Vim ao hospital fazer uma biópsia nos rins e, saído o resultado ontem, contam-me que permanecerei mais cinco dias aqui, por dois motivos: fazer um tratamento chamado pulsoterapia e passar a usar fraldões. Fazer o tratamento, que dura seis meses ao todo, para tentar evitar a hemodiálise. Usar fraldões porque me borro de medo de hemodiálise.
Estar no hospital é como estar em casa. A diferença é que aqui os mosquitos se vestem de branco. Tal é a profusão de agulhas entrando nos meus braços que há uma semana um coador de leite me olha com pena. Se não fosse o frio deste outono, imaginaria que as moças estavam fazendo isso para me ventilar.
Instruídas em filosofia, o método delas é comtiano: tentativa e acerto. Iniciantes, contudo, ainda estão exercitando a primeira parte do curso. Segundo ouvi dizer, as do meu andar são quase todas recém-chegadas à Beneficência Portuguesa. Deve ser verdade. Provavelmente, da baía de Guantánamo.
Quando não estão me picando, atrapalhando minha leitura ou meu trabalho, as enfermeiras gostam de discutir literatura. Há uma delas, aliás, que vai além, parece ela mesma um personagem shakespeariano — aquele asno de Sonho de uma noite de verão. Sobretudo da cabeça para cima.
Ou isso, ou é médium e está psicografando o burro de Esopo. Já vi papagaios com mais contenção verbal. A mulher parece uma sogra em estéreo.
O maior desejo de sua vida, de acordo com o que me contou, é enfrentar Fidel Castro nas Olimpíadas de Retórica de Leipzig. Sou ela e dou dois Chávez de vantagem.
Aliás, nada encanta mais as funcionárias deste nosocômio do que descobrirem que sou escritor. Reação esfuziante igualmente comum em outros lugares onde faço cadastros e que, para mim, demonstra a atitude típica da população de um país de cultos e letrados. Também na Irlanda ou na França deve ser assim: quando sabem que alguém é escritor, as pessoas regem como se observassem um sujeito com seis sacos. O que sei ao certo é que na Somália isso se dá ao encontrarem um prato de comida e, entre os saarianos, um copo d’água. Quer dizer, deve ser um bom sinal.
Bom, mas não é só de tristeza que se faz uma internação. Também há principalmente tédio e aborrecimento. Nada que não se consiga vencer quando, como eu, se tem otimismo e fé: o otimismo de que vou morrer dentro em breve e a fé de que não há enfermeiras no céu.
A médica não pensa assim, diz que o tratamento é demorado, chato, caro e que não há certeza de cura, mas que felizmente os remédios importados são fornecidos pelo SUS.
— Doutora — falei, com uma dificuldade de pensar depois da décima injeção do dia que me deixa com um semblante inteligente de Agripino Maia. — Sou um homem racional, cartesiano, educado pelos existencialistas. Papai Noel, tudo bem. Mas não acredito em SUS.
Ela entendeu. E vai utilizar um sistema mais científico a partir de agora. Ainda hoje recebo a visita da mãe de santo.







on May 27th, 2009 at 10:48 am
Nada de SUS!! Se a mãe de santo não der jeito, terás de apelar para Caetano. O Veloso, sim, ora pois!!
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on May 27th, 2009 at 11:16 am
Mantenha o bom humor. As probabilidades de cura através desse método são bem melhores estatisticamente do que depender do SUS. Melhoras.
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on May 27th, 2009 at 11:27 am
Hmmmm… vc está com “rinite”? Cortaram um bifão do seu nariz? Hemodiálise de muco nasal? Sei lá, rim… rinite… certo? Se cuida!!
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on May 27th, 2009 at 11:32 am
Camarada Marconi:
Torço pela tua rápida e total recuperação, inclusive estou rezando uma novena em tua intenção, juntamente com um grupo de atenciosas (e gostosas) e vizinhas. Também fiz uma promessa ao Deus Baco. Quando estiveres bom, comprometi-me a promover um bacanal de três dias e três noites. Ananias, o anão, já confirmou presença. Sou assim, generoso: pelos amigos faço qualquer sacrifício.
Te cuida, animal!
Força aí!
Um abraço.
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on May 27th, 2009 at 11:46 am
Tentei um sorriso discreto, juro, condizente com a gravidade do quadro. Mas quando terminei a tua crônica (desculpe) e vi logo abaixo o posted in: cotidiano, não deu. Não consegui de jeito nenhum impedir que os meus quatro cisos ficassem à mostra…
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on May 27th, 2009 at 1:47 pm
Pô, Marconi, você é um insatisfeito mesmo! Tá aí na cama do Antonio Ermirio de Moraes, recebendo acupuntura moderna, ouvindo piadas com o SUS no meio e ainda reclama!!
Sai dessa e vá trabalhar!
Ou melhor, vá tomar no SUS!
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on May 27th, 2009 at 6:42 pm
Hemodiálise?! Puxa!
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on May 28th, 2009 at 4:09 pm
Caro Marconi: doente ou não, sendo furado ou não, com possibilidade de cura ou não, uma coisa é certa: seu bom humor é seu maior ‘fator de cura’… acho que vou começar a chamá-lo de ‘Wolvie’ (o apelido carinhoso do Wolverine, exemplo maior de poderoso fator de cura).
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on May 28th, 2009 at 5:17 pm
assim que tiver um tempinho, veja se te agrada a ilustração que ninguém pediu mas eu fiz em cima do seu guardião da gramática.
http://sizenando.opsblog.org/?page_id=298
um abraço!
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on May 29th, 2009 at 8:02 am
Existem os “Drs da Alegria ” , mas será que existe a livre docência do sarcasmo?
Melhoras pra vc já o Ixport está desenganado
abraços
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on May 29th, 2009 at 10:32 am
eita, vamos curar logo aí para tomar a Teresópolis!!!!!
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on May 29th, 2009 at 1:20 pm
Melhoras. Que as fraldas sejam brevemente substituidas por literárias cuecas.
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on May 29th, 2009 at 8:35 pm
Marconi, demoro a vir aqui e te encontro dodoi. Melhoras, menino!
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on May 30th, 2009 at 11:43 am
Sem piadas,
meu amigo!
Saúde!
CASCA
by Ramiro Conceição
O Amor
é casca
do fruto
que quer
viver,
é interface
entre
conteúdo
e tudo.
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on May 31st, 2009 at 11:40 pm
Melhoras, guri!
Bjs
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on Jun 3rd, 2009 at 5:26 pm
Marconi, apesar de tudo você está escrevendo cada vez melhor:
“Nada que não se consiga vencer quando, como eu, se tem otimismo e fé: o otimismo de que vou morrer dentro em breve e a fé de que não há enfermeiras no céu.”
Sensacional!
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on Jun 8th, 2009 at 11:07 pm
eita. que porra é essa que vc teve?
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