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SERRA DOS ÓRGÃOS (2)

A gente vai pagar pra entrar aí? perguntei. Se é pra gastar dinheiro pra sofrer, vamo a uma peça do Gerald Thomas. É ruim do mesmo jeito, mas a gente pelo menos vê umas bundas.

Ao que minha mulher, sempre simpática, retrucou:

Se tu quer ver partes pudendas sem o auxílio de um espelho, a gente tá no caminho certo. Mais umas duas ou três subidas assim e tua barriga diminui.

Ru, ru, ru, morri de rir. Pois fique sabendo que em algumas sociedades desenvolvidas a barriga protuberante é sinal de abundância e fertilidade.

Como onde? Na Lapônia, por exemplo?

Não ia dialogar com gente sem cultura. Afinal, era feriado, e isso é o que eu faço todo dia no trabalho, escrevendo para a TV. De forma que resolvi seguir a trilha de boca fechada, o que se mostrou impraticável por uma razão óbvia, que só um ser onipresente, onipotente e onisciente não consegue ver: duas narinas não são suficientes para absorver oxigênio.

Constatação que, por outro lado, veio acompanhada de uma descoberta empírica no campo das ciências naturais: mais alguns passos e percebi por experiência própria como surgiu a comunicação entre as baleias. A determinada altura, minha respiração soava como um disco de new age.

Você quer voltar? perguntou minha mulher, preocupada, ao perceber que os animais silvestres paravam para me ver e aplaudir.

Ao útero materno respondi.

Sério. Tá tudo bem contigo?

Tâmaras azuis com cabelo de Alcione assegurei.

Falta pouco. A gente já tá perto da cachoeira.

Que bom. Porque é lá que eu vou te afogar.

De fato, não demorou até chegarmos à cachoeira: gastamos trinta minutos e cerca de dois terços das canelas. Mas o esforço valeu a pena, pois nada se compara a esse fenômeno natural. Exceto talvez um chuveiro cujo jato de água a gente não controla, podendo nos derrubar como um coice de elefante, e uma piscina, só que forrada com pedras angulosas e limo escorregadio, propício ao estabacamento.

Foi ali que senti pela primeira vez a integração com a natureza. Após um cachação de água que me fez perder o equilíbrio, a ponta de uma rocha se integrou totalmente ao meu calcanhar, na mais linda interação homem/meio ambiente, uma espécie de empalação para podólatras.

Se doeu? Digamos que já assisti a sessões de exorcismo mais silenciosas. Entre o primeiro urro e a entrada no hospital, lembro vagamente de ter me convertido a seis ou sete religiões.

Tive de engessar o pé e passar a andar de muleta. Mas posso afirmar que, hoje, depois dessa experiência, estou completamente mudado, sou praticamente um ser da mata, um ente da selva, uma criatura telúrica. Para começo de conversa, me locomovo como o Saci.

(Boas festas. Aguardem, juro que uma das minhas promessas para 2010 é voltar a escrever por aqui diariamente, como antes. É verdade. Isso e parar de mentir.)

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SERRA DOS ÓRGÃOS (1)

A única coisa que justificaria o alpinismo, em minha opinião, seria se, ao chegar ao topo do Everest, por exemplo, o sujeito fosse recompensado com uma fonte de single malt ou, no mínimo, de Itaipava Gold. Sem isso, o esporte para mim tem a mesma utilidade da faixa de pedestres no Brasil: nenhuma.

Até esse final de semana, portanto, minha experiência na atividade envolvia apenas uma tentativa de leitura de A Montanha Mágica. E, ainda assim, meu fôlego precário não me permitiu avançar além da página 30.

Porém, entre os vários erros patentes cometidos por Deus na criação do universo, caso dos buracos negros e da Baby do Brasil, encontram-se os hormônios femininos e a semana que precede a menstruação. As guerras, sabem todos, surgiram em função desse período, quando, em vez de ficar em casa levando esporros merecidos por respirar ou piscar os olhos, os homens resolveram se entregar a empresa mais amena.

Assim, quando minha mulher sugeriu que viajássemos a Petrópolis e percorrêssemos uma trilha na Serra dos Órgãos, concordei imediatamente, depois de confirmar com a embaixada não haver mais vaga entre nossas tropas no Haiti. E de tentar, galante:

— Posso te levar ao ápice de outra forma…

— Prefiro caminhar. Cansei de chegar ao ápice de burro — respondeu ela, grácil.

Seguimos, enfim, para o aprazível passeio: eu, ela e Asmático, o carro popular 1.0 que a gente comprou em breves 60 prestações. Bom carro e total flex, Asmático funciona com gasolina, álcool e, nas subidas, duas ou três bombadas de Aerolin. O único problema dele é que, tendo sido projetado na era pré-newtoniana, não conta com aceleração.

Estacionamos o carro no sopé do morro — tendo antes o cuidado de consultar o verbete no Aurélio, para ver se estávamos no lugar certo — e nos preparamos para a subida. Esperto, calcei havaianas e acendi um cigarro.

Para minha surpresa, a escalada não foi difícil. Os únicos contratempos que enfrentei foram alguns escorregões em pedras soltas (instrutivos, pois descobri a utilidade do queixo) e o roçar da língua nos joelhos, que atravancou um pouco meus passos.

Após meia hora de esforço, no entanto, chegamos bravamente a uma casinhola onde esperava ser recebido com uma coroa de louros e algumas caixas de Band-aid e mercurocromo.

— Que pena que a gente não trouxe uma bandeira do Sport pra fincar aqui no topo — falei, orgulhoso.

Minha mulher riu. Estávamos apenas na entrada do parque. O nome Serra dos Órgãos — descobriria trinta metros acima, ao perder um dos pulmões — era, afinal, bastante descritivo. (CONTINUA)

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DE COMO ME VENDI AO SISTEMA

Sabem todos que minha ausência aqui se deve à mudança para o Rio de Janeiro, lugar de paisagem deslumbrante, que ainda possui, em meio à área urbana, inúmeros resquícios de vida selvagem. Caso, por exemplo, do trânsito e da fila de supermercado.

O que talvez não seja do conhecimento de vocês é haver outro motivo para tamanho atraso: me aconteceu uma tragédia inesperada e, ao contrário de grande parte de meus novos concidadãos, arrumei trabalho.

Em poucas palavras, me vendi ao Sistema em doze parcelas, virei roteirista de humor em uma emissora de TV.

Aconteceu de estar em casa outro dia, sem fazer nada, meditando sobre uma bobagem qualquer, como a dedução transcendental das categorias em Kant, quando o telefone tocou:

— Aqui quem fala é o Sistema.

— Olha, se é o Métrico Decimal, o senhor ligou errado — respondi. — Até hoje não sei transformar quilômetro em milímetro!

— Métrico Decimal é o… Eu sou o Sistema, rapá.

— E tá me ligando pra dizer que caiu?

Depois de desfiar uma série de palavrões, alguns dois quais me demonstraram a necessidade de reciclar meus conhecimentos em anatomia, ele me convenceu. Afinal, o Sistema, ninguém ignora, é uma criatura metafísica feia, suja e perversa, que nada tem a ver com o homem. Faz bico de diabo na Igreja Marxista das Boinas dos Últimos Dias, e de Deus, na Igreja Capitalista da Cédula Retangular.

— Que é que você quer? — perguntei. — Não me diga que precisa de dicas sobre mercado futuro.

— Tá a fim de negociar a alma? — cuspiu a alegoria.

— Não sei. O senhor daria quanto pela da minha sogra?

— Bom ver que você continua fazendo piadas do tipo. É justamente o que eu quero. Isso e uma massagem nas costas. Essa vida de Sistema me estressa. E aí, vai ou não vai? É pra trabalhar na televisão.

— Depende — hesitei. — Que outra concessão preciso fazer, além de desaprender português e conseguir arrancar gargalhadas de protozoários?

— Todas — falou ele.

E eu, superior:

— Se é assim, topo, claro.

Eis tudo. Após a intensa negociação, desliguei o telefone. Exausto, olhei para meu reflexo no espelho, que, parodiando Chico Buarque, cantava e se requebrava para mim, com sarcasmo:

— “Quem te viu, quem TV…”

Não deixei barato. Corri até o escritório, abri a gaveta da escrivaninha violentamente, enfiei a mão trêmula de raiva lá dentro, saquei um lápis de ponta bem afiada e, com um gesto irado, anotei o trocadilho.

Foi deles que passei a viver.

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DO BOM HUMOR DO CARIOCA

Faço uma pausa nos tweets e volto a este empoeirado blog (esperem com fé: em breve haverá faxina) para lhes dar uma noção prática do humor do povo deste Rio de Janeiro. Leiam isto, sobretudo os comentários, e tenham a prova definitiva de que o carioca é o povo mais bem-humorado e inteligente do Brasil. Sobretudo quando está sendo elogiado.

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VOLTAREI

Não se iludam. Sou brasileiro e, cacófato, como o Sarney: não desisto nunca. Para os apressados: Twitter.

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DA INSENSIBILIDADE E OCIOSIDADE DO LEITOR

Sim, ouço. Estou ouvindo. São bárbaros gritando, atirando pedras, blasfemando contra o Filho do homem, coçando o saco em público, passando a mão na bunda dos guardas e impedindo a vizinhança de dormir.

