desses poetas pós-modernos nos ouve. A gente acaba linchado. Olha ao redor da mesa: só tem gênio e gente criativa.
— Mais termos politicamente corretos pra idiota e analfabeto. Ela só pode tá sofrendo de síndrome de Munique, Antônio.
— Estocolmo. Síndrome de Munique só se ela fosse judia e praticasse algum esporte.
— Isso, continua com piadas politicamente incorretas assim e a gente vai ser expulso do sarau. Taí, deve ser síndrome de Saramago.
— Saramago? Não conheço. Fica na Noruega?
— Saramago, o escritor. Ela deve tá cega.
— De amor, o que é pior. O amor é cego, Ray Charles é cego, Stevie Wonder é cego, o Albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem e Caetano Veloso cai do palco de vez em quando. Então a síndrome é de Cupido.
— Se for pra usar de mitologia, o caso dela tá mais pra Édipo.
— Peraí que eu perdi o controle da metáfora. A gente tá falando de Freud? Porque, se for, quero dizer que meu problema nas costas é escoliose, não corcunda.
— Psss. Silêncio, não fala em Freud. Aqui só tem reichiano, não percebeu?
— Não, juro que não notei que as meninas tão todas sem calcinha, não fazem os cantinhos e duas têm pelos ruivos.
— Tava falando da falta de senso de ridículo, Antônio!
— Ahn… É termo politicamente correto pra “hímen”?
— Vamo embora? Vai começar a performance do Quasímodo.
— Eustáquio! Espera, vamo ver o que ele vai… Ih, tá declamando “Infinita Highway”, dos Engenheiros do Hawaii, Maria! Vambora!
— Eu avisei! Eu disse! Nossa filha tá namorando uma besta!
— Putz, quem diria? A Laurinha… Com síndrome de Balaão.

MOMENTO ARRÁ

Pera. Não fala nada.

Você tá sentindo alguma coisa?

Tô. Tô sentindo que você não ouviu o que eu pedi!

Que é que cê quer que eu faça? Tô te vendo aí de testa enrugada, olhos arregalados, lábios trêmulos, só posso achar que tá tendo um troço. Ou isso, ou pretende imitar o Caetano cantando “Cucurrucucu Paloma”.

Taí, ótimo. Satisfeita? Você acabou de estragar meu momento “arrá”.

Momento “arrá”?

É o novo nome que tão dando a insight. Não leu a Superinteressante da semana passada?

Não. O dinheiro que eu tinha reservado pra coisas inúteis acabei gastando com um CD do Zezé de Camargo e Leonardo.

Luciano.

Leonardo, Luciano, Lucrécio, Lucano, tudo é nome de autor clássico.

Leonardo não é autor clássico.

Como não? Você nunca ouviu a interpretação dele pra “Sinhá Moça”?

Incrível! Quando o negócio tinha o nome de insight nunca consegui ter um. Resquício do antiamericanismo da adolescência. Mas agora tava quase lá. Ouvi até o arr… arr…

Tem certeza que não era um pombo? De vez em quando acordo de noite e eles tão lá: arrr, arrr…

Por uma vogal! Uma vogal e eu teria tido uma epifania, descobriria as verdades sublimes do universo, o caminho a seguirr, o sentido da vida ou, no mínimo, das letras do Djavan.

Se uma vogal propiciasse tudo isso, cantor de axé music atingia o nirvana. Já sei. Quem sabe você não vai aos poucos? Começa com um momento “eita”, passa prum momento “uh-rrru”, talvez um “caraca, véi”, e assim vai, até, por fim, alcançar o momento…

Porra!

Bom, o momento “porra” é fácil de conseguir. É só a gente tirar a roupa, ir pra cama e…

Era uma interjeição. “Porra” era um interjeição.

Veja você. E eu a vida toda achando que era um líquido cheio de espermatozoide!

Quer parar? Acho que tá voltando. Silêncio. É! É ele! O momento… Tá vindo!

Assim de última hora, sem dar um telefonema, marcar hora, trazer um vinho?

Silêncio! Tô sentindo. Tudo se encaixa em minha mente, o cérebro tá em plena atividade, pronto a conceber o inefável… Mais um pouco… só mais um pouco… e…. Putz!

Só pra eu entender direito: hierarquicamente falando, o momento “putz” está acima ou abaixo do momento “arrá”?

Você não vai acreditar nisso! Aconteceu. Todas as energias de minha psique atuaram em conjunto com uma força inigualável, memórias reprimidas foram finalmente liberadas de meu subconsciente com uma clareza assustadora e, quando tudo terminou, quase como por milagre, havia descortinado meu verdadeiro eu.

