Vocês sabem perfeitamente que admiro os antigos. Sou um fã da Paidéia, a educação do cidadão pelo e para o Estado, o culto à sabedoria, o apreço pelo comedimento, mulheres espartanas nuas fazendo exercícios em plena praça pública, enfim, cultura.
Porém, devo confessar que em matéria pedagógica sou como a maioria dos brasileiros: filosoficamente, sigo os persas. Vejam, por exemplo, esses sinais, plaquetas e pedidos gentis para que, nas estações de metrô, as pessoas portadoras de deficiência cerebral deixem a esquerda da escada rolante para quem está com pressa, esperem que os passageiros de dentro do vagão saiam para poderem entrar ou dêem lugar para os mais velhos se sentarem. Tudo muito simbólico, abstrato, cartesiano, ocidental e ineficiente. Nós, brasileiros, como bons persas, entenderíamos melhor o conceito se, ao infringir a norma, fôssemos vítimas desta excelente instituição irânica que é o empalamento.
Definir esquerda e direita ou dentro e fora não é coisa simples e, além do mais, a física quântica está aí para relativizar o tempo e mostrar que perder uma reunião por conta de alguns sujeitos escassos de sinapses e que não entendem complexos sistemas de letras e símbolos, inventados recentemente pelos fenícios, pode ser irritante para empregadores menos ligados a teorias sobre o continuum espaço-tempo. No entanto, a ameaça de uma estaca adentrando partes pudendas e um ou outro crucificado exposto à apreciação dos transeuntes representam algo bastante compreensível para psiques aquemênidas como as nossas.
Foi justamente por esse meu amor à racionalidade das leis persas, adquirido no contato com meus concidadãos, que ontem, após três horas tentando gravar um simples arquivo de texto num CD e receber pela ducentésima oitava vez a mensagem de que estava cometendo uma operação ilegal e provavelmente sendo investigado pela PF, levantei-me calmamente da cadeira, ergui o laptop sobre a cabeça e pronunciei:
— O Grande Mamá te inflige este castigo porque lhe causaste um grave dano, sem dele ter recebido afronta alguma. E por isso mesmo ele te oferece em sacrifício, ó desprezível máquina, burra e insossa.
Vocês, brasileiros e amantes dos antigos como eu, perceberam que repeti a meu modo as palavras do sábio Xerxes, que, como bom irânico, mandou açoitar o mar Egeu por ter destruído a ponte erguida sobre o Helesponto, punindo assim eficazmente o verdadeiro culpado pelo retardo na invasão da Grécia e provando que já houve na história alguém com ego maior que o de Caetano Veloso.
Dito isso, parti para estraçalhar o artefato no chão da sala e ensiná-lo de uma vez por todas que não desenvolvemos dedos opositores para pressionar o enter e receber ameaças de prisão, vindas ainda mais de criaturas que, a exemplo das misses, nem ao menos passaram pelo processo civilizatório. Fui interrompido por minha mulher:
— Posso saber com quem você tá falando, ó rei dos medos?
— Nada não. É uma conversa entre mim e o computador. Cuidado, olha o pé.
— Ah, por um momento pensei que você tava falando com um simples objeto, algo sem capacidade de raciocínio ou consciência.
— Quer sair da frente? Ele precisa aprender uma lição.
— E você acha que uma forma satisfatória de escarmento é o desembolso de dois mil reais para comprar um computador novo?
— Dura lex, sed carex. Se a coisa cai na anomia, você vai ver no futuro o que esses seres vão fazer com a gente. Ou nunca leu Asimov?
— Tudo bem, mas se é pra punir eletroeletrônicos, por que não escolhe a batedeira? Já tá meio quebrada e uma nova custa só duzentos reais.
— Não se trata de dinheiro, mas de princípios.
— O princípio de concussão cerebral que você vai ter se jogar isso no chão? — ameaçou.
Aqui, percebam o choque civilizacional: trata-se do Ocidente acomodatício dos sofistas versus a moralidade superior persa. Era recuar para os estreitos ou avançar sobre Salamina. Desisti da ação como um pobre europeizado e fui gravar meu CD num cyber café.
Em caminho, mais brasileiro que nunca, repetia o coro de Ésquilo:
— Ai! Ai de nós, desventurados persas!







on Dec 12th, 2008 at 11:21 am
Fala aí, conterrâneo!!
Saudades de nossa Pérsia querida…
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on Dec 12th, 2008 at 12:48 pm
este tipo de coisa sempre me lembra da frase no Catarro Verde, que imagino ser do Sérgio Faria(autor do blog):
“software é aquilo que vc xinga, hardware é aquilo que vc chuta”, ou algo parecido.
Post marconiano total.
abç
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on Dec 13th, 2008 at 4:02 pm
Faço minhas as palavras do Guga e mais minhas ainda as espartanas nuas fazendo exercício em praça pública. Parei nesse trecho não sei quantas vezes e foi complicado prosseguir.
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on Dec 13th, 2008 at 4:07 pm
Ei. Será que meu comentário anterior sumiu? Certo, certo, prometo moderação verbal nos próximos!
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on Dec 15th, 2008 at 12:52 am
Não importa a distância, Leandro. O importante é que a Mãe Pérsia estará sempre em nossos corações.
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on Dec 15th, 2008 at 12:54 am
“Marconiano” é a vó, Guga. Não admito insultos.
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on Dec 15th, 2008 at 12:56 am
Você também me insultando, Nelson? E deixe as minhas espartanas em paz, eu vi primeiro. Logo ali depois da ágora você encontra uns metecos parrudos fazendo exercícios também. São todos seus.
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on Dec 15th, 2008 at 12:58 am
Não sumiu, olhe aí. Você é que tava prestando atenção nas espartanas e não viu quando ele apareceu. A perversão é terrível…
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