Criaturas sem a mínima sensibilidade, estou certo de que vocês jamais praticaram aquela que é a atividade moral mais profunda a que o homem deve se entregar pelo menos uma vez na vida, segundo muçulmanos de todos os matizes e cristãos de todas as porcentagens de dízimo: a mudança.

Não falo de mudança de comportamento, que essa é das mais fáceis, e está aí Lula que não me deixa mentir. Tampouco me refiro à mudança espiritual, pois, quando descobriu há algum tempo que decidira viver de escrever, meu espírito não só me abandonou como entrou na Justiça pedindo pensão alimentícia (que me recuso a pagar, pois nunca fui de alimentar o espírito, daí estar preso em minha ignorância há anos por decreto judicial).

Não. Falo da mudança propriamente dita, de casa e de cidade. É tarefa para uma vida inteira, simpatizantes. E um dos motivos que me levam a crer na vida eterna é precisamente estar convencido de que, ao morrer, chegando ao inferno, não será outra minha condenação, senão a de arrumar e dessarrumar caixotes de mudança, como uma Danaide moderna e um tanto ou quanto mais gorda.

Portanto, respeitem um homem e seu destino e parem de aporrinhar. Virá um texto esta semana, virá que eu vi, em português escorreito e cheio de concordâncias como Peri. Aguardem em silêncio. E, por Cristo, com Cristo, em Cristo: parem de fazer xixi nos muros.

Ah, aproveitem que não estão fazendo nada mesmo e passem aqui, ó, só para lembrar o que era Jornalismo, esta atividade desaparecida do país há décadas.

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MARCONI FINALMENTE C0M BULA

Eis aí o que vocês, criaturas sem a mínima confiança na autossuperação e inteiramente desprovidas de tino para antecipar o gênio, não contavam. Pois ouçam: ho, ho, ho! Quê? Não, não estou imitando o Papai Noel. Escutem direito: ho, ho, ho, ho! Ahn? Nã-ão/ não estou tendo um acesso de tosse. Reparem: ho, ho, ho! Ho, ho! Ho! E aí? Uhm? Cantando rap nada! Continuo gostando de música!

Eh, como é frustrante usar efeitos dramáticos com gente que não possui cultura. Fiquem sabendo que esse é meu riso mau de vingança. É, vingança de vocês, leitores infiéis, que nunca esperavam que eu um dia conhecesse a Glória. Pois arranquem a dentadas o dedinho do pé esquerdo de pura inveja, pérfidos, eu a  acabo de conhecer, através de uma entrevista concedida à revista Bula.

E fiquem sabendo que a Glória é uma moça muito direita e agradável. É bem verdade que aqueles louros na cabeça dela são um tanto esquisitos e que meu grego arcaico não dá para mantermos uma conversa muito longa sem que eu corra o risco de Homero voltar do Hades especificamente para atirar uma trípode na minha cabeça, mas enfim, é só o começo. Confiram por vocês mesmos: http://www.revistabula.com/materia/questionario-proust-marconi-leal/1374.

E aguardem. Ainda chego à capa da Time. Ho, ho, ho, ho, ho, ho! Como? Latido? Latido é a p…!

P.S.: Meu superego já me avisou que estou em falta com vocês, para que a histeria? Vem texto novo por aí,  em que contarei as alegrias da nova vida no Rio. Suportem o delirium tremens mais um pouco, sim? Bom, mas agora não posso escrever mais, há uns gentis cavalheiros querendo me assaltar e eu já os estou atrasando. Sem falar que o dia hoje vai ser corrido: tenho um arrastão e duas blitz falsas a atender. Por ora, fiquem com a entrevista. Tchau para vocês e também para meu relógio e minha carteira.

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CONFESSIONÁRIO

— Padre, eu gosto de… ummhnn…

— Ahn?

— Gosto de… hmnnn…

— De quê, meu filho?

— Eu gosto de cheirar a virilha, padre.

— Como é que é?

— A virilha? Uma parte do corpo que…

— Não, o que você disse?

— Gosto de cheirar a virilha. Passo o dedo assim, fico passando por um tempo e depois cheiro. Mas só a direita. Isso dá inferno, padre?

— Inferno, não sei, mas manicômio é provável. Por que exatamente você cheira o… a virilha direita, meu filho?

— Porque o cheiro é melhor que o da esquerda.

— Sim, mas o que leva você a cheirar a virilha, seja ela direita, esquerda, social-democrata ou o raio que o parta?

— Não sei, padre. Simplesmente cheiro. É um vício como qualquer outro: roer unha, fumar cigarro, comer sebo do sovaco…

— Não me diga que você come sebo dos sovacos.

— Dos sovacos, não. Do sovaco. O direito.

— Você está me dizendo que, além de cheirar a virilha, costuma também comer o sebo do seu sovaco?

— Não disse que comia sebo do meu sovaco. Jamais faria isso. Como o sebo do sovaco dos outros, que é mais gostoso.

— Come o se…? Miserere mei, Deus!

— Como. O senhor não?

— Pater dimitte illis non enim sciunt quid faciunt! Mais algum… vício de que deva saber?

— Fora a virilha, mais nada. Quer dizer, bom, tinha a questão do sexo com a minha avó, mas ela agora já morreu. Durante um orgasmo, por sinal… Mas a culpa não foi minha, ela tava com meu irmão na hora.

— Você e seu irmão costumavam fazer sexo com a própria avó?

— Eu, meu irmão e Zigofredo.

— Quem é Zigofredo?

— Um porquinho que ela criava. O senhor precisava ver que mimo. Gordo, robusto… Fazia ionc, ionc quando a gente enfiava…

— Para! Para! (Levantando-se e levando o outro para fora da sala pelo braço.) Olhe, meu filho, eu vou reunir o concílio, falar com o bispo, quem sabe ligar para o papa. Você me volte aqui em duas semanas e eu lhe digo sua punição ou faço seu exorcismo, conforme seja o caso. Agora vá, vá!

— Tudo bem. Mas antes… (Olhando para o sovaco do padre.) O senhor não permitiria uma lambidinha?

— (Batendo a porta, trêmulo.) Cheire a virilha, meu filho. Passar bem.

Pelo tempo que levei para voltar, vocês já perceberam que me adequei completamente à vida no Rio. Segundo um amigo, o carioca não é lento, ele apenas começa a fazer as coisas quarenta minutos depois de todo mundo. Pode ser. Eu mantenho a tese de que o Rio é a verdadeira Bahia, a qual desenvolverei em breve por aqui. “Em breve”, segundo a noção de tempo carioca, claro.

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TWITTER

Enquanto não volto, acompanhem meus elogios ao Rio de Janeiro aqui.

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RIO, MAS NÃO MUITO

Sabem todos que desgraça é que nem sogra: aparece quando a gente menos espera.

Eis que eu, que estou passando por pulsoterapia e correndo o risco de enfrentar a hemodiálise, fui acometido por outra desgraça decomunal: tive de me mudar para longe da civilização e me estabelecer no Rio de Janeiro. Para quem não conhece, o Rio é uma espécie de África, só que aqui todo mundo é crente.

Isso porque, seguindo o projeto de sua vida que é me sustentar , minha mulher acaba de ser empossada em emprego público federal, ou seja, agora seremos dois sem trabalhar aqui em casa, mas pelo menos ela vai ganhar dinheiro.

Enfim, como já dizia Quixote, o mundo é um moinho. Em razão dessa mudança e enquanto passo pelo processo de aculturação, não escreverei no blog. Volto em agosto. Se, até lá, não tiver sido sequestrado ou praticado o salto do Corcovado sem paraquedas, esporte a que pretendo me dedicar em breve. Até a volta.

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PASTEL DE SANTA CLARA

BÊBADO 1: (Do nada, suspirando após uma prolongada pausa na conversa.) Não sei vocês, mas pra mim a vida após a morte só valeria a pena se houvesse pastel de Santa Clara.

BÊBADO 2: Isso é eufemismo pra sexo? Porque se for, eu prefiro o pastel da Julianne Moore.

BÊBADO 1: Não, não é eufemismo pra sexo. Aliás, Botticelli, Freud e os gregos que me desculpem, mas nunca entendi esses símbolos eróticos. O sujeito que confunde o órgão sexual feminino com um marisco, por exemplo, das duas uma: ou tá saindo com um desses novos tipos de sexo que andam inventando por aí ou com uma alemã de pouco asseio.

BÊBADO 3: Olha, não quero te decepcionar não, mas tudo indica que o protestantismo venceu. De modo que no Céu, atualmente, eles só devem servir um copo d’água. E morna.

BÊBADO 2: É, lá, por esses dias, o pastel de Santa Clara é conhecido como pastel de Clara, a Herege. Inclusive não vejo graça nesse doce, mas concordo com você em relação aos signos: quando leio esses poetas árabes se referindo à vagina como figo, acredito piamente no evolucionismo, porque obviamente os órgãos sexuais antes tinham outra forma. E dou graças a Deus que estejamos reproduzindo hoje com algo que, pelo menos, não tem dentes.

BÊBADO 1: Pode rasgar seu Confissões e, você, doe aquele seu exemplar de Plotino. Quem não entende o pastel de Santa Clara não entende metafísica. O pastel de Santa Clara é a síntese da vida, rapazes. O próprio Jesus Cristo, dizem, só atingiu a Verdade depois de comer um.

BÊBADO 2: Engraçado. Desconfiava que Jesus tivesse ido à Índia, mas definitivamente não sabia que tinha ido a Lisboa.

BÊBADO 3: Mas foi. Tá lá. Capítulo 3, versículo 4, Evangelho de Manuel Joaquim.