E daí?

Daí que, putz, meu verdadeiro eu é a cara da Regina Duarte.

Não fica assim, Regina, digo, Andrade. Quem pode confiar num momento “arrá”? Se ao menos fosse um momento U2.

Tô me sentindo péssimo. Tô com medo… Com medo! Ih, já tô falando feito a Regina Duarte!

Calma. Olha, lembra de quando falei do momento “porra”? Pois então, a proposta ainda tá de pé. Vem cá, vem, meu ti… Não! Calma. Espera. Agora sou eu que tô tendo um insight. Ou melhor, um momento. Um momento “ai”. Ahn… É, definitivamente. Tô tendo um momento “ai”.

“Ai”? Momento “ai”? E o que ele revela?

Que não vai rolar o momento “porra”. Ai. Maldita dor de cabeça!

HIENAS

Conheço bem vocês. Vocês, seres de pouca fé na natureza humana e maledicentes como mil Swifts, achavam que eu não voltaria. Não me são desconhecidos os rumores de que fora recolhido pela Arca que o prefeito mandou construir por aqui para acolher casais de animais antes do novo dilúvio que acometeu esta bela Guanabara. Foi dito até que entrara como par de um girino. Afirmação de uma pusilanimidade ímpar, posto estar, na realidade, destinado a macho de uma bela jumenta nativa de Búzios.

Mas eis que o projeto da Nova Aliança se esfez e me encontro não apenas em terra firme como disposto a lhes dizer que minha ausência não se deve à queda de meu barraco, nem ao fato de não saber nadar, muito menos a não possuir canoa ou jangada, meios de transporte imprescindíveis a quem pretende se deslocar aqui em Atlântida. (Apenas como registro: Platão acertou em quase tudo ao relatar o sonho que teve com nossa cidade, errando apenas ao não prever a chegada de um profeta barbudo de nove dedos que garantiria ao povo o mais importante num momento de calamidade: haverá Copa e Olimpíadas.)

Estive afastado por um motivo nobre com perdão do termo que, não duvido, logo será substituído pelo mais politicamente correto “motivo participante do Segundo Estado e explorador do povo oprimido”: me envolvi numa pesquisa biológica. E não me refiro à adesão como sócio beneficiário da Sociedade Protetora dos Crustáceos, evento que deixo para comentar outro dia.

Não. Gastei os últimos meses à cata de espécies animais supostamente inexistentes em nossa fauna e declaro, com orgulho, ter feito uma descoberta revolucionária. Ora, todos sabem que o Rio conta com micos-leões em suas árvores, fragatas em seu céu e quadrúpedes atrás dos volantes de seus carros. Mas estou certo de que poucos tinham noção da existência de hienas na cidade. Pois não se enganem: azar, digo, as há. Por bem da ciência e amor à rima, revelo seu habitat.

Fui ao hospital com minha mulher hoje, já que a pobre, talvez por influência de meu suave ressonar noturno, desenvolveu uma otite. A dor da otite, dizem, pode ser equiparada à do parto. A diferença, suponho, é o orifício da orelha ser um tanto menor que o originalmente designado ao nascimento de crianças. A não ser, claro, que você seja Zeus e esteja dando à luz Atena.

Enfim, fato é que minha querida lançava uns olhares de dor tão profundos como não via desde quando assinou os papéis de nosso casamento. De modo que, entre levá-la ao hospital e oferecer o divórcio, escolhi a primeira alternativa  questão de querer bem. No caso, os bens que ela tinha em seu nome e passaram ao meu no ato do casório.

Lá chegando, de cara fomos recebidos por uma turba de atendentes às gargalhadas. Atribuí os risos a uma nova técnica de atendimento a moribundos disseminada nos nosocômios modernos e, ao que parece, inspirada pelo emérito dr. Sade, ilustre anatomista. Suspeita confirmada minutos depois quando, passada a triagem, nos dirigimos à antessala do otorrino e, mais uma vez, fomos recebidos por uma criatura que se esbaldava de rir, provavelmente conversando com um convalescente de otite no outro lado da linha telefônica. Por fim, ao entrar no consultório, fomos recebidos por um médico cujo riso incontido crescia à medida que enfiava afáveis pinças de metal nos ouvidinhos de meu amor e a via lacrimejar, certamente por ter entendido uma piada mais sutil que escapou a meu espírito carrancudo.

“Eis aí uma prática lúdica e humanitária da medicina”, pensei, coisa que me ocorre esporadicamente. “Não se via tamanha preocupação com a preservação do ser humano desde a França de Robespierre.”

