Primeiro Passo
Admitimos que éramos impotentes perante o raciocínio lógico e a análise crítica, que tínhamos perdido o controle sobre nossos dois neurônios, que líamos a Veja e acreditávamos em tudo o que estava ali escrito, que passávamos a vida a repetir clichês, a reproduzir frases feitas e a rir com o Zorra Total.
Segundo Passo
Viemos a acreditar que um Poder superior a nós mesmos poderia fazer com que parássemos de roubar dinheiro público, jogar lixo no chão, abrir malas de carro para escutar som alto nas ruas, assistir a jogos de futebol ou novelas — e aprendêssemos a fazer uma fila e a ler um livro.
Terceiro Passo
Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida nas mãos de Deus, na forma como o concebíamos: um ser levemente infantilizado, para quem bastava rezar e Ele faria tudo o que pedíssemos, contanto que acendêssemos uma vela, subíssemos um morro de joelhos ou dançássemos o Tchan fantasiados de Clodovil dentro de uma penitenciária masculina. O Poder se chamava Judiciário e demorou dez anos para responder.
Quarto Passo
Fizemos destemido e minucioso inventário moral de nós mesmos. E descobrimos que éramos nietzschianos.
Quinto Passo
Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outros seres humanos a natureza exata de nossas falhas. Mas cruzamos os dedos antes e não valeu.
Sexto Passo
Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter. Mas Ele desistiu, afirmando que não fazia milagres.
Sétimo Passo
Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições. E Ele insistiu: “Nã-nã-ni-nã-não.”
Oitavo Passo
Fizemos uma relação de todas as pessoas que havíamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados, desde que fossem nossos amigos, família, amigos de conhecidos, conhecidos de amigos ou tivessem nos dado alguma propina ou um agrado.
Nono Passo
Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse algum esforço incongruente de nossa parte, como levantar-se da cadeira e agir.
Décimo Passo
Continuamos a fazer o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente, embora cantássemos mentalmente uma música do Babado Novo para não ouvirmos nossa voz.
Décimo Primeiro Passo
Procuramos, através da prece, da meditação e de alguns conhecidos no Céu, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma como o concebíamos, ou seja, uma espécie de FHC que voa.
Décimo Segundo Passo
Tendo experimentado um despertar espiritual graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos brasileiros e praticar estes princípios em todas as nossas atividades, sobretudo nas primordiais de nossa gente, quais sejam: colocar a culpa no governo quando se está cometendo uma infração; rir, compreensivo, ao ter um direito sonegado; demonstrar, falando incessantemente, a cultura geral de uma borboleta incinerada; e coçar o saco em público.
Passo Bonus Track
Então, após tudo isso e muito meditar, finalmente tomamos uma resolução grave e decisiva: comprar um caderno novo para o inventário, porque aquele já estava na última folha.







on May 20th, 2009 at 10:45 am
Texto espetacular!!!
Incrível como bastam apenas doze passos para um alcoólatra, um chocólatra ou um neurótico. É preciso uma dúzia de passos bônus track (podíamos chamar de disco 2 ou disco extra, que tal?) para os B.A.
- Admitimos que sabemos de quem é aquela carteira no chão, pois vimos ela caindo do bolso daquela pessoa, e se ficamos com o dinheiro, alegando desconhecer o seu dono, foi de sacanagem mesmo.
- Tenho consciência de que qualquer imbecil que aparecer com um bom projeto, seja para o que for, só terá o nosso apoio se o autor da idéia for inapelavelmente explorado e dele não extrair nenhum lucro, ou que este seja infinitamente menor que o nosso.
- Entendo que as músicas que tocam no Carnafacul são ruins, mas que posso esconder meu defeito alegando que lá vou arranjar um monte de mulher. E assim, mostrarei que além de ter péssimo gosto musical, só consigo pegar biscate em locais de alta rotatividade sexual.
Ah, tô com preguiça de continuar. Isso daria mais um passo, inclusive.
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on May 20th, 2009 at 8:37 pm
Passando para saber se a reza deu certo? Como estão as ex-amígdalas? E a pressão? Sei que era alta, mas só espero que não seja uma hiper tensão…
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on May 21st, 2009 at 12:41 am
Acho que estou bem na foto. Não leio a Veja, não assisto Zorra Total, não repito clichês (a não ser por gozação), sou ateu, não acredito no Gilmar Mendes, prefiro ler Kant a FWN… Já superei uns 6 passos :).
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on May 24th, 2009 at 2:28 pm
Pensei que a imagem de Deus dos brasileiros correspondesse a um senhor baixinho, de fala rouca e nove dedos…
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on May 25th, 2009 at 5:42 pm
#4 hehehehehe
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