BÊBADO 1: Podem rir. Isso, vão rindo. Mas quando chegar a vez de vocês na fila dos condenados lembrem de mim. Eu vou tá na fila do lado, comendo um pastel de Santa Clara com meu amigo, o Nazareno. Provavelmente com uma camisa do Bangu. O próprio Zeus recomendou o pastel de Santa Clara, se vocês não sabem, gente sem cultura clássica. Tá lá em Homero, ignorantes.

BÊBADO 3: Hesíodo, na verdade. Eu me lembro. É naquela passagem em que ele se transforma em quibe para copular com um pastel de Santa Clara escondido de Hera.

BÊBADO 2: Como castigo, Hera condenou todos os quibes de boteco a serem feitos com óleo de duas semanas.

BÊBADO 3: O que acabou ocasionando a queda dos prepúcios dos árabes.

BÊBADO 1: (Revoltado.) Isso mesmo, riam mais. Riam bem, se acabem de rir. Mas fiquem sabendo que o próprio Proust só trocou o pastel de Santa Clara pela madeleine por uma questão de patriotada. Ele mesmo preferia o pastel, todo mundo sabe.

BÊBADO 2: Voltamos a falar de eufemismos pra sexo? Porque todo mundo sabe que Proust gostava mesmo era de um bom croquete.

BÊBADO 3: Roliço…

BÊBADO 1: Deixa pra lá. Bárbaros, canibais, pagãos. Garçom, mais uma rodada! (Muito sentido.) O pastel de Santa Clara ainda vai salvar a religiosidade, ateus!

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AMOR NOS TEMPOS DO VIAGRA

— Tu acredita em amor?

— Namor? O Prícipe Submarino? Sim. Em quem não acredito é nos Super Gêmeos. Pra mim, trata-se dos super-heróis mais idiotas que alguém poderia criar. “Forma de um balde de gelo! Forma de água pra entrar no balde de gelo!” Ah, vão tomar no…

— Não, cara, amor. Tô falando de amor. Camões, Shakespeare, essas coisas.

— Bom, acreditar, acredito. Mas, na minha idade, já tenho experiência suficiente pra saber que o amor por si só não vale nada. Tem que vir acompanhado de coisas igualmente importantes.

— Carinho, afeto, compreensão, companheirismo…

— Viagra…

— Ih, tu tá nessa?

— Não é que eu esteja. Tecnicamente, não tô. Mas é como já dizia Wittgenstein: todo mundo precisa de uma ajudinha pra subir ladeira.

— Wittgenstein nunca disse isso.

— Como é que tu sabe? Tu lê alemão? Tu não lê alemão. Wittgenstein escreveu coisas que o próprio Wittgenstein não entendeu. Embora a academia já tenha entendido tudo.

— Não desvia o assunto. Tu anda tomando Viagra?

— Não é que ande tomando Viagra. Digamos que uso socialmente, em momentos de maior aperto.

— Exemplo.

— Loirinha peituda.

— Que é que tem?

— Tu já brochou com uma loirinha peituda, com coxas perfeitas, tudo no lugar?

— Nunca, pelo simples motivo de que a única loirinha peituda com quem saí acabei descobrindo se chamar Oswaldão. Nosso encontro durou o prazo de uma apalpadela e me gerou tal aversão ao silicone que até hoje não consigo ouvir o nome de Pitanguy sem entortar o pescoço e piscar o olho duas vezes, dizendo “Babalu, babalu.”

— Pois eu lhe digo que já brochei e o trauma é tão grande que, no dia seguinte, você quer se enforcar com uma scarf.

— O que é uma scarf?

— Não sei, por isso mesmo não me matei. Mas o sentimento é péssimo. De maneira que agora o Viagra fica ali na carteira, até mesmo por uma questão de civismo.

— Essa, nem com todo o Wittgenstein. Questão de civismo?

— Pensa rápido, Jurandir. Para me lembrar que eu sou brasileiro e não desisto nunca. Agora, desembucha. Quem é que tás comendo?

— Quanta sutileza! Te falei que é amor, rapaz.

— Sem eufemismo, Jurandir.

— Isso mesmo, sem eufemismo, sem bestialismo, sem nenhuma dessas safadezas. Amor, ponto final. Tô apaixonado, cara.

— E por quem, Jurandir? Eu conheço? Já comi?

— Tu é um bárbaro, rapaz, um selvagem. Agora escuta e presta atenção, aprende um pouco de poesia: fique sabendo que, depois de trinta anos de casado, tô apaixonado de novo por minha própria mulher.

— (Passa meia hora rindo.) Jurandir…

— Que é que foi?

— Jurandir… (Ri mais um pouco.)

— Que é?

— Jurandir… Tu é corno de tu mesmo, Jurandir! (Ri ainda mais.)

— Ah, vá…

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JESUS OU MICHAEL JACKSON

— E aí cara, quem é que tu acha que volta primeiro?

— Quanto a isso, não tenho a menor dúvida. É aquele croquete de bacalhau que a gente acabou de comer, tu não viu? Nadar em óleo é pouco. Acho que tinha um que tava até usando escafandro. Nesse exato momento, eu tô com uma azia que começa no tornozelo!

— Não, cara, sério. Quem você acha que volta primeiro: Jesus ou Michael Jackson?

— Ah, não, mermão. Não acredito no que ouvem minhas oiças. Olha aí, alexandrinos perfeitos. Eu sou assim, quando tô indignado, só falo em alexandrinos.

— Por que não vais tomar na b…? Viu aí? Octossílabos perfeitos. Eu, quando tô diante de um débil mental, só falo em octossílabos.

— Não ofende, hein? Você é que veio com essa debiloquencia de Jesus e Michael Jackson. Bela palavra!

— Jesus ou Michael Jackson?

— Debiloquencia. Devia constar do Aurélio. Agora, meu nego, no que diz respeito a sua pergunta, informo que sou católico e não vou permitir esse tipo de brincadeirinha com Jesus, Nosso Senhor. Se ainda fosse com o Espírito Santo, vá lá. Nunca confiei no Espírito Santo. Acho que ele é até meio indecente, uma espécie de pum celeste, tu não acha?

— De fato, expressão muito bonita pra um católico. Não duvido que eles se tratem assim no céu, em momentos de intimidade. “Jesus está?” “Sim, mas nesse instante estão os três ocupados numa reunião de emergência da Santíssima Trindade, senhor: Pum Celeste, Barba Divino e o próprio Anda N’água. No momento, só temos a Virgem que Tapeou José, serve?” E além do mais, excelente católico você me saiu. A última vez que entrou na igreja foi no batizado de minha filha, que tem 20 anos!

— Tenho culpa se ela não se crismou? Agora, o que não faço é misturar coisa santa com pagã. Jesus é uma criatura onipresente, onisciente e… onifrequente.

— Onipotente. Tudo bem, credito isso a favor dele. Mas não sabe fazer o moon walk.

— Pro seu governo, fique sabendo que ele faz o moon walk até sobre poças e lagos!

— Mas não muda de cor.

— Como não? Muda de cor perfeitamente. Acontece que antes as coisas eram mais atrasadas. Mas quando você reproduz um palestino como se fosse branco e louro de olhos azuis, como fazem nas imagens sacras, me diga se isso não é uma técnica precursora da de Michael Jackson? E outra: Jesus tinha nariz. E Michael Jackson o que tinha era um origami dependurado no centro do rosto.

— Mas ele é tão amado quanto Jesus. E também levou chicotadas e foi abandonado pelo pai.

— Sem falar que também era adepto do “Vinde a mim as criancinhas”. E foi além do Cristo nesse aspecto, porque estabeleceu uma relação comunista com elas. Comia todas.

— Ele volta primeiro, tenho certeza.

— Uhm-hum. E quando voltar vai julgar a humanidade baseado em quê: “Vós que dançastes o break e gravastes videoclipes em favelas do Rio, passai à minha direita. Vós que pisastes no pé de vossa companheira até numa simples valsa, para a danação eterna?”

— Não sei, só sei que ele volta antes.

— Não volta.

— Volta.

— Não volta. E aposto cem reais.

— Combinado… É certo que volta.

— Não vol… Uh, urgh. Uh, uuurgh! Urgh!

— Que nojo, cara! Que nojo!

— Olha aí, não disse que o croquete vinha antes. Garçom, desce mais uma! E um pano de chão, faz favor! Vem, passa os cem. Eu estudei teologia, rapá…

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CLÁSSICO METAFÍSICO: CÉU X INFERNO (Quinta Parte)

DANTE: Recomeça a partida. Um a zero para o Inferno. Friedrich, o que você acha que o Céu deve fazer para virar o jogo?

NIETZSCHE: Olha, Dante. Em primeiro lugar, rearrumar a defesa e organizar o meio-campo. A verdade é que Elias está sumido em campo. E Jó está sofrendo na defesa.

DANTE: Vejam só, o Inferno já retoma a bola e parte para o ataque. Mas não, falta! Pedro derruba Belzebu e recebe cartão amarelo. Pedro discute com a juíza e nega que tenha cometido a infração. Minerva insiste. Pedro nega três vezes. Jesus entra na discussão e diz que quem nunca cometeu uma falta atire a primeira perna. Ih, esquenta a briga. João Batista lança uma sandália na cabeça de Átila, que rola no chão perto do goleiro ACM.

BELEROFONTE: Veja que onde Átila rola, não cresce grama, Dante.