Voltei do hospital entusiasmado. No entanto, falei há pouco com um amigo médico que me garantiu não haver na literatura do ramo nada que oriente tal comportamento. Bom, meu amigo é excessivamente sisudo e ortodoxo, dado a conceitos ultrapassados como o de tratar os pacientes com o devido respeito. Mas não se lhe pode negar competência nem o papel de grande estudioso do ofício. Sendo assim, fiquei com a conclusão óbvia: o Rio de Janeiro está impregnado de hienas. Tese que pretendo sustentar em próxima conferência de biologia a que, de antemão e apesar de não merecerem, convido todos vocês.

ENQUANTO NÃO VOLTO…

Continuo aqui: http://twitter.com/marconil.

Será preciso repetir?

Eh, gente desatenta!

Sim, mas eu volto. E volto com excelentes elogios sobre esta aprazível cidade do Rio de Janeiro.

SERRA DOS ÓRGÃOS (2)

A gente vai pagar pra entrar aí? perguntei. Se é pra gastar dinheiro pra sofrer, vamo a uma peça do Gerald Thomas. É ruim do mesmo jeito, mas a gente pelo menos vê umas bundas.

Ao que minha mulher, sempre simpática, retrucou:

Se tu quer ver partes pudendas sem o auxílio de um espelho, a gente tá no caminho certo. Mais umas duas ou três subidas assim e tua barriga diminui.

Ru, ru, ru, morri de rir. Pois fique sabendo que em algumas sociedades desenvolvidas a barriga protuberante é sinal de abundância e fertilidade.

Como onde? Na Lapônia, por exemplo?

Não ia dialogar com gente sem cultura. Afinal, era feriado, e isso é o que eu faço todo dia no trabalho, escrevendo para a TV. De forma que resolvi seguir a trilha de boca fechada, o que se mostrou impraticável por uma razão óbvia, que só um ser onipresente, onipotente e onisciente não consegue ver: duas narinas não são suficientes para absorver oxigênio.

Constatação que, por outro lado, veio acompanhada de uma descoberta empírica no campo das ciências naturais: mais alguns passos e percebi por experiência própria como surgiu a comunicação entre as baleias. A determinada altura, minha respiração soava como um disco de new age.

Você quer voltar? perguntou minha mulher, preocupada, ao perceber que os animais silvestres paravam para me ver e aplaudir.

Ao útero materno respondi.

Sério. Tá tudo bem contigo?

Tâmaras azuis com cabelo de Alcione assegurei.

Falta pouco. A gente já tá perto da cachoeira.

Que bom. Porque é lá que eu vou te afogar.

De fato, não demorou até chegarmos à cachoeira: gastamos trinta minutos e cerca de dois terços das canelas. Mas o esforço valeu a pena, pois nada se compara a esse fenômeno natural. Exceto talvez um chuveiro cujo jato de água a gente não controla, podendo nos derrubar como um coice de elefante, e uma piscina, só que forrada com pedras angulosas e limo escorregadio, propício ao estabacamento.

Foi ali que senti pela primeira vez a integração com a natureza. Após um cachação de água que me fez perder o equilíbrio, a ponta de uma rocha se integrou totalmente ao meu calcanhar, na mais linda interação homem/meio ambiente, uma espécie de empalação para podólatras.

Se doeu? Digamos que já assisti a sessões de exorcismo mais silenciosas. Entre o primeiro urro e a entrada no hospital, lembro vagamente de ter me convertido a seis ou sete religiões.

Tive de engessar o pé e passar a andar de muleta. Mas posso afirmar que, hoje, depois dessa experiência, estou completamente mudado, sou praticamente um ser da mata, um ente da selva, uma criatura telúrica. Para começo de conversa, me locomovo como o Saci.

(Boas festas. Aguardem, juro que uma das minhas promessas para 2010 é voltar a escrever por aqui diariamente, como antes. É verdade. Isso e parar de mentir.)

SERRA DOS ÓRGÃOS (1)

A única coisa que justificaria o alpinismo, em minha opinião, seria se, ao chegar ao topo do Everest, por exemplo, o sujeito fosse recompensado com uma fonte de single malt ou, no mínimo, de Itaipava Gold. Sem isso, o esporte para mim tem a mesma utilidade da faixa de pedestres no Brasil: nenhuma.

Até esse final de semana, portanto, minha experiência na atividade envolvia apenas uma tentativa de leitura de A Montanha Mágica. E, ainda assim, meu fôlego precário não me permitiu avançar além da página 30.

Porém, entre os vários erros patentes cometidos por Deus na criação do universo, caso dos buracos negros e da Baby do Brasil, encontram-se os hormônios femininos e a semana que precede a menstruação. As guerras, sabem todos, surgiram em função desse período, quando, em vez de ficar em casa levando esporros merecidos por respirar ou piscar os olhos, os homens resolveram se entregar a empresa mais amena.

