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EM BUSCA DO SATANÁS SEM RABO (Capítulo II)

2. Dos mosquitos com dente, das pessoas esteticamente prejudicadas e da axé music

Um passo adiante na crença no Satanás Sem Rabo foi a constatação da existência de mosquitos com dente aqui em Santa Cecília. Os pernilongos chegaram a tal nível de crueldade que, outro dia, vi as baratas cruzando o corredor do apartamento com uma bandeira branca.

Para não dizer que agora são eles que usam o repelente contra mim. E que, ultimamente, só consigo dormir tranquilo depois de me amarrar a uma âncora.

Os moradores do bairro já não doam sangue: espremem as muriçocas no Hemocentro. (Fatos esses que narrarei em minha futura obra Além do Baygon e do Flit - prelúdio a uma entomologia do futuro)

Junte-se a isso o fato de que, talvez pela influência dos mosquitos, talvez pelo efeito da poluição, a gente que reside em nossa vizinhança não é das que passem diante de um espelho sem provocar alguma comoção. No espelho. Para se ter uma ideia, o PIB do bairro caiu drasticamente depois que Fellini morreu. Era daqui que saía a maioria de seus figurantes.

Por fim, há a música baiana a nos atacar de todos os lados com seu som dodecafônico (usa as doze vogais do alfabeto) e suas letras shakespearianas. Há quem a condene. Não eu, que sou evolucionista e acho que a axé music será responsável por uma mudança anatômica importantíssima para a humanidade e os genros em particular: os ouvidos poderão se fechar, como os olhos, no futuro.

De natural impressionável, todos esses eventos não me passaram despercebidos, e quando abriu uma igreja neopentecostal em frente de casa e passamos a escutar ruídos extraterrenos, fiquei levemente alarmado e indignado. Alarmado por não saber o que era aquilo e indignado com João, que obviamente não entendia nada de Apocalipse.

Tendo sido criado na cidade, a princípio pensei que os sons que ouvia, vindos da igreja, eram do assassinato de um porco a golpes de microfone, em algum ritual prescrito por Lutero, ideia que abandonei depois que um amigo zoólogo explicou que os porcos não falam latim.

- Não falam - confirmou minha mulher. - O máximo que sabem é português. E ainda assim só o suficiente para escrever em jornais.

- E isso é latim? De línguas mortas só conheço o grego e o português.

- É um padre. Tão matando um padre! Que século é hoje? Malditos huguenotes! São cruéis! Sem falar que não entendem nada de feijoada…

- Esses sons não são humanos. Nenhum ser humano grita desse jeito. Não sem um celular por perto.

- Então é um cantor de música sertaneja. Ou um… Aonde é que cê tá indo?

- Se é um cantor de música sertaneja, tô indo ajudar.

Então tive um estalo.

- Ai, não! Não acredito!

- Que foi?

- É ele!

- Quem?

- Oh, não, não, não! É ele!

- Mas ele quem?

- Ele, ele!

- O boto?

- O Satanás Sem Rabo!

Começava aí minha busca pelo ser que me perseguia em pensamento há décadas. E não me refiro ao fiscal do IR.

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1 Comentário on “EM BUSCA DO SATANÁS SEM RABO (Capítulo II)”

  1. #1 sizenando
    on Apr 11th, 2009 at 9:41 am

    obrigado pelo ritmo, ainda estou rindo.

    saudações e boa sorte em sua busca pelo dono do rabo perdido.

    um abraço

    [Reply]

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