DANTE: Bem observado, Belé. E João Batista insiste, hein. Vai pra cima de Átila, joga a túnica de camelo no chão e parte para a briga…

NIETZSCHE: Cá pra nós, Dante, João Batista é bom jogador e tudo, mas é um bad boy. Enquanto não dominar esse temperamento dele, sua carreira nunca vai deixar de ser uma eterna terra prometida.

DANTE: Agora, pra completar, Stálin dá um tapa na auréola de Gabriel e o chama de “ópio do povo”. “Seu ópio do povo”, ele diz. A confusão se generaliza.

BELEROFONTE: Dante, os Templários, que estão no banco de reservas do Céu tentam invadir o campo. Mas são contidos pela ira divina. Deus, em sua infinita bondade, abre um buraco no chão onde eles caem e são soterrados. E agora o massagista do Céu entra na cancha pra cuidar de Gabriel, distribuindo garrafinhas de mel e pedaços de ázimos pra todos os jogadores.

DANTE: E no banco de reservas do Inferno, Orfeu?

ORFEU: “Como uma deusa, você me mantééém. E as coisas que você me diz, me levam alééém…”

DANTE: Orfeu!

ORFEU: Dante, por incrível que pareça, Satã está calmo. O Diabo está sentado, desenhando algo em sua prancheta… Um sete, Dante. Satanás está pintando o sete.

NIETZSCHE: Ai, ai, ai, o clima continua quente. Belzebu pegou um pedaço de pão que Jesus lhe oferecia, amassou e jogou no chão.

BELEROFONTE: Pão esse que Jó comeu, Nietzsche. Eita, Dante, e agora a briga contagiou as torcidas. Uou! Confusão na arquibancada. Os profetas, liderados por Isaías, atacam os pecadores do Inferno a pedradas.

DANTE: Não dá. Enquanto permitirem a entrada dos profetas uniformizados em campo jamais vai acabar a violência no futebol.

NIETZSCHE: Também, Dante, convenhamos. O policiamento é precário. Cadê os anjos de espadas flamejantes quando a gente precisa deles?

DANTE: É verdade. Olha, eu quero dizer a nossos ouvintes que a briga é feia e promete não acabar tão cedo. Pra vocês terem uma ideia, agora mesmo o marquês de Sade passou a mão na bunda de Moisés, que praguejou sete vezes. Alguma chance de a confusão acabar e o Céu conseguir reverter o marcador daqui até o final do primeiro tempo da eternidade, Friedrich?

NIETZSCHE: É inútil, Dante. Todos nós já vimos essa história. A briga não acaba nunca, mas dá mal na cabeça sempre. Eterno retorno. Orfeu, que é grego, sabe disso melhor do que eu. Não é Orfeu?

(Em vez da voz de ORFEU, entra trecho de O Guarani.)

DANTE: Ih, Friedrich, deu interferência. Orfeu pegou a Hora do Brasil!

(Continua O Guarani e, em seguida, entra voz de locutor: “Em Brasília, 19 horas…”) (FIM)

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CLÁSSICO METAFÍSICO: CÉU X INFERNO (Quarta Parte)

DANTE: E olha aí mais uma descida fulminante do Inferno. Papa Doc para Stálin, Stálin para Sisto V, que lança para Vlad. Vlad avança pela direita em alta velocidade. A torcida avança com ele…

TORCIDA DO INFERNO: “Ô-ô-ô, Vlad é Empalador! Ô-ô-ô, Vlad é Empalador!”

DANTE: Segue Vlad. Dribla, um, dribla dois, entra na área, na cara do gol, atiroooou… Jacóóóóóóó! Defesa espetacular de Jacó, encaixando uma bola que ia no ângulo. Orfeu, o que é que só você viu?

ORFEU: “Meu mel não diiiga adeus, eu tenho tanto medooo…

DANTE: Orfeu!

ORFEU: Uma defesa espetacular de Jacó, Dante. Aliás, não via Jacó em forma assim desde a época em que atuava com Raquel e as escravas para produzir sua imensa prole.

NIETZSCHE: Cabe notar uma coisa ainda mais impressionante: Jacó faz essas defesas todas, geniais, com as mãos fechadas.

DANTE: Bem lembrado, Nietzsche. E Jacó continua com a bola. Fala com os outros companheiros de equipe. Vai a um e outro zagueiro, mostrando a bola, gesticulando… Mas o que é que ele quer, afinal? O que ele tá dizendo, Orfeu?

ORFEU: “Eu só queeero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasciiii, é…”

DANTE: Orfeu!

ORFEU: Jacó tá tentando revender a bola, Dante. Tá dizendo: “No meu mão é barratinho…”

DANTE: Lá vai ele. Saiu da área com a redonda… Não pode, Jacó, é falta! Falta perigosíssima para a equipe do Inferno bater. Quase um pênalti, Nietzsche.

NIETZSCHE: Olha, batendo dali de tão perto, Hitler é um perigo para a barreira. São tiros fulminantes. Já vi jogador do Céu sair de campo emasculado. E não me refiro a Gabriel, claro.

DANTE: Bom, vamos ver se Hitler derruba alguém dessa vez. Mas não. Ele deixa a pelota para o Marquês de Sade, que a ajeita com carinho. Sade beija a bola. Sade… lambe a bola. Sade se… abraça com a bola e… cai no gramado com ela… e prossegue com carícias… tira o calção… Mas Pio XII pega a redonda, dizendo não admitir imoralidades. Pio arregaça a batina e se prepara para cobrar. A barreira do Céu está postada e ri. Lá vai Pio, bufando e vermelho do esforço. Correu, atirou… Ridículo. A bola vai saindo vagarosamente pela linha de fundo… e… gol! Gooooooooool! Do Infeeeerno! Pio é o nome dele! O craque da camisa número doze! O Inferno abre o marcador com um gol inacreditável.

NIETZSCHE: Pra mim, a bola desviou no Espírito Santo. Tava indo claramente para a bandeirinha de escanteio!

DANTE: Orfeu?

ORFEU: “O que a gente faz, é por debaixo dos pano, pra ninguém saber, é por debaixo dos pano, que eu ganho mais…”

DANTE: Orfeu!

ORFEU: Isso mesmo, Nietzsche. Daqui de onde eu tô pude ver bem a jogada e o último toque foi mesmo do Espírito Santo.

DANTE: Aí está, portanto. Com um verdadeiro gol espírita o Inferno faz 1 x 0. O Céu vai ter que partir para cima agora, Agostinho.

AGOSTINHO: (Aproxima-se lenta e tremulamente do microfone.) Bem. (Afasta-se lenta e tremulamente do microfone.) (CONTINUA)

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CLÁSSICO METAFÍSICO: CÉU X INFERNO (Terceira Parte)

DANTE: Comeeeeeça a partida. Jesus toca a bola para Gabriel, Gabriel estica a redonda na ponta, faz um grande lançamento para… para quem? Para ninguém.

BELEROFONTE: Engano seu, Dante. O lançamento foi para o Espírito Santo, que deixou a bola passar.

DANTE: Bom, retoma o inferno com Belzebu, que toca para Pinochet. Pinochet logo dá mais à frente para Stálin, grande lance de Stálin que, num drible de raio X, passa por dentro do Espírito Santo.

NIETZSCHE: O Espírito Santo não tá bem hoje…

AGOSTINHO: (Aproxima-se lenta e tremulamente do microfone.) Bem. (Afasta-se lenta e tremulamente do microfone.)

DANTE: Continua Stálin pelo meio da cancha. Estica a bola para o artilheiro Hitler. Grande jogada. A defesa do céu foi pega desprevenida rezando uma ave-maria, avança Hitler, toca mais à frente para Átila, o Huno, sozinho na cabeça da área. Corre Átila. Ele e a bola. Vai fazer, vai fazer, vai… Não é possível! Orfeu, o que foi que só você viu?

ORFEU: (Cantando, alheio.) “Não se reprima, não se reprima, não se reprima…”

DANTE: Orfeu!

ORFEU: É isso mesmo, Dante, Átila pegou a bola com as mãos, temperou a pelota com sal e deu duas ou três dentadas. Falta para a equipe do Céu.

NIETZSCHE: Por um momento ele me fez lembrar do inesquecível meia-esquerda Tântalo. Do grande Pantagruel. Ou do povo brasileiro mesmo.

DANTE: Esaú pega a bola para bater a falta na defesa celeste. Jacó rouba a bola dele e diz que é ele quem vai bater. Esaú lhe dá um tapa. Jacó revida. O jogo é interrompido. A juíza vai expulsar os dois, hein, Orfeu?

ORFEU: (Cantando, alheio.) “Voar, voar, subir, subir… E ir por onde for…”

DANTE: Orfeu!

ORFEU: Ia expulsar, Dante. Os três, aliás, porque Abraão já vinha com um cajado para descer o sarrafo nos dois. Mas Jesus estabeleceu uma nova aliança entre eles e tudo se resolveu. Bola em jogo.

DANTE: Aliás, Orfeu, quem é essa bela juíza do jogo de hoje. Esquecemos de anunciar.

ORFEU: É realmente uma deusa, Dante. Trata-se de Minerva. Uma juíza polêmica. Alguns a acusam de ser cega.

DANTE: E nas bandeiras, quem temos?

ORFEU: De um lado, a alegoria da República da França. Do outro, são as estátuas do famoso monumento aos soldados americanos em Iwo Jima.