Assim, quando minha mulher sugeriu que viajássemos a Petrópolis e percorrêssemos uma trilha na Serra dos Órgãos, concordei imediatamente, depois de confirmar com a embaixada não haver mais vaga entre nossas tropas no Haiti. E de tentar, galante:

— Posso te levar ao ápice de outra forma…

— Prefiro caminhar. Cansei de chegar ao ápice de burro — respondeu ela, grácil.

Seguimos, enfim, para o aprazível passeio: eu, ela e Asmático, o carro popular 1.0 que a gente comprou em breves 60 prestações. Bom carro e total flex, Asmático funciona com gasolina, álcool e, nas subidas, duas ou três bombadas de Aerolin. O único problema dele é que, tendo sido projetado na era pré-newtoniana, não conta com aceleração.

Estacionamos o carro no sopé do morro — tendo antes o cuidado de consultar o verbete no Aurélio, para ver se estávamos no lugar certo — e nos preparamos para a subida. Esperto, calcei havaianas e acendi um cigarro.

Para minha surpresa, a escalada não foi difícil. Os únicos contratempos que enfrentei foram alguns escorregões em pedras soltas (instrutivos, pois descobri a utilidade do queixo) e o roçar da língua nos joelhos, que atravancou um pouco meus passos.

Após meia hora de esforço, no entanto, chegamos bravamente a uma casinhola onde esperava ser recebido com uma coroa de louros e algumas caixas de Band-aid e mercurocromo.

— Que pena que a gente não trouxe uma bandeira do Sport pra fincar aqui no topo — falei, orgulhoso.

Minha mulher riu. Estávamos apenas na entrada do parque. O nome Serra dos Órgãos — descobriria trinta metros acima, ao perder um dos pulmões — era, afinal, bastante descritivo. (CONTINUA)

DE COMO ME VENDI AO SISTEMA

Sabem todos que minha ausência aqui se deve à mudança para o Rio de Janeiro, lugar de paisagem deslumbrante, que ainda possui, em meio à área urbana, inúmeros resquícios de vida selvagem. Caso, por exemplo, do trânsito e da fila de supermercado.

O que talvez não seja do conhecimento de vocês é haver outro motivo para tamanho atraso: me aconteceu uma tragédia inesperada e, ao contrário de grande parte de meus novos concidadãos, arrumei trabalho.

Em poucas palavras, me vendi ao Sistema em doze parcelas, virei roteirista de humor em uma emissora de TV.

Aconteceu de estar em casa outro dia, sem fazer nada, meditando sobre uma bobagem qualquer, como a dedução transcendental das categorias em Kant, quando o telefone tocou:

— Aqui quem fala é o Sistema.

— Olha, se é o Métrico Decimal, o senhor ligou errado — respondi. — Até hoje não sei transformar quilômetro em milímetro!

— Métrico Decimal é o… Eu sou o Sistema, rapá.

— E tá me ligando pra dizer que caiu?

Depois de desfiar uma série de palavrões, alguns dois quais me demonstraram a necessidade de reciclar meus conhecimentos em anatomia, ele me convenceu. Afinal, o Sistema, ninguém ignora, é uma criatura metafísica feia, suja e perversa, que nada tem a ver com o homem. Faz bico de diabo na Igreja Marxista das Boinas dos Últimos Dias, e de Deus, na Igreja Capitalista da Cédula Retangular.

— Que é que você quer? — perguntei. — Não me diga que precisa de dicas sobre mercado futuro.

— Tá a fim de negociar a alma? — cuspiu a alegoria.

— Não sei. O senhor daria quanto pela da minha sogra?

— Bom ver que você continua fazendo piadas do tipo. É justamente o que eu quero. Isso e uma massagem nas costas. Essa vida de Sistema me estressa. E aí, vai ou não vai? É pra trabalhar na televisão.

— Depende — hesitei. — Que outra concessão preciso fazer, além de desaprender português e conseguir arrancar gargalhadas de protozoários?

— Todas — falou ele.

E eu, superior:

— Se é assim, topo, claro.

Eis tudo. Após a intensa negociação, desliguei o telefone. Exausto, olhei para meu reflexo no espelho, que, parodiando Chico Buarque, cantava e se requebrava para mim, com sarcasmo:

— “Quem te viu, quem TV…”

Não deixei barato. Corri até o escritório, abri a gaveta da escrivaninha violentamente, enfiei a mão trêmula de raiva lá dentro, saquei um lápis de ponta bem afiada e, com um gesto irado, anotei o trocadilho.

