— A gente vai pagar pra entrar aí? — perguntei. — Se é pra gastar dinheiro pra sofrer, vamo a uma peça do Gerald Thomas. É ruim do mesmo jeito, mas a gente pelo menos vê umas bundas.
Ao que minha mulher, sempre simpática, retrucou:
— Se tu quer ver partes pudendas sem o auxílio de um espelho, a gente tá no caminho certo. Mais umas duas ou três subidas assim e tua barriga diminui.
— Ru, ru, ru, morri de rir. Pois fique sabendo que em algumas sociedades desenvolvidas a barriga protuberante é sinal de abundância e fertilidade.
— Como onde? Na Lapônia, por exemplo?
Não ia dialogar com gente sem cultura. Afinal, era feriado, e isso é o que eu faço todo dia no trabalho, escrevendo para a TV. De forma que resolvi seguir a trilha de boca fechada, o que se mostrou impraticável por uma razão óbvia, que só um ser onipresente, onipotente e onisciente não consegue ver: duas narinas não são suficientes para absorver oxigênio.
Constatação que, por outro lado, veio acompanhada de uma descoberta empírica no campo das ciências naturais: mais alguns passos e percebi por experiência própria como surgiu a comunicação entre as baleias. A determinada altura, minha respiração soava como um disco de new age.
— Você quer voltar? — perguntou minha mulher, preocupada, ao perceber que os animais silvestres paravam para me ver e aplaudir.
— Ao útero materno — respondi.
— Sério. Tá tudo bem contigo?
— Tâmaras azuis com cabelo de Alcione — assegurei.
— Falta pouco. A gente já tá perto da cachoeira.
— Que bom. Porque é lá que eu vou te afogar.
De fato, não demorou até chegarmos à cachoeira: gastamos trinta minutos e cerca de dois terços das canelas. Mas o esforço valeu a pena, pois nada se compara a esse fenômeno natural. Exceto talvez um chuveiro cujo jato de água a gente não controla, podendo nos derrubar como um coice de elefante, e uma piscina, só que forrada com pedras angulosas e limo escorregadio, propício ao estabacamento.
Foi ali que senti pela primeira vez a integração com a natureza. Após um cachação de água que me fez perder o equilíbrio, a ponta de uma rocha se integrou totalmente ao meu calcanhar, na mais linda interação homem/meio ambiente, uma espécie de empalação para podólatras.
Se doeu? Digamos que já assisti a sessões de exorcismo mais silenciosas. Entre o primeiro urro e a entrada no hospital, lembro vagamente de ter me convertido a seis ou sete religiões.
Tive de engessar o pé e passar a andar de muleta. Mas posso afirmar que, hoje, depois dessa experiência, estou completamente mudado, sou praticamente um ser da mata, um ente da selva, uma criatura telúrica. Para começo de conversa, me locomovo como o Saci.
(Boas festas. Aguardem, juro que uma das minhas promessas para 2010 é voltar a escrever por aqui diariamente, como antes. É verdade. Isso e parar de mentir.)
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