DANTE: Olha lá o ataque fulminante do Céu. A bola chega a João Batista, João lança rapidamente ao primo Jesus, que toca para Gabriel. Gabriel dribla um, dois, cruza para São Francisco, sozinho na pequena área. Vai fazer de cabeça, olha o gol… A bola paaaassa direto! Belerofonte, a bola passou por São Francisco, que nem ao menos se mexeu. Que foi que houve?

BELEROFONTE: No momento do cruzamento, ele tava conversando com a trave, Dante. Segundo pude ouvir, algo sobre a impermanência da carne e a transitoriedade dos objetos inanimados.

NIETZSCHE: É incrível. A continuar fazendo esse tipo de coisa, São Francisco vai acabar virando um jogador estigmatizado… ha, ha, ha! (CONTINUA)

PS: Senhores e senhoras, ter eu passado tanto tempo ausente se deve a dois fatos de fundamental importância para a vida do cosmo  além do óbvio, claro, que era não aguentar mais a presença de vocês por aqui —, sobre os quais falarei assim que conseguir terminar este infindável clássico. Aguardem.

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CLÁSSICO METAFÍSICO: CÉU X INFERNO (Segunda Parte)

DANTE: Orfeu!

ORFEU: Muito bem, Dante, já estamos aqui com a escalação do Inferno, que vai de ACM, no gol; Pio XII, Belzebu, Papa Doc e Pinochet, na defesa; no meio, Stálin, Sisto V, Vlad, o Empalador; e, no ataque, Átila, o Huno, Hitler e o marquês de Sade. Mas vamos falar com o treinador da equipe, ele que anda meio caído nesses últimos séculos: Satanás. E então Satã, qual a tática para derrotar o Céu?

SATANÁS: Nós temos trabalhado em algumas tentações novas e vamos utilizar o mesmo sistema ofensivo, atacando com três pontas em estocadas rápidas.

ORFEU: Obrigado. Dante.

DANTE: Obrigado, Orfeu, e vamos agora com ele que já esteve lá: Belerofonte, qual a escalação do Céu, meu filho?

BELEROFONTE: Olá, Dante e amigos. O Céu vai entrar com Jacó, no gol; Esaú, Abraão, Moisés e Jó, na defesa; no meio, João Batista, Elias, José e Gabriel; e no ataque, Jesus e o Espírito Santo. O desfalque da equipe celeste é Paulo, que caiu do cavalo no meio da semana e não joga. Mas, Dante, correm boatos de que Jesus e o Espírito Santo estão se desentendendo com o Pai. Ciumeira, contratos com multinacionais, essas coisas. Vou perguntar aqui a Deus se isso é verdade. Assim que eu encontrá-Lo, porque parece que Ele está em toda parte… Aqui. Senhor, é verdade o que andam dizendo sobre a Santíssima Trindade? O trio vai finalmente se desfazer, o sonho acabou?

DEUS: Belerofonte, você, mais do que ninguém, sabe que isso é uma quimera. O Diabo espalhou essa história pra desestabilizar nossa equipe. Continuamos como sempre fomos: indivisíveis, unos, três em um, somos praticamente um combo de internet.

BELEROFONTE: E o Senhor acha que…? Ih, sumiu. Vai com você, Dante.

DANTE: Obrigado, Belé. Alguma novidade, Friedrich?

NIETZSCHE: Gostei da substituição de Goebbels pelo marquês de Sade, que ultimamente anda comendo a bola.

DANTE: Agostinho?

AGOSTINHO: (Aproxima-se lenta e tremulamente do microfone.) Bem. (Afasta-se lenta e tremulamente do microfone.)

DANTE: Aí está. Tudo pronto para o início da partida. E a guerra das torcidas continua. Vamos escutar…

TORCIDA DO INFERNO: “Ilo, ilo, ilo, João Batista come grilo! Ilo, ilo, ilo, João Batista come grilo!”

TORCIDA DO CÉU: “Por Cristo! Tum-tum-tum. Com Cristo! Tum-tum-tum. Em Cristo! Tum-tum-tum.”

TORCIDA DO INFERNO: “Ô-ô-ô! Aldolf Hitler é matador! Ô-ô-ô! Aldolf Hitler é matador!”

DANTE: Que bonito o espetáculo! O juiz vai dar início ao jogo. Mas antes teremos o tradicional minuto de silêncio. Em homenagem a quem, Orfeu?

ORFEU: (Cantando, alheio.) “Ele não monta na lambreta, ele não monta na lambreta…”

DANTE: Orfeu!

ORFEU: É pela morte da ética e da moralidade pública no Brasil, Dante. (CONTINUA)

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CLÁSSICO METAFÍSICO: CÉU X INFERNO (Primeira Parte)

DANTE: Alô, alô, amigos dos cinco continentes e de Atlântida, a princesinha dos mares, conservate ogni speranza voi che ascoltate, eu sou Dante Alighieri (entra vinheta: Dantê-tê-tê) e nós estamos aqui hoje com a jornada esportiva mais aguardada dos últimos dois mil anos, desde os portões de Hebron até as colunatas do Lácio. De um lado, a equipe do Céu, que conta com a volta de Jesus. Sim, meus amigos, o craque da camisa 33 voltou. Depois de dois milênios atuando no futebol europeu, o Senhor volta aos campos elísios para abrilhantar ainda mais o espetáculo dessa tarde. Do outro lado, a equipe do Inferno, comandada pelo artilheiro Adolf Hitler, que esse ano ganhou o troféu Comemoração de Gol Mais Gay do Campeonato, com seu famoso Heil Triplo Escarpado. E está conosco ninguém menos que o comentarista da auréola areada, Santo Agostinho, o Língua Afiada de Hipona (entra vinheta: Agostinho-ô-ô). E então, Agostinho, você acha que a equipe do Céu vai atuar com os arcanjos avançados e explorar a jogada aérea?

AGOSTINHO: (Aproxima-se lenta e tremulamente do microfone.) Bem. (Afasta-se lenta e tremulamente do microfone.)

DANTE: E o Inferno, vai cozinhar o jogo em fogo brando, repetindo o velho trocadilho batido das outras atuações?

AGOSTINHO: (Idem.) Bem. (Idem.)

DANTE: Aí está, o grande Agostinho, confessando que não entende nada de futebol (entra vinheta: Agostinho-ô-ô). Do meu lado direito, o Bigode Ferino de Basiléia, Friedrich Nietzsche (entra vinheta: Nietzschê-chê-chê). E então, Friedrich, concorda com o santo?

NIETZSCHE: Em princípio, não, Dante. Olha, acho que a jogada aérea do Céu é boa, com Gabriel entrando pelas alas. Mas Jesus sempre fura no cabeceio. Embora comece a chover e ele seja muito perigoso em campo molhado. Vamos esperar pra ver se não é maná. Agora, pra mim, a entrada de Moisés pode ser um divisor de águas… ha, ha, ha! (Passa algum tempo gargalhando e DANTE o observa com um olhar de incompreensão.) Quanto ao Inferno…

DANTE: Só um minuto, Nietzsche, só um minuto, porque estamos acompanhando a velha guerra de torcidas. Torcedores do Inferno provocam os do Céu, ouçam o coro…

TORCIDA DO INFERNO: “Ô, São José, cadê tua mulher?! Ô, São José, cadê tua mulher?”

DANTE: A torcida do Céu rebate com o Gloria in excelsis Deo da missa em Si menor de Bach. Mas a do Inferno insiste, escutem…

TORCIDA DO INFERNO: “Ei, Jesus, vá tomar na cruz! Ei, Jesus, vá tomar na cruz!”

DANTE: Prossiga, Nietzsche. Não entendi, você acha que o Inferno vai jogar bem ou mal?

NIETZSCHE: Tem que ir além disso pra vencer o Céu, Dante. Se repetir a escalação da última partida contra o Purgatório, vai ficar difícil. Entrou com muito alemão, esses alemães são uns pernas-de-pau. O Inferno tem que ir de Voltaire, Dostoievski, Shakespeare, esse pessoal. Força e estética, Dante, força e estética!

DANTE: Então, vamos lá, ao campo de jogo, com ele que tem justamente a escalação do Inferno. Orfeu, é com você.

ORFEU: (Cantando, alheio.) “El día que me quieras, la rosa que engalana…” (CONTINUA AMANHÃ)

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SAÍ DO HOSPITAL

E estou aparentemente vivo. Caso a impressão se confirme, nos próximos dias volto a postar. Caso contrário, velas brancas, por favor.

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OBSERVAÇÕES HOSPITALARES

Vim ao hospital fazer uma biópsia nos rins e, saído o resultado ontem, contam-me que permanecerei mais cinco dias aqui, por dois motivos: fazer um tratamento chamado pulsoterapia e passar a usar fraldões. Fazer o tratamento, que dura seis meses ao todo, para tentar evitar a hemodiálise. Usar fraldões porque me borro de medo de hemodiálise.

Estar no hospital é como estar em casa. A diferença é que aqui os mosquitos se vestem de branco. Tal é a profusão de agulhas entrando nos meus braços que há uma semana um coador de leite me olha com pena. Se não fosse o frio deste outono, imaginaria que as moças estavam fazendo isso para me ventilar.

Instruídas em filosofia, o método delas é comtiano: tentativa e acerto. Iniciantes, contudo, ainda estão exercitando a primeira parte do curso. Segundo ouvi dizer, as do meu andar são quase todas recém-chegadas à Beneficência Portuguesa. Deve ser verdade. Provavelmente, da baía de Guantánamo.

