Mataram Deus no século XIX com dois ou três sofismas na cabeça e seis silogismos à queima-roupa. O episódio foi semelhante ao do assassinato de César, com a diferença fundamental de que Deus não estava no Senado e, que saiba, não sofria de epilepsia. O ponto de contato é que ambos tinham a mesma mania de grandeza, apesar de o divino Júlio deter obviamente mais poder.
O Senhor passeava tranqüilo sobre a face das águas quando Nietzsche, que tinha entrado no Paraíso à socapa, com a intenção de matar Sócrates, deparou-se com Platão, banhando-se num lago de águas cristalinas e pensando: “Se o lago do mundo ideal é assim, imagina o lago do mundo ideal do mundo ideal!”
Nietzsche deixou escorrer um fio de baba pelo canto da boca e sorriu, olhos brilhando:
— Ecce homo.
Em seguida, pensou em fazer um trocadilho com Omo, o produto de limpeza, e homo, o produto de engravidar e pagar despesas de cartão de crédito, mas achou que não cairia bem, porque sendo alemão e tendo morrido antes da invenção do primeiro, poderiam acusá-lo de anacronismo.
Seja como for, aquilo lhe pareceu um Paraíso: matar Platão era ainda melhor do que matar Sócrates e, sem dúvida, mais fácil. Porque o que o alemão mais temia era, no momento de desferir um conceito mortal no coração do filósofo, que ele o interrompesse com duas mil e quatorze perguntas e iniciasse uma maiêutica capaz de extrair até o último fio de pentelho de sua paciência junto com uma ou duas conclusões, o que acabaria por forçá-lo a abandonar o plano e correr para casa gritando uma série de palavras em sua língua pátria, ou seja, uma série de palavrões.
Com Platão, a coisa seria mais civilizada: cinco ou seis relativizações de direita, uma ironia no queixo ou talvez slides mostrando o que a Igreja fez do platonismo e o caso estaria encerrado. No mínimo, morreria de ataque cardíaco.
Com isso em mente, Nietzsche arrastou-se por entre os arbustos e aproximou-se da margem do lago. Ali, escondido entre os galhos e colocando as mãos em concha ao redor da boca, de repente erguia a cabeça e soltava petardos:
— Có-cocó-cocó! O homem de Platão é uma galinha! — E voltava a se esconder para, em seguida, repetir o golpe: — Platão, vem cá, cicuta uma coisa! Cicuta o que eu te digo, Platão, cicuta! — Ou, ainda, cantando um corinho: — Platão é um efebã-ão, Platão é um efebã-ão!
Irritado, o grego levantou-se e veio nu na direção da voz, mostrando que o aumentativo que lhe deu o nome poderia ter sido outro, mais indecente. Percebendo aquilo, Nietzsche esperou, quieto, e quando viu o outro a um passo apenas, ergueu-se de braços abertos, pulando e gritando:
— Buuuu! Buuuu!
Acontece que naquele exato instante o espírito de Deus, que passeava sobre a face das águas, como disse, passava no local e ao ouvir o berro e ver os esgares terríveis do alemão, acabou caindo, fulminado pelo susto e esticando as canelas ali mesmo — se é que Deus tinha canelas, coisa que nunca se comprovou posto estar sempre usando túnica.
Ao ver o erro, Nietzsche soltou um “ops”, que em alemão é algo como “rachnsclupfchnrram”, e escapuliu, pulando o muro do Céu, enquanto Platão, sem entender direito o que acabava de ocorrer, apenas se perguntava, mirando o infinito:
— “Buuuu” no sentido lato ou estrito?
E foi assim que tudo se deu. O próprio Diabo me disse.







on Dec 20th, 2008 at 10:25 pm
Genial, Marconi. Não sei porque ninguém comentou até agora, e meus comentários são sempre mornos e sem graça e, portanto, nunca tem o direito de serem os primeiros, mas, enfim, esta crônica foi genial. Abraços.
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on Jan 23rd, 2010 at 10:33 pm
Eu sempre desconfiei que foi o Nietzsche!!
Vai lá e olha no “A Gaia Ciência”, ele foi o primeiro a dar a notícia!
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