DANTE: Recomeça a partida. Um a zero para o Inferno. Friedrich, o que você acha que o Céu deve fazer para virar o jogo?
NIETZSCHE: Olha, Dante. Em primeiro lugar, rearrumar a defesa e organizar o meio-campo. A verdade é que Elias está sumido em campo. E Jó está sofrendo na defesa.
DANTE: Vejam só, o Inferno já retoma a bola e parte para o ataque. Mas não, falta! Pedro derruba Belzebu e recebe cartão amarelo. Pedro discute com a juíza e nega que tenha cometido a infração. Minerva insiste. Pedro nega três vezes. Jesus entra na discussão e diz que quem nunca cometeu uma falta atire a primeira perna. Ih, esquenta a briga. João Batista lança uma sandália na cabeça de Átila, que rola no chão perto do goleiro ACM.
BELEROFONTE: Veja que onde Átila rola, não cresce grama, Dante.
DANTE: Bem observado, Belé. E João Batista insiste, hein. Vai pra cima de Átila, joga a túnica de camelo no chão e parte para a briga…
NIETZSCHE: Cá pra nós, Dante, João Batista é bom jogador e tudo, mas é um bad boy. Enquanto não dominar esse temperamento dele, sua carreira nunca vai deixar de ser uma eterna terra prometida.
DANTE: Agora, pra completar, Stálin dá um tapa na auréola de Gabriel e o chama de “ópio do povo”. “Seu ópio do povo”, ele diz. A confusão se generaliza.
BELEROFONTE: Dante, os Templários, que estão no banco de reservas do Céu tentam invadir o campo. Mas são contidos pela ira divina. Deus, em sua infinita bondade, abre um buraco no chão onde eles caem e são soterrados. E agora o massagista do Céu entra na cancha pra cuidar de Gabriel, distribuindo garrafinhas de mel e pedaços de ázimos pra todos os jogadores.
DANTE: E no banco de reservas do Inferno, Orfeu?
ORFEU: “Como uma deusa, você me mantééém. E as coisas que você me diz, me levam alééém…”
DANTE: Orfeu!
ORFEU: Dante, por incrível que pareça, Satã está calmo. O Diabo está sentado, desenhando algo em sua prancheta… Um sete, Dante. Satanás está pintando o sete.
NIETZSCHE: Ai, ai, ai, o clima continua quente. Belzebu pegou um pedaço de pão que Jesus lhe oferecia, amassou e jogou no chão.
BELEROFONTE: Pão esse que Jó comeu, Nietzsche. Eita, Dante, e agora a briga contagiou as torcidas. Uou! Confusão na arquibancada. Os profetas, liderados por Isaías, atacam os pecadores do Inferno a pedradas.
DANTE: Não dá. Enquanto permitirem a entrada dos profetas uniformizados em campo jamais vai acabar a violência no futebol.
NIETZSCHE: Também, Dante, convenhamos. O policiamento é precário. Cadê os anjos de espadas flamejantes quando a gente precisa deles?
DANTE: É verdade. Olha, eu quero dizer a nossos ouvintes que a briga é feia e promete não acabar tão cedo. Pra vocês terem uma ideia, agora mesmo o marquês de Sade passou a mão na bunda de Moisés, que praguejou sete vezes. Alguma chance de a confusão acabar e o Céu conseguir reverter o marcador daqui até o final do primeiro tempo da eternidade, Friedrich?
NIETZSCHE: É inútil, Dante. Todos nós já vimos essa história. A briga não acaba nunca, mas dá mal na cabeça sempre. Eterno retorno. Orfeu, que é grego, sabe disso melhor do que eu. Não é Orfeu?
(Em vez da voz de ORFEU, entra trecho de O Guarani.)
DANTE: Ih, Friedrich, deu interferência. Orfeu pegou a Hora do Brasil!
(Continua O Guarani e, em seguida, entra voz de locutor: “Em Brasília, 19 horas…”) (FIM)







on Jun 30th, 2009 at 8:59 am
Marconi, só não morri aqui porque não consegui decidir pra onde iria minha pseudo-alma imortal.
“Ele não monta na lambreta, ele não monta na lambreta…”
Porra!!! Gênio!!!
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on Jun 30th, 2009 at 1:18 pm
Brilhante, Marconi. Parabéns!
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on Jun 30th, 2009 at 1:20 pm
este clássico só perde para o Internacional e Corínthians brigando pela arbitragem
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on Jun 30th, 2009 at 3:59 pm
“Seu ópio do povo”. Hehehehe.
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on Jun 30th, 2009 at 8:53 pm
Desse jogo, caro Marconi, aprendo a lição de que o Céu (ou o Bem) tem que empatar e desempatar a partida pelos próprios méritos (já que Deus anda distraído a marcar gol contra). Portanto, cabe ao Céu, numa luta filosófica, estética, política, ética mas, principalmente, com humor e alegria, vencer a peleja. Ainda resta uma eternidade…
Grato, Marconi, pelas gargalhadas da alma. Em retribuição ao presente, lhe ofereço um ramalhete…
BUQUÊ
by Ramiro Conceição
Se me falta inspiração
então invento
- com artifícios -
ofícios ao tempo.
O que sempre importa
é o movimento
a sacudir o pó
que ama o sedimento.
Pronto, já sou outro!
Meus pedaços brincam
ao sol do sentimento.
Danço, já estou solto:
um buquê de vaga-lumes
alumia…o apartamento.
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on Jul 5th, 2009 at 1:14 pm
este clássico sempre termina igual…
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on Dec 21st, 2009 at 8:21 pm
Genialllllll,adoreiii
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on Dec 21st, 2009 at 8:22 pm
Continua por favor,
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