Quando não estão me picando, atrapalhando minha leitura ou meu trabalho, as enfermeiras gostam de discutir literatura. Há uma delas, aliás, que vai além, parece ela mesma um personagem shakespeariano — aquele asno de Sonho de uma noite de verão. Sobretudo da cabeça para cima.

Ou isso, ou é médium e está psicografando o burro de Esopo. Já vi papagaios com mais contenção verbal. A mulher parece uma sogra em estéreo.

O maior desejo de sua vida, de acordo com o que me contou, é enfrentar Fidel Castro nas Olimpíadas de Retórica de Leipzig. Sou ela e dou dois Chávez de vantagem.

Aliás, nada encanta mais as funcionárias deste nosocômio do que descobrirem que sou escritor. Reação esfuziante igualmente comum em outros lugares onde faço cadastros e que, para mim, demonstra a atitude típica da população de um país de cultos e letrados. Também na Irlanda ou na França deve ser assim: quando sabem que alguém é escritor, as pessoas regem como se observassem um sujeito com seis sacos. O que sei ao certo é que na Somália isso se dá ao encontrarem um prato de comida e, entre os saarianos, um copo d’água. Quer dizer, deve ser um bom sinal.

Bom, mas não é só de tristeza que se faz uma internação. Também há principalmente tédio e aborrecimento. Nada que não se consiga vencer quando, como eu, se tem otimismo e fé: o otimismo de que vou morrer dentro em breve e a fé de que não há enfermeiras no céu.

A médica não pensa assim, diz que o tratamento é demorado, chato, caro e que não há certeza de cura, mas que felizmente os remédios importados são fornecidos pelo SUS.

— Doutora — falei, com uma dificuldade de pensar depois da décima injeção do dia que me deixa com um semblante inteligente de Agripino Maia. — Sou um homem racional, cartesiano, educado pelos existencialistas. Papai Noel, tudo bem. Mas não acredito em SUS.

Ela entendeu. E vai utilizar um sistema mais científico a partir de agora. Ainda hoje recebo a visita da mãe de santo.

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HOSPITAL DE NOVO

Internado. E, de novo, sem sal e sem enfermeiras peitudas. Os doutores têm esperança. Talvez saia daqui em agosto de 2039.

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OS DOZE PASSOS DE BRASILEIROS ANÔNIMOS (B.A.)

Primeiro Passo

Admitimos que éramos impotentes perante o raciocínio lógico e a análise crítica, que tínhamos perdido o controle sobre nossos dois neurônios, que líamos a Veja e acreditávamos em tudo o que estava ali escrito, que passávamos a vida a repetir clichês, a reproduzir frases feitas e a rir com o Zorra Total.

Segundo Passo

Viemos a acreditar que um Poder superior a nós mesmos poderia fazer com que parássemos de roubar dinheiro público, jogar lixo no chão, abrir malas de carro para escutar som alto nas ruas, assistir a jogos de futebol ou novelas  e aprendêssemos a fazer uma fila e a ler um livro.

Terceiro Passo

Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida nas mãos de Deus, na forma como o concebíamos: um ser levemente infantilizado, para quem bastava rezar e Ele faria tudo o que pedíssemos, contanto que acendêssemos uma vela, subíssemos um morro de joelhos ou dançássemos o Tchan fantasiados de Clodovil dentro de uma penitenciária masculina. O Poder se chamava Judiciário e demorou dez anos para responder.

Quarto Passo

Fizemos destemido e minucioso inventário moral de nós mesmos. E descobrimos que éramos nietzschianos.

Quinto Passo

Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outros seres humanos a natureza exata de nossas falhas. Mas cruzamos os dedos antes e não valeu.

Sexto Passo

Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter. Mas Ele desistiu, afirmando que não fazia milagres.

Sétimo Passo

Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições. E Ele insistiu: “Nã-nã-ni-nã-não.”

Oitavo Passo

Fizemos uma relação de todas as pessoas que havíamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados, desde que fossem nossos amigos, família, amigos de conhecidos, conhecidos de amigos ou tivessem nos dado alguma propina ou um agrado.

Nono Passo

Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse algum esforço incongruente de nossa parte, como levantar-se da cadeira e agir.

Décimo Passo

Continuamos a fazer o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente, embora cantássemos mentalmente uma música do Babado Novo para não ouvirmos nossa voz.

Décimo Primeiro Passo

Procuramos, através da prece, da meditação e de alguns conhecidos no Céu, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma como o concebíamos, ou seja, uma espécie de FHC que voa.

Décimo Segundo Passo

Tendo experimentado um despertar espiritual graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos brasileiros e praticar estes princípios em todas as nossas atividades, sobretudo nas primordiais de nossa gente, quais sejam: colocar a culpa no governo quando se está cometendo uma infração; rir, compreensivo, ao ter um direito sonegado; demonstrar, falando incessantemente, a cultura geral de uma borboleta incinerada; e coçar o saco em público.

Passo Bonus Track

Então, após tudo isso e muito meditar, finalmente tomamos uma resolução grave e decisiva: comprar um caderno novo para o inventário, porque aquele já estava na última folha.

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ANJO GUARDIÃO DA GRAMÁTICA

— Tô almoçando. Sim. Vamo se falando, tá bom? Vou desligar. Tudo bem. Tchau, tchau.

— Vamos nos falando.

— Meu Deus, que susto! De onde é que você surgiu? Que… que foi que você disse?

— Disse que o certo é “vamos nos falando” e não “vamo se falando”. Isso daí é batata frita?

— Eh, o politicamente correto. Antes a gente não podia fumar nos restaurantes. Agora não pode cometer erro de concordância. Daqui a pouco tão obrigando a gente a comer brócolis. Ei, larga minha batata!

— Prazer. Sou Márcio, com acento no “a”. Seu anjo da guarda.

— Ah, tá. Vou fazer uma cirurgia nos rins amanhã e me mandam um anjo da guarda especializado em gramática. Olha, Márcio com acento no “a”, eu realmente tô, digo, estou muito encantado, mas devo informar que você errou de mesa. O Pasquale Cipro Neto tá um pouco mais atrás. E se eu fosse você corria, parece que ele tá engasgado com uma coordenada sindética adversativa…

— Já sei, você acha que eu sou louco.

— Longe de mim. Pode ser apenas um surto passageiro. Agora, se me der licença, comê-lo-ei meu bife. Garço-om!

— Sempre esse ceticismo e esse preconceito contra nossa atividade. Por que não pode haver um anjo guardião da gramática? Nunca viu São Mateus e o anjo de Caravaggio? Aquilo era um dos nossos dizendo: “Nós vamos, meu filho, nós vamosA gente concorda no singular, Mateus… Mateus, Mateus, pobrema de novo?”

— Não, nunca vi São Mateus e o anjo, mas conheço bem Guernica e sei que seu perfil vai ficar bem parecido com o daquele cavalo que aparece ali se não largar minhas batatinhas já, já. Garço-om!

— Joyce também. Modéstia à parte, fui eu que inventei a palavra-valise. Imagine você que ele queria usar palavras-baú, mas eu o convenci de que elas só ficavam bem em textos sobre a burocracia alemã.

— Olha, se você é guardião da gramática mesmo, é melhor ter uma boa desculpa pra chamarem de literatura o que vem sendo publicado no Brasil ultimamente. Sem falar que não sei o que tá fazendo aqui: por esses dias, a atividade no Planalto Central é mais promissora. Aliás, onde é que vocês tão todas as vezes que eu quero escrever “obcecado” ou “cansaço” e uma massa de burrice ancestral se posta sobre meu entendimento?

— Já identificamos o problema. Ele vai estar sendo verificado, com perdão do gerundismo. Não reclame, isso aqui é Igreja Católica. Dê graças a João XXIII que desemperrou alguns processos. Guardei o número do seu protocolo em algum lugar, quer?

— Não. Larga a batata. E minha histórica incapacidade para a Matemática?

— Veja, só lidamos com língua e literatura. Além do mais, não fazemos milagre. O máximo que podemos ajudar é no raciocínio lógico. Imagine você que Aristóteles, antes de nosso auxílio, achava que o silogismo era composto por duas premissas, uma conclusão e vinte e cinco hipóteses. Graças a nós, essa forma de dedução só fez sucesso no Brasil. Ah, e também demos uma forcinha à poliorcética clássica. Pra você ter uma ideia, na formação de tartaruga, antes de nossa intervenção, os soldados ficavam sobre os escudos.

— Entendo. Mas será que você não pode fazer uma demonstração qualquer pra eu acreditar em você, ahn? Um paulistano empregando o presente do subjuntivo, um jornalista dominando a regra do porquê, uma letra de música baiana com sentido, qualquer coisa…

— Gostaria muito, mas agora não dá. Tenho que ir. Tenho um trabalhão pela frente. Vamos nos falando.

— Aonde você vai? Sindicato?

— Jogo do Corinthians.

— Mas… Ô! Ei! Volta aqui… Filho da mãe. Levou minha batata.

Uma das diversões da minha vida era passar os dias tentando imaginar um defeito em Nelson Moraes. Pô, eu me dizia, rangendo os dentes, o cara escreve absurdamente bem, tem uma criatividade inigualável e uma inteligência assustadora, tem que ter algum defeito. Pois, felizmente, acabei de descobrir: Nelson acha que eu sou um gênio. Ou seja, tem problemas. Estou muito mais aliviado agora.

