Marconi Leal Rotating Header Image

SERRA DOS ÓRGÃOS (1)

A única coisa que justificaria o alpinismo, em minha opinião, seria se, ao chegar ao topo do Everest, por exemplo, o sujeito fosse recompensado com uma fonte de single malt ou, no mínimo, de Itaipava Gold. Sem isso, o esporte para mim tem a mesma utilidade da faixa de pedestres no Brasil: nenhuma.

Até esse final de semana, portanto, minha experiência na atividade envolvia apenas uma tentativa de leitura de A Montanha Mágica. E, ainda assim, meu fôlego precário não me permitiu avançar além da página 30.

Porém, entre os vários erros patentes cometidos por Deus na criação do universo, caso dos buracos negros e da Baby do Brasil, encontram-se os hormônios femininos e a semana que precede a menstruação. As guerras, sabem todos, surgiram em função desse período, quando, em vez de ficar em casa levando esporros merecidos por respirar ou piscar os olhos, os homens resolveram se entregar a empresa mais amena.

Assim, quando minha mulher sugeriu que viajássemos a Petrópolis e percorrêssemos uma trilha na Serra dos Órgãos, concordei imediatamente, depois de confirmar com a embaixada não haver mais vaga entre nossas tropas no Haiti. E de tentar, galante:

— Posso te levar ao ápice de outra forma…

— Prefiro caminhar. Cansei de chegar ao ápice de burro — respondeu ela, grácil.

Seguimos, enfim, para o aprazível passeio: eu, ela e Asmático, o carro popular 1.0 que a gente comprou em breves 60 prestações. Bom carro e total flex, Asmático funciona com gasolina, álcool e, nas subidas, duas ou três bombadas de Aerolin. O único problema dele é que, tendo sido projetado na era pré-newtoniana, não conta com aceleração.

Estacionamos o carro no sopé do morro — tendo antes o cuidado de consultar o verbete no Aurélio, para ver se estávamos no lugar certo — e nos preparamos para a subida. Esperto, calcei havaianas e acendi um cigarro.

Para minha surpresa, a escalada não foi difícil. Os únicos contratempos que enfrentei foram alguns escorregões em pedras soltas (instrutivos, pois descobri a utilidade do queixo) e o roçar da língua nos joelhos, que atravancou um pouco meus passos.

Após meia hora de esforço, no entanto, chegamos bravamente a uma casinhola onde esperava ser recebido com uma coroa de louros e algumas caixas de Band-aid e mercurocromo.

— Que pena que a gente não trouxe uma bandeira do Sport pra fincar aqui no topo — falei, orgulhoso.

Minha mulher riu. Estávamos apenas na entrada do parque. O nome Serra dos Órgãos — descobriria trinta metros acima, ao perder um dos pulmões — era, afinal, bastante descritivo. (CONTINUA)

Share and Enjoy:
  • Digg
  • Sphinn
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Mixx
  • Google

17 Comments on “SERRA DOS ÓRGÃOS (1)”

  1. #1 Luana
    on Nov 26th, 2009 at 2:33 pm

    Bah que fria… caí numa dessas esses tempos. É bacana este tipo de passeio, pena que só é possível fazer uma vez por ano, porque o esforço físico é tanto que se demora pelo menos 365 dias na recuperação.

    [Reply]

    Marconi Leal Reply:

    A minha recuperação vai levar um pouco mais, Luana. Talvez uma ou duas existências.

    [Reply]

  2. #2 Lionel
    on Nov 26th, 2009 at 4:59 pm

    Em Brasília, desconheço as razões, a faixa de pedestres efetivamente funciona.

    Talvez seja porque, em média, as infrações cometidas por lá são de ordem mais grave, de modo que nem tem graça infringir uma simples lei de trânsito. Mais ou menos como um cara que fuma Hollywood e nem considera Free como cigarro.

    [Reply]

    Marconi Leal Reply:

    É uma pena. Os motoristas não têm nem a chance de atropelar um político.

    [Reply]

  3. #3 ****
    on Nov 26th, 2009 at 9:53 pm

    A bandeira do Sport tinha de ter ficado mais embaixo, junto com o carro.
    Ainda bem que minha mulher ganha em sedentarismo de mim.

    [Reply]

    Marconi Leal Reply:

    Fui ao médico certa vez e ele me disse que sou sedentário. Saí de lá orgulhoso. A humanidade levou milênios para chegar ao sedentarismo.

    [Reply]

  4. #4 Twitter Trackbacks for SERRA DOS ÓRGÃOS (1) – Marconi Leal [opsblog.org] on Topsy.com
    on Nov 27th, 2009 at 10:07 am

    [...] First Tweet: 21 hours ago marconil Marconi Leal Post novo no blog: http://marconileal.opsblog.org/2009/11/26/serra-dos-orgaos-1/. retweet [...]

  5. #5 Carlos
    on Nov 27th, 2009 at 10:16 am

    É, também já tive que fazer isso aí, pelos mesmos motivos hormonais que você. É frustrante não encontrar nem um kiosquezinho de sorvete do mcdonalds no cume desses passeios “ecologicos”. Pô, que custava, né? Estou aguardando o desfecho da história (bom, se está escrevendo significa que não foi trágico). Abs!

    [Reply]

    Marconi Leal Reply:

    Foi trágico. Tô escrevendo justamente porque é uma atividade que não exige o uso das pernas.

    [Reply]

  6. #6 Zezolin
    on Dec 1st, 2009 at 10:26 pm

    Além de confirmar com a embaixada não haver mais vaga entre nossas tropas no Haiti, poderias ter buscado uma saída à esquerda, saindo destrambelhadamente rumo ao estádio do teu time, alegando chegar primeiro na fila dos ingressos para a próxima Libertadores!
    Seria outra opção…

    [Reply]

    Marconi Leal Reply:

    A desculpa da Libertadores não colaria. Teria de inventar algo mais crível, como ter sido convidado pela Nasa para a próxima viagem à lua ou coisa do tipo.

    [Reply]

  7. #7 Luna
    on Dec 2nd, 2009 at 2:35 pm

    Ainda bem que vc esqueceu a bandeira. Se não, não tinha jeito de subir coisa nenhuma… :)

    [Reply]

    Marconi Leal Reply:

    Maldade sua, Luna. A bandeira do Sport sobe, sim. A meio mastro.

    [Reply]

  8. #8 Regina d'Ávila
    on Dec 3rd, 2009 at 1:00 pm

    KKKK…Adorei…
    Não demore…estou aguardando a continuação…
    Olha…um cigarro antes de uma subida? hahahaha..nem pensar..
    Ok….Se tivesse fincado a bandeira, certamente iria apanhar..alí só deve ter flamenguista..hahaha
    Beijos,
    Regina.

    [Reply]

    Marconi Leal Reply:

    Acho que não tinha flamenguista, Regina. Subi e desci sem ter sido assaltado.

    [Reply]

  9. #9 Monsores
    on Dec 11th, 2009 at 2:02 pm

    Marconi, nasci em Petrópolis. Fiz esse caminho diversas vezes.
    Deu a maior saudade lendo esse seu post, mesmo que fale tão pouco (ainda) sobre o caminho.

    Se você foi pelo Bomfin, o que creio, tenha feito, deve ter passado pela pedra da onça pintada, e a casa que você falou deve ser a recém-construída (2002, mais ou menos) guarita.

    Ainda farei esse caminho de novo…

    [Reply]

  10. #10 gugaalayon
    on Dec 18th, 2009 at 5:04 pm

    saudades do altiplano?

    [Reply]

Leave a Comment