Foi deles que passei a viver.

DO BOM HUMOR DO CARIOCA

Faço uma pausa nos tweets e volto a este empoeirado blog (esperem com fé: em breve haverá faxina) para lhes dar uma noção prática do humor do povo deste Rio de Janeiro. Leiam isto, sobretudo os comentários, e tenham a prova definitiva de que o carioca é o povo mais bem-humorado e inteligente do Brasil. Sobretudo quando está sendo elogiado.

VOLTAREI

Não se iludam. Sou brasileiro e, cacófato, como o Sarney: não desisto nunca. Para os apressados: Twitter.

DA INSENSIBILIDADE E OCIOSIDADE DO LEITOR

Sim, ouço. Estou ouvindo. São bárbaros gritando, atirando pedras, blasfemando contra o Filho do homem, coçando o saco em público, passando a mão na bunda dos guardas e impedindo a vizinhança de dormir.

Criaturas sem a mínima sensibilidade, estou certo de que vocês jamais praticaram aquela que é a atividade moral mais profunda a que o homem deve se entregar pelo menos uma vez na vida, segundo muçulmanos de todos os matizes e cristãos de todas as porcentagens de dízimo: a mudança.

Não falo de mudança de comportamento, que essa é das mais fáceis, e está aí Lula que não me deixa mentir. Tampouco me refiro à mudança espiritual, pois, quando descobriu há algum tempo que decidira viver de escrever, meu espírito não só me abandonou como entrou na Justiça pedindo pensão alimentícia (que me recuso a pagar, pois nunca fui de alimentar o espírito, daí estar preso em minha ignorância há anos por decreto judicial).

Não. Falo da mudança propriamente dita, de casa e de cidade. É tarefa para uma vida inteira, simpatizantes. E um dos motivos que me levam a crer na vida eterna é precisamente estar convencido de que, ao morrer, chegando ao inferno, não será outra minha condenação, senão a de arrumar e dessarrumar caixotes de mudança, como uma Danaide moderna e um tanto ou quanto mais gorda.

Portanto, respeitem um homem e seu destino e parem de aporrinhar. Virá um texto esta semana, virá que eu vi, em português escorreito e cheio de concordâncias como Peri. Aguardem em silêncio. E, por Cristo, com Cristo, em Cristo: parem de fazer xixi nos muros.

Ah, aproveitem que não estão fazendo nada mesmo e passem aqui, ó, só para lembrar o que era Jornalismo, esta atividade desaparecida do país há décadas.

MARCONI FINALMENTE C0M BULA

Eis aí o que vocês, criaturas sem a mínima confiança na autossuperação e inteiramente desprovidas de tino para antecipar o gênio, não contavam. Pois ouçam: ho, ho, ho! Quê? Não, não estou imitando o Papai Noel. Escutem direito: ho, ho, ho, ho! Ahn? Nã-ão/ não estou tendo um acesso de tosse. Reparem: ho, ho, ho! Ho, ho! Ho! E aí? Uhm? Cantando rap nada! Continuo gostando de música!

Eh, como é frustrante usar efeitos dramáticos com gente que não possui cultura. Fiquem sabendo que esse é meu riso mau de vingança. É, vingança de vocês, leitores infiéis, que nunca esperavam que eu um dia conhecesse a Glória. Pois arranquem a dentadas o dedinho do pé esquerdo de pura inveja, pérfidos, eu a  acabo de conhecer, através de uma entrevista concedida à revista Bula.

E fiquem sabendo que a Glória é uma moça muito direita e agradável. É bem verdade que aqueles louros na cabeça dela são um tanto esquisitos e que meu grego arcaico não dá para mantermos uma conversa muito longa sem que eu corra o risco de Homero voltar do Hades especificamente para atirar uma trípode na minha cabeça, mas enfim, é só o começo. Confiram por vocês mesmos: http://www.revistabula.com/materia/questionario-proust-marconi-leal/1374.

E aguardem. Ainda chego à capa da Time. Ho, ho, ho, ho, ho, ho! Como? Latido? Latido é a p…!

P.S.: Meu superego já me avisou que estou em falta com vocês, para que a histeria? Vem texto novo por aí,  em que contarei as alegrias da nova vida no Rio. Suportem o delirium tremens mais um pouco, sim? Bom, mas agora não posso escrever mais, há uns gentis cavalheiros querendo me assaltar e eu já os estou atrasando. Sem falar que o dia hoje vai ser corrido: tenho um arrastão e duas blitz falsas a atender. Por ora, fiquem com a entrevista. Tchau para vocês e também para meu relógio e minha carteira.