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AMÍGDALAS

O silêncio que vocês estão ouvindo aí vem de mim. Eis que o espírito de Deus baixou sobre minha pessoa e, com a ajuda de alguns médicos de bisturis chamejantes, arrancou-me as amígdalas. Resultado, desde ontem sou uma espécie de burra de Balaão ao contrário: um quadrúpede que perdeu a fala.

Amígdalas, a se crer nos doutores, porque minha impressão é a de que me arrancaram os testículos pela garganta. Coisa que só poderei constatar de fato daqui a uma semana, quando readquirir a fala e descobrir se sou capaz de cantar como a Tetê Spínola.

Acreditem: não estaria me sentindo pior se, em vez da Beneficência Portuguesa, tivesse dado entrada em estabelecimento monitorado por cirurgiões da Escola das Américas. Sinto dor até no útero que não tenho.

Aliás, não deve ser outra a formação do médico que me atendeu. Na consulta preliminar, utilizando-se de uma delicadeza própria de nadadoras alemãs em TPM, esse homem me enfiou um arame pelo nariz com tal destreza que minhas sobrancelhas encostaram na nuca.

— Doutor, prefiro o método tradicional — expliquei, pálido. — Que tal o senhor usar um revólver e resolver isso de uma vez?

Sem me escutar e de novo com a sutileza dos que lidam com sacos de tijolo, meteu uma tenaz nos meus ouvidos e arrancou toda espécie de porcaria dali de dentro, inclusive duas fatias de queijo que eu tinha comido no café da manhã.

Àquela altura já estava estrebuchando na cadeira e, invejando a boa sorte de Ugolino, pedia a Deus que deixasse de dar provas de que me amava daquele jeito, pois “eu não sou Jó”, insistia.

Mas meu bom Esculápio não desistiu. Numa terceira arremetida, introduziu outro objeto de procedência estranha em minha garganta, fazendo com que enxergasse não apenas estrelas como uma ou duas nebulosas.

Isso tudo com gestos de criança. Mais precisamente, de criança que não desenvolveu ainda o sentimento de empatia.

— Pronto — anunciou por fim, rindo.

— Osso ecolher inha íngua do ão? — perguntei.

— Venha na quarta para tirar as amígdalas — prosseguiu.

— De novo? — espantei-me.

— É uma cirurgia rápida. Não vai doer nada.

— Se não for pedir muito e evitando a metafísica, doutor, por favor, me explique seu conceito de dor.

Não explicou. Mas hoje entendo perfeitamente o que quis dizer. De fato, a cirurgia não doeu nada. Absolutamente nada. Pelo menos nele. Filho da p…

PS — Segunda-feira vou fazer uma biópsia nos rins. Se sair vivo, volto aqui. Se não, deixo o blog para Branco Leone e a caixa de comentários para Franciel. Rezem pela saúde do médico.

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POR QUE LER ALBANO MARTINS RIBEIRO

Brasileiros típicos e aplicados ao principal esporte nacional, a repetição de clichês, consideram, claro, a crônica um gênero menor. O 0,001% (arredondado para mais) da população que pensa, pelo contrário, observa que Machado de Assis fez pouco mais nos livros da maturidade que encadear crônicas — em que se exercitou com maestria por décadas, mas o brasileiro típico não leu as crônicas de Machado, por serem coisas menores, aplicando-se à leitura de sábios como Rubem Fonseca — para criar obras-primas da literatura universal. Se ele era um gênio com absurda capacidade de observação, meu brasileiro típico, me perdoe: eram pouco mais do que crônicas, falou-me Zaratustra.

Apenas dois escritores nacionais, também de acordo com o sábio persa, conseguiram a destreza britânica de Machado para enxugar palavras ao narrar detalhes do cotidiano, ainda que sem a psicologia e o charme do Velho: Fernando Sabino e Erico Verissimo. Agora o brasileiro típico cai no chão, sem fôlego e dando l’affreux rire de l’idiot de que fala Rimbaud, porque segundo o Manual Nacional de Incessante Repetição de Banalidades, Sabino é um escritor menor e Verissimo pai, um regionalista.

Seja, nem Zaratustra disse o contrário com relação ao primeiro. Apenas disse que ninguém seguiu Machado como ele, pinçando a palavra exata, construindo um fraseado sucinto e preciso, levando o modernismo — o verdadeiro modernismo, o da economia de traços, da elegância e do colorido de Modigliani — ao patamar de literatura, não por aplicar neologismos vagos e utilizar-se de recursos muito semelhantes aos da masturbação, como andam fazendo por aí há cem anos, mas por tratar de temas contemporâneos com termos exatos e movimentos firmes. Há quem prefira Rosa e o barroquismo histérico, digo, ibérico de nossa tradição. Eu fico com O Encontro Marcado.

Quanto ao segundo, meu brasileiro típico, Zaratustra apenas diz que há poucos escritores mais urbanos na literatura nacional, chama a atenção para o fato de que mesmo O Tempo e o Vento se passa quase que totalmente na cidade e segue adiante.

Sempre coloquei na conta da incultura pátria (falo da incultura dos que leem) o fato de só dois autores brasileiros terem conseguido seguir a tradição de Machado, enquanto a maioria tenta brincar de José de Alencar e Mário de Andrade. O que se escreve no Brasil atualmente, quando não é autoajuda, é lixo pior, por ter a pretensão que a autoajuda não tem. É subliteratura de tal forma fraudulenta que, em países sérios, tenho certeza, daria cadeia.

Eis por que, de tanto ver Calíope agarrada pelos cabelos e tratada com o cuidado de uma letra de Wando, desisti de procurar e passei a ler a Casa Cláudia como meio mais seguro de obter fruição estética.

Há cerca de dois anos, no entanto, encontrei, sem querer, o quarto homem da tradição machadiana, escondido num canto de blog semiabandonado, obviamente longe dos holofotes. O que, atualmente, se não é garantia de qualidade, já é meio caminho andado.

Descobri que o sujeito tinha um livro e o comprei, com medo de me decepcionar. Não me decepcionei. A reunião de crônicas seguia a tradição que os quatro solitários escolheram (Zaratustra insiste: são só quatro). Sim, porque Albano Martins Ribeiro é cronista, como todo escritor que se preza. Se vivêssemos tempos menos filistinos, pouco menos, e já não houvessem assassinado o último cronista com as tripas do último escritor, estaria enchendo as burras de dinheiro nos jornais. Mas os jornais preferem fazedores de palavras cruzadas, esses novos e geniais Oswald que encontramos nas esquinas de Parati.

Foi graças a Os melhores (e alguns dos piores) textos de Branco Leone que conheci Albano e até suportei sua feiura inata, tudo em nome da literatura. O que me deixa à vontade para falar, porque essas observações disse a ele de viva voz logo no primeiro encontro (entre um grito e outro, pois eis que o sujeito, além de feio, é surdo).

Meses depois, ele lançaria o Incompletos. A capacidade cirúrgica de descrição, o humor fino, a elegância das palavras cuidadosamente escolhidas, as observações inusitadas, os diálogos brilhantes, tudo estava ali decuplicado e filtrado na reunião de contos. Livro como não se via na República do Clichê desde tempos imemoriais. Não é à toa que a “Ilustrada” não ouviu falar dele.

E era só o que deveria dizer, acrescentando: comprem os livros, se prezam a literatura, e vejam por vocês mesmos. Porém, para contentar ainda mais você, brasileiro típico que me lê, concedo: Albano está nos devendo um romance.

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ESPELHO

Acordo de manhã cedo com a alegria própria das aeromoças da Gol, xingando Merleau-Ponty e toda a esquerda europeia por não existir ainda o regime de duas horas de trabalho — e os gênios da Mercearia São Pedro, só por hábito. Ao passar pelo corredor com esse ânimo próprio do William Waack em crise existencial, alguém me chama:

— Fi-fiiiiu.

Estranho, porque, em geral, quando ando aqui pelo bairro, as meninas me vaiam. Volto sobre os calcanhares, não por necessidade, mas só para usar essa frase, que sempre li nos clássicos. Afinal, nosso apartamento foi construído na época antiga, quando inexistia o conceito de corredor.

Moramos num estúdio ou, em bom português, num loft. Aos que não sabem, loft é um apartamento feito com o estrito objetivo de levar o sujeito a compreender por que a humanidade optou por portas e paredes.

Volto, dizia, e me assusto ao encarar uma criatura horrenda, que, encostada à parede, me mira com escárnio. Sou eu mesmo, no reflexo do espelho.

— Espelho, espelho meu, haverá alguém no mundo com o nariz maior que o meu?

— Milton Ribeiro — disse ele. — Mas não tergiverse. Você está virando um direitista de bosta, Velho Mamá.

— Pleonasmo a essa hora da manhã não, hein! — indignei-me.

— Quem te viu, quem te vê. Eu estive com você no Fora Collor, Velho Mamá.

— Ha! Essa boa. Se eu não era nem nascido…

— Estive com você no seu primeiro grupo de estudos da Escola de Frankfurt, estive com você quando debateu o Maoísmo dos Anos 80 Segundo a Ótica Pós-burguesa do Neoexpressionismo Taitiano, quando levou aquele murro da cobradora de ônibus por querer lutar contra a repressão social pulando a borboleta e a repressão sexual passando a mão na bunda dela, quando você comeu sua primeira feminista militante eu estava lá.

— Bons tempos aqueles em que as mulheres tinham cabelo no sovaco — suspiro, nostálgico.

— Nós estávamos juntos na primeira eleição de Lula, quando você chamou um brizolista de “muar populista” e ele, sem recorrer às bases, numa atitude própria de caudilho, meteu um bandeirão na sua cabeça. A gente xingou FHC de neoliberal em coro, coitado, desconhecendo a política econômica atual do PT. E agora você me vem com esse texto metendo o pau em Lugo, Velho Mamá?

— Pelo menos optei pelo sentido figurado. Ao contrário dele. E o texto não era sobre Lugo, era sobre o comportamento de rebanho, sobre religião. Mas por que é que tô me explicando a você, um utensílio de vidro e madeira? Se me dá licença, vou ali falar com a torradeira e a frigideira, que são criaturas mais lidas.

— Opa, não vá pensando que me escapa. Eu tô de olho em você, covarde. E outra: vê se faz um regime. Você me mata de vergonha com essa barriga. Um abdominalzinho de vez em quando, ahn? Esse negócio de ficar olhando pra bicicleta ergométrica não vale como exercício, viu? Aliás, desconfio de que foi assim que a meditação transcendental surgiu… Ô! Ei!

Afastei-me e fui tomar o café da manhã. Mas desde então ele só me olha de perfil. E se vira de costas, cantando a Internacional Socialista, quando quero me arrumar para sair.

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O FUTURO DO BRASIL EM NOSSAS PATAS

O texto saiu da pura indignação de um cidadão consciente e politizado. Veio Thiago e, unindo sua revolta à minha, o gravou e lançou no You Tube. A campanha começou tímida, mas eis que há uns dias ganhou força e corre o país de norte a sul. Trata-se de um movimento tão poderoso que já chegou a países vizinhos e até a Vitória, no Espírito Santo.

Junte-se à corrente. Veja o vídeo aqui, espalhe, revenda em barraquinhas de camelô, filie-se ao partido hoje mesmo. O futuro do Brasil está em nossas patas.

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LUGO E O INEXCEDÍVEL DILEMA DO SORVETE DE DUAS BOLAS

Sempre que se fala em Cuba, você escuta um idiota (nem que seja o idiota interior que habita em todos nós — em alguns, juntamente com a alma; na maioria, em lugar dela) você escuta um idiota dizer, repito, que apesar de tudo, pelo menos lá ninguém é miserável. Como se estivesse falando de um combo de TV a cabo:

— Bom, senhor, são três planos, na verdade. O senhor tem esse aqui, o Very Plus Much Food a Lot, com café da manhã, almoço e jantar, mas assassinato e aprisionamento de intelectuais e homossexuais às sextas. Esse segundo, olha aí, o Extra Freedom God Damnit Fucking Special Ultra, onde há jejum matutino, almoço frugal e ceia em dias alternados, mas com democracia plena e parlamento bicameral. E o Big Basic, que é um caroço de feijão a cada três dias, tocadores de flauta andina nas praças públicas, mas você pode ser ditador por dois meses. Esse tá acabando…

Para mim se trata de questão típica do filosófico e greco-romano paradoxo conhecido nos círculos acadêmicos mais eruditos como Inexcedível Dilema do Sorvete de Duas Bolas e criado pelo pensador e populista amador Dionísio de Siracusa. Como se sabe, o paradoxo consiste basicamente na análise da crise que se abate sobre um indivíduo que, tendo um sorvete de duas bolas à disposição, pede o mesmo sabor nas duas, em vez de experimentar um novo. Meu pai tomava as duas bolas de morango e até hoje a gente não se fala direito por conta disso. Bom, disso e também porque ele tinha o hábito de me bater com uma âncora na infância.

Mas menciono o dilema porque uma variação dele surge agora com o caso Lugo, acompanhado por todos e detonado por uma falha óbvia de memória: o presidente do Paraguai achou que era bispo muçulmano em vez de católico e saiu engravidando umas quantas senhoras mais afeitas ao comércio de indulgências.

Leio por toda parte que as pessoas que defendiam ser a crise americana uma pura invenção dos países europeus e dos EUA, mancomunados com a imprensa internacional e o seu Madruga, para derrubar o governo Lula (lideradas todas por aquele homem honesto e livre de rancores que se chama Paulo Henrique Amorim) mudaram de profissão e agora defendem nova causa: a gravidez das mulheres de Lugo é uma armação dos europeus e dos EUA, mancomunados com a imprensa internacional e o seu Barriga, para derrubar o governo deste importante país no concerto das nações avançadas que é o Uruguai, digo, Paraguai.

Quero deixar registrado que concordo com elas. Sei que os mais apressados vão dizer que, apesar de a Igreja Católica ser uma grande farsa e até uma piada, quando a pessoa é bispo dela e faz o que fez, não importa a agremiação partidária, em primeiro lugar está agredindo o sentimento do povo mais humilde e, em segundo, agindo como um hipócrita reincidente, para não falar no prejuízo eventual à vida de algumas crianças e em abuso de autoridade. Mas esses direitistas ordinários se esquecem de um detalhe: Lugo é um presidente progressista. Aí está, ou é preciso explicar mais? Tudo não passou de um mal-entendido, como sempre. E digo mais a vocês, gente dada a apoiar ditaduras: é melhor ser esquerdista abdicando do cérebro ou ser um direitista canalha e explorador?

Quanto a mim, já fiz a escolha. Estou concorrendo a síndico aqui do prédio com a plataforma humilde de todo candidato nanico de esquerda: livrar o condomínio dos pernilongos, construir um Brasil ético e moral e acabar com a violência na América Latina. E se descobrirem, depois de eleito, que no ano passado matei três pessoas, saio acusando todo mundo de fascistoide, nazista e reacionário.

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CALMA, GENTE SEM PACIÊNCIA

Eu e Jesus estamos voltando. Basta Branco Leone para me aporrinhar. Façam como meus credores, confiem em mim. Até amanhã.

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FULGURAS

— Então, o que o traz aqui, seu Almeida?

— Tô com um problema de fulguras, doutor.

— Ahn?

— Fulguras. Choro toda vez que ouço aquela parte do fulguras no Hino.

— Olha, tecnicamente isso não chega a constituir um problema, eu acho.

— Não. Sobretudo se a gente não está tecnicamente assistindo um jogo de futebol num bar lotado de homens.

— Acontece sempre?

— Sempre, não. Só no fulguras. Começa no fulguras e vai até o do-que-a-terra. Do mais-garrida em diante me recupero, porque penso no Cidade Negra e passo a ter vontade de vomitar. Mas aí já tão me acusando de erguer uma clava forte e fugir da luta, doutor.

— Sei, mas, digo, desde quando acontece? Desde criança?

— Não, em criança eu só chorava com aquela musiquinha do Gorpo: “O bem vence o mal, espanta o temporal etc…” Ah, sim, também quando os personagens da Caverna do Dragão não conseguiam voltar pra casa. E, claro, no final dos filmes d’Os Trapalhões, quando Didi acabava sozinho.

— Engraçado. Nunca chorei quando o Didi acabava sozinho.

— O senhor é um insensível, doutor. Ou era da corrente que gostava de Dedé, o que dá no mesmo. A verdade é que todo mundo chorava. Dizem até que o William Waack perdeu a capacidade de rir já na infância porque era viciado em filme d’Os Trapalhões.

— E, atualmente, você só chora no Hino do Brasil?

— Só. Quer dizer… Bom, tenho certa dificuldade com o astuto-ardil.

— Quem?

— Astuto-ardil. Hino da Independência. Do astuto-ardil até o zombou-deles. Já tão me apelidando de Raio Vívido, doutor. Outro dia me chamaram de À Terra Desce. E tem aquela questão do símbolo-augusto…

— Que símbolo augusto?

— O símbolo augusto desta terra, a amada terra do Brasil. O senhor é um insensível, doutor.

— Só com hinos, então?

— E com alguns episódios particularmente emocionantes do Chaves. Vejo seu Madruga e não aguento. É um injustiçado, doutor.

— Sem dúvida, ninguém merece ter aquele rosto. Mas me diga uma coisa: se isso incomoda tanto, por que não evita a parte do Hino quando tá vendo o jogo?

— E o senhor acha que eu não tenho raciocínio lógico, doutor? O senhor acha que não seria a primeira coisa que alguém em seu juízo faria? Acontece que, se não acompanho o Hino, o Brasil perde! Não foi outro o motivo por que nos desclassificamos na Copa de 82.

— Não acredito nisso!

— O senhor é um insensível, dout…

— (Levantando-se.) Sai daqui, Raio Vívido!

— (Recuando para a porta.) Mas…

— (Pegando o busto de Freud.) Some, Brado Retumbante!

— (Abrindo a porta.) Eu…

— (Cantando.) “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo…”

— Não… mas… eu… (Sai correndo.)

— (Voltando a se sentar.) Pô! É cada uma. O cara acaba com a melhor seleção que a gente já montou!

PS — Tentei responder todos os comentários dos últimos dias, mas, como vocês sabem, ainda não estou totalmente recuperado de uma severa doença que me abateu recentemente: preguiça. Respondi os dos últimos posts e estou estafado. Confiram. Seja como for, agradeço a todo mundo, mais uma vez, pela preocupação com minha saúde (seja lá o que essa última palavra signifique). Obrigado, rapazes. A estratégia de vocês três se revezarem e trocarem de nome para parecer que o blog é lido por muita gente